sexta-feira, 7 de junho de 2019

MARIA LIBERTADORA: TRAÇOS MARIANOS NOS EVANGELHOS E SUA CONTRIBUIÇÃO TEOLÓGICA PARA A IGREJA LATINO-AMERICANA.



Introdução
É comum na piedade e devoção popular encontrar em Maria a figura exemplar de mãe, doce e compassiva, próxima de Deus e dos santos, tão alta em dignidade, piedade e intercessão, que recorremos a ela para nos ajudar nas nossas causas. Tal devoção cultual e veneração mariana estar em contraponto ou conflito com o desprezo ou desvalorização de certa camada protestante (evangélica e neopentecostal) pela mesma.
Porém, para além do devocionário popular, dos excessos de divinização mariana e de certa tradição maximalista acerca do valor de Maria na Igreja e na vida dos fiéis devotos, vamos nos deter, até certo ponto, sobre um novo rosto de Maria que emergiu na América Latina (da década de 60 em diante), influenciado pelos escritos bíblicos e pela realidade de injustiça, miséria e sofrimento da maioria do povo latino americano: os pobres. A nova concepção que se gestou de Maria no nosso continente (nos Estudos Bíblicos, nas Comunidades Eclesiais de Base e nos Movimentos Teológico-Revolucionários) atribui à Maria o predicado de “libertadora”. Essa orientação teológica é chamada de “Mariologia Latino-Americana”, mas poderíamos também chamá-la de “teologia mariana da libertação”.
Tal reflexão teológica revolucionária ajuda-nos hoje a ter uma fé cristã mais madura, pois percebe Maria (e com ela a nossa identidade de fé) fazendo parte do projeto da salvação cristã. Observamos Maria não com uma identidade angelical, divinizada e pós-pascal, como já se sustenta na Tradição (até certo ponto importante), mas com uma identidade humana-cristã. Marcada por lutas, conflitos e dificuldades reais, porém, totalmente comprometida com a salvação e libertação do Povo (de Israel), assim como de todos nós, na atual situação que estamos: de conflito, de violência, intolerância, discriminação, exploração, desigualdade e injustiça socioambiental.
Para explicitar o que pretendemos com essa identidade mariana e, com ela, a nossa identidade cristã, vamos primeiro nos deter sobre as características de Maria em parte dos escritos e contextos bíblicos (evangelhos). Por conseguinte vamos delinear a influencia libertadora mariana na teologia e práxis latino-americana.
1) CONTORNOS DE IDENTIDADE MARIANA LIBERTADORA NOS EVANGELHOS
Vale deixar claro que toda a dinâmica dos evangelhos está orientada para o mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Nessa dinâmica está a participação, identidade e presença de Maria.
a)   Maria no evangelista Marcos
O Evangelho de Marcos está subdividido em duas grandes partes. Na primeira (Mc 1,1-8,26) se situa os textos que fazem referência à Maria. Nesta parte observamos Jesus inaugurando o Reino de Deus (1,14ss), Reino de libertação, contra o anti-reino (1,16-45): de injustiça, de exclusão, de negação de Jesus e do projeto do Pai. 
Se na primeira parte há uma busca pela identidade de Jesus (8,27: quem dizem os homens que eu sou? ), na segunda parte temos a identidade dos que estão com Jesus: os seguidores (discípulos, apóstolos e nós). Os que se identificam com Jesus estão seguindo-o, como Simão e André (1,16s). O sofrimento e a renúncia fazem parte do seguimento (8,34). A expressão mais radical do seguimento é o serviço contínuo até a entrega da própria vida pelo Reino como indica Jesus: “começou a dizer o que estava para acontecer....o Filho do Homem será entregue ao chefes dos sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão a morte...” (10,32-33).
A presença de Maria se encontra na passagem que fala sobre a família de Jesus a procura Dele (Mc 3,31-35). A identidade de Maria é a de “Mãe”, aquela que com sua família procura o Filho (Jesus). Porém, a questão familiar nuclear (parentesco sanguíneo de primeiro grau) não está em jogo, mas a questão polinuclear: a família ampliada, aquela que se situa na cultura parental do clã. Marcos apresenta que há um conflito entre a família nuclear e a família dos seguidores de Jesus.
Ao apresentar a concepção familiar na dinâmica comunitária cultural da época, Jesus apresenta o sentido teológico moral-social da identidade familiar cristã: “Eis minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de Deus”. Em Marcos (6,1s) Maria é Mãe a partir da filiação de Jesus: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria,...?” (6,3).  Porém, a família sanguínea de Jesus é colocada como “fora” da dinâmica do Reino, da adesão de Fé em Jesus como profeta (6,4). Enquanto os parentes de Jesus são caracterizados como incrédulos, nada pode ser afirmado sobre Maria, a não ser que ela estava no meio dos parentes e que não estava presente na hora da cruz. Fora disso, nada mais é possível afirmar dela.
b)   Maria no evangelista Mateus
Em Mateus Maria está incluída na narrativa da infância (Mt 1-2) e em alguns relatos da vida pública de Jesus.  O Evangelho tem a finalidade de apresentar ao leitor quem é o Cristo ressuscitado, em quem a comunidade crer e a quem esta quer seguir. Por esse foco Maria irá ser melhor compreendida.
Jesus é o “filho de Davi e Abraão” (1,1), portanto, é da geração de Israel. Se a tradição era descrever a geração de pai para filho ou filha (Mt 1,2:“Abrão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó”), Mateus dar mais importância à Maria, e não a José, ao tratar da geração de Jesus: “José o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo” (Mt 1,16).
Sem desmerecer José, observamos que Maria tanto faz parte da tradição de Israel (a vida de escravidão, luta e libertação), como também é a que acolhe em seu seio o Espírito Santo e é aquela que concebe (co-geradora?) de Jesus salvador, o Emanuel (Mt 1,18-23), o Messias, o “rei dos judeus”. Apesar de Jose ser um homem justo e bondoso, a relação de Maria com Jesus é de importância singular. Maria está implicada na ação do Espírito, na promessa do Salvador, na presença do “Deus conosco”, no encontro dos magos com Jesus (“viram o menino com Maria, sua mãe”) e na fuga para se livrar da morte (2,13).
Agora em Mateus (12,46-50; 13,53-58) a distância entre a família biológica de Jesus e a família de seus seguidores é diminuída. Não há oposição como em Marcos. Portanto, há uma abertura para identificação de Maria como aquela que faz a vontade do Pai (12,50).  Até aqui já é possível fazer uma ligação de Maria com a Trindade, pois ela está aberta para fazer a vontade do Pai, concebe o Filho e acolhe o Espírito.
c)    Maria no evangelista Lucas
O Evangelho de Lucas nos dá maior contribuição para a identidade mariana na dinâmica da realidade latino-americana. Pois no evangelista encontramos espaço para Maria como perfeita discípula e seguidora de Jesus. Para uma síntese distribuímos o Evangelho em oito blocos: i) a anunciação (Lc 1,26-38), ii) a visitação (Lc 1,39-45) e o Magnificat (Lc 1,46-55), iii) o nascimento e visita dos pastores (Lc 2,1-20), iv) a apresentação no templo (Lc 2,22-35), v) a vida oculta em Nazaré (Lc 2,39s e 2,51s), vi) o desencontro no templo (Lc 2,41-50), vii) a nova família (Lc 8,19s),  a mulher na multidão (Lc 11,27s) e viii) a preparação para pentecostes (At 1,14).
No primeiro bloco a identidade virginal de Maria (1,27) engloba a única e exclusiva ação de Deus. Ela está aberta a Alegria (Ave: Hairè) (1,28) messiânica (Zc2,14s; Sf 3,14-17) da promessa de Deus. É a contemplada (em quem habita o Espírito), o Senhor está com ela assim como esteve na vida de luta de Isaac (Gn 26,3.24), Jacó (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,11s) e etc. Maria busca o sentido para as coisas (Lc 1,29), é questionadora (Lc 1,34), é profetiza que está a serviço de Deus (Lc 1,38), é decididamente comprometida e ativa com a missão de salvação divina (Lc 1,39).
No segundo bloco Maria supera a tradição patriarcalista de ser acolhida e saudar primeiro o dono da casa (Maria saudou Isabel e não Zacarias), é bendita junto com o filho Jesus (Lc 1,42), é bem-aventurada porque teve fé (1,45), ela produz o fruto pela fé e não será abandonada na promessa messiânica. No Magnificat Maria manifesta a grandeza do Senhor e exulta-O como Salvador. Deus olhou para a humilhação de sua serva (Lc 1,48) como olhou para o sofrimento do povo de Deus no Egito.
Todos a chamarão de feliz (bem-aventurada) pelo que Deus fez em seu favor. Maria é pobre de Deus, é dependente Dele. Porque Ele olhou para a sua humilhação. Maria exalta a Deus (“seu nome é santo”) e afirma profeticamente a justiça real e social de Deus: “agiu com força de seu braço, dispensou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, a humildes exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53).
Por fim, Maria retoma as esperanças de Israel concretizadas em Jesus: “Socorreu Israel, ser servo, lembrando de sua misericórdia – conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência , para sempre” (Lc 1,54).
No terceiro bloco Maria passa pelas exigências políticas do recenseamento e em Belém tem Jesus. Encobri-o de faixas e coloca-o numa manjedoura, pois não havia espaço apropriado (Lc 2,7). A situação indica a condição pobre da família de nazaré. Com a presença e fala dos pastores, Maria faz um discernimento interior sobre os acontecimentos (Lc 2,19.51).
No quarto bloco observamos Maria como mulher de fé, sempre no caminho para encontrar-se com Deus e conduzir os seus para Deus. Ela é mulher pobre e começa a ter consciência das intempéries da realidade, das fragilidades, dores e sofrimentos que irá passar por e com Jesus até se concretizar a salvação (Lc 2,29-35).
No quinto bloco situamos Maria como cumpridora da fé e lei de Deus. Mas ela está na periferia, ela é de uma região pobre: Nazaré. Ela é mãe educadora (2,51). No sexto bloco, ela passa pela condição humana de perde de vista Jesus durante o caminho (2,43-45), mas reencontra-o. Maria expressa às limitações existenciais de não compreender o projeto de Deus na sua plenitude (2,50), de reconhecer-se limitada no saber sobre o que Deus queria.
No sétimo bloco Maria quer ver Jesus. A identidade da família de Nazaré em Lucas segue a mesma dinâmica de Mt 3,31-35. Trata-se da identificação familiar como aquela que ouve “a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Em Lc 11,27 há uma exaltação privilegiada da mulher discípula que ouve e pratica a palavra de Deus no lugar daquela que é mãe de Jesus. Porém, o foco da questão está na dimensão da fé, prática da família de Deus e não uma identificação direta sobre Maria como bendita.
No oitavo bloco acentuamos em Maria a dimensão oracional e comunitária da fé, Ela é perseverante na oração e está inserida na comunidade crente que tem esperança. Ela está integrada com o projeto de concretização do Reino de Deus (At 1,14).
d)   Maria no evangelista João
O Evangelho de João está dividido em três partes: prólogo (1,1-18), livros dos sinais (1,19-12,50) e livro da exaltação (13-20). Maria está presente na segunda e terceira parte. É importante destacar que ela nunca é chamada pelo nome (Maria), mas por duas características importantes e já citadas: mãe e mulher. Um diferencial deste Evangelho é que Maria é chamada de “mãe do discípulo amado”. Aqui se situa sua ligação com toda a comunidade de fé, todo o povo de Deus.
Em Caná (Jo 2,1-12) Maria participa dos sinais de fé, da semana programática. Caná é o espaço privilegiado do começo da revelação de Jesus e da fé dos discípulos. A dinâmica da “glória” tem aproximação relacional com o êxodo/libertação do povo (Ex 10,1; Nm 14,11-22; Dt 7,19). Maria está inserida nessa dinâmica. Na dinâmica da realidade em que falta o vinho (visto como alegria), Maria faz um apelo.
Essa sensibilidade para com a realidade, a descoberta do que se falta para a felicidade da comunidade e a intervenção em favor da mesma é nota da identidade mariana.  A resistência da fé é outro elemento de tal mulher. A exigência da realidade, a intervenção da fé, o sinal de resposta divina e a maior adesão de fé marcam esse processo. O poder, a liderança, a inclusão e participação comunitária integram um caminho para Jesus e concretização do Reino de alegria plena e integral.
Diante da cruz, com o discípulo amado, Maria está integrada no caminho de glorificação do Filho Jesus (Jo 19,25-27). Diante do drama da injustiça e da morte do Filho, Maria está de Pé (Jo 19,25). É perseverante na fé frente ao drama da morte. Maria assume o discípulo amado (comunidade) (Jo 19,26) e este a acolhe como mãe e na comunidade (Jo 19,27).
MARIA LIBERTADORA: NA REALIDADE LATINO-AMERICANA
            A partir do Concílio Vaticano II tivemos nos documentos da Igreja novos desafios para interpretar a presença e importância de Maria na Doutrina Social da Igreja para além de um devocionismo, uma recitação de Rosário e uns relatos de aparições. A nova impostação mariana estava agora sendo refletida a partir da história da salvação e da eclesiologia. Esses dois espaços foram sendo o lugar da reflexão. Porém, mais duas orientações foram decisivas para a nova hermenêutica sobre Maria na América Latina: a retomada das fontes bíblicas, o diálogo com as novas ciências modernas e a contemporaneidade.
            Essas orientações contribuíram para o estatuto epistemológico da mariologia no continente das histórias injustas e com a latente figura materna de Maria na centralidade da fé. Porém, decididamente com as aparições de Guadalupe em 1531 começa na Igreja latina a florescer a figura de Maria associada à Libertação a partir de novas perspectivas antropológicas e sociais.
Daí começou-se a observar em Maria a identidade feminina e de “Mulher” comprometida com a história deste povo (de Deus e do povo latino-americano). Nesse primeiro passo encontramos a relevância da identidade de Maria como Mulher já sinalizada no final do evangelho joanino (19,26) e em partes do evangelho mateano (1,20). A identidade feminina marial tem sua contribuição advinda dos novos sujeitos teológicos (a irrupção da mulher na teologia), das emergentes correntes teológicas (feministas) e das acentuações no campo pastoral e eclesial (a participação e comprometimento feminino nas igrejas, ministérios e lideranças) da América Latina. A emergente mariologia privilegiou uma releitura das Escrituras na dinâmica da práxis libertadora, mas com certo respeito da Tradição e da devoção eclesial à Mãe de Jesus.
Assim, iniciou-se uma maior identificação de Maria com as situações de sofrimentos, dor, desamparo e pobreza do povo. Com ela o Evangelho tornou-se mais encarnado. Sua primeira contribuição foi: a recuperação da voz das mulheres e a escuta dos clamores femininos por libertação, frente à realidade patriarcal, androcêntrica, sexista e discriminatória da mulher. Em tal situação encontramos a inspiração teologal da sensibilidade, resistência e práxis libertadora mariana no evangelista joanino (2,3). De igual modo a liderança, missionariedade e evangelização feminina (Maria faz parte desse processo) encontra sua inspiração bíblica na experiência com o ressuscitado no final dos escritos joaninos.
 Na teologia feminina libertadora a mariologia supera a visão ideologizada de ocultamento e submissão, presente na Tradição, por uma concepção revolucionária de justiça, corporeidade e maternidade na participação co-geradora de um mundo novo em Cristo. Tal concepção é desvelada pela participação e concepção de Maria no evangelho mateano (1,15-16).
A mariologia libertadora assume a causa dos pobres como reflexão bíblica a partir do olhar latino-americano. Trata-se da identificação de Maria com a condição, vida, identidade e esperança do pobre, no evangelho lucano (1,46-50; 1,26; 2,12; 2,24; 7,18-23) e mateano (Lc 2,6). No Magnificat (Lc 1,46-50) Maria é arquétipo da Igreja latino-americana: chamada a identificar-se com os povos sofridos e empobrecidos dessas nações; a maternidade de Maria em relação ao filho Jesus, identifica-a como mãe daqueles a quem Jesus quis si identificar (os pobres), dai o fundamento de Maria ser mãe do Filho de Deus e Mãe dos Pobres, referência cristã na teologia da Igreja por libertação.
BIBLIOGRAFIA
A BÍBLIA de Jerusalém. Nova ed. rev. São Paulo: Paulinas, 1985. 
DORADO, Antonio González. De Maríra conquistadora a María libertadora: mariologia popular latino-americana. Guevara: Editorial Sal Terrae, 1988.
MURAD, Afonso Tadeu. Maria, toda de Deus e tão humana: compêndio de mariologia. São Paulo: Paulinas, Santuário. 2012.
MURAD, Afonso Tadeu. Quem é essa mulher: Maria na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1996.
SILVA, João Justino de Medeiros. Pneumatologia e mariologia no horizonte teológico latino-americano.Roma: Pontifícia Universidade Gregoriana, 2003.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Grito Profético contra o crime de Brumadinho

No dia 22 de fevereiro na Igreja São José (paróquia redentorista do centro de BH) aconteceu o grito profético dos religiosos contra o crime humano e ambiental que se deu em Brumadinho – MG, pela multinacional empresa mineradora Vale (composta por uma corporação de apoiadores, políticos e empresarios). Há três anos do rompimento da Barragem de Mariana (5/11/15), (que matou pelo menos 19 pessoas, destruiu o povoado de Bento Rodrigues, destruiu matas, nascentes, córregos e toda a biodiversidade do Rio Doce e sua foz no Atlântico,) agora tal tragédia se repete, porém com danos maiores para a população e o meio ambiente.
Cerca de 500 pessoas (dentre estas, pobres, povo de rua, desconhecidos) tiveram suas vidas ceifadas pelos dejetos; as famílias sofrendo tamanha dor com os que foram soterrados; a cidade com toda a sua riqueza sociocultural foi destruída; o rio Paraopeba morto, está contaminado e com número zero de diversidade aquática; o povo indígena Pataxós foi prejudicado pelo crime ambiental.
O desejo de lucro a qualquer custo, a corrupção fiscal, as negociações políticas e empresariais para o rico empreendimento da Vale fizeram com que ela fechasse os olhos para esse grande mal e pecado socioambiental, pecado este que poderia ter sido evitado. Mas não: a Vale  continuou comprando os políticos, os fiscais, a imprensa e mentindo nos congressos e reuniões de responsabilidade ambiental. O resultado foi catastrófico para a biodiversidade da região e população de Brumadinho.  Essa irresponsabilidade exige Justiça.
Se no caso de Mariana a empresa transferiu todos os seus bens para outra empresa, antes da imposição fiscal, e, por conseguinte, não indenizou os atingidos, não entregou as casas prometidas, não pagou um tostão das multas; na contemporânea situação os mesmo não pode acontecer. Precisamos pressionar nossos governantes para que tal crime não fique impune. Algumas promessas estão sendo encaminhadas (doação de 100 mil e liberação do FGTS para cada família), mas isso nunca pagará as vidas humanas e ecológicas que foram apagadas da existência.  O chamado a consciência ética é o grande apelativo de Deus para com esse crime: “Que fizestes? A voz do sangue do teu irmão, desde o solo, clama a mim!” (Gn 4,10).
Diante deste fato, os religiosos não pretendem deixar esquecida na história esse evento trágico, e muito menos deixar de gritar e exigir do Estado (dependente das grandes empresas) e dos governantes (ligados ao agronegócio, acionistas, projetista e investidores comerciais) leis mais rígidas frente à falta de limite empresarial capitalista. A população não pode se calar. Os envolvidos não podem ser esquecidos e muitos menos ficar impunes.
A proposta de flexibilidade nas leis ambientais (presente no governo de Bolsonaro (PSL), Pimentel (PT) e Zema (PN), dentre outros) está acontecendo e precisa de um basta! Não podemos ficar calados e muito menos imobilizados diante dessa situação. Por isso, que a Igreja São José foi no dia 22 deste mês um espaço que dava voz aos religiosos profetas, aos excluídos indígenas e a todas as pessoas de boa vontade.
Infelizmente há muita desinformação. Muita gente não sabe que atualmente há mais de 24 mil barragens voltadas a diversas finalidades em todo o território nacional, 790 delas são destinadas a rejeitos de mineração. E existem ao todo 31 órgãos que abarcam 154 funcionários para fiscalizarem todas essas barragens (Agencia Nacional das Águas). O governo, dando liberdade irresponsável às empresas para incrementar a atividade criminosa, estabelece que: a fiscalização deve ser exercida pela própria empresa. Nada garante que a fiscalização é de fato efetivada com eticidade. Falta transparência nas decisões políticas: no ano passado (11/12), em reunião com os órgãos de Secretaria do Meio Ambiente, a empresa declarou que a barragem era segura.
Urge fazermos alguma coisa para refrear os crimes que vem acontecendo. É preciso “parar” as atividades mineradoras e fazer uma fiscalização séria e transparente sob a real situação das barragens; é preciso investir em projetos que sejam sustentáveis, isto é, vise o bem comum, e não destrua a vida no planeta por causa de lucro; é preciso ir a luta, assumir os espaços de crise socioambiental e denunciar as injustiças cometidas contra a população e principalmente contra os fragilizados e excluídos da sociedade: os pobres, os indígenas, o ecossistema, a mãe Terra; é preciso medidas éticas, sociais e políticas de preservação social e ambiental.

sábado, 27 de outubro de 2018

Sustentabilidade: uma definição integradora para a Ecoteologia.


Isaias Mendes Barbosa, CSsR.
A Ecoteologia trata da inter-relação, interdependência, ou comunhão integral entre todos os seres – bióticos e abióticos – quem fazem parte do nosso planeta. Ela se situa no âmbito científico, ético, antropológico e ambiental, porém, inspirada na e a partir da fé cristã, sabedoria bíblico-religiosa, da Tradição e Doutrina eclesial.
Todavia, Sustentabilidade se classifica como outro termo (substantivado ou adjetivado) relevante para Ecoteologia no âmbito ético, político e ecológico, na relação transitiva e dialogal dentre a fé cristã, a comunidade de vida e humana que permeia o nosso ecossistema planetário. Ora, os governantes, as empresas e os meios de comunicação midiáticos não poucas vezes se apropriam de tal termo nas propagandas de marketing, sem saber ou desvirtuando o real e profundo significado de Sustentabilidade (BOFF, 2012, p.9).
O problema não está somente numa definição conceitual inapropriada, mas também na forma como ela é utilizada para iludir, inebriar o público alvo (a população), a fim de que este continue a consumir produtos ou apõe projetos que pouco ou nada têm haver com a Sustentabilidade no sentido original e essencial do termo.
Diante do falacioso uso do termo, da incoerência conceitual e prática dos modelos atuais de economia e política socioambiental, pretendemos apresentar onde está o problema sobre tais modelos – até então definidos como sustentáveis – e sobre os problemas de sua prática social na contemporaneidade. Por conseguinte, esboçamos uma definição integradora do referido termo em relação com as diversas dimensões da esfera humana e da comunidade de vida, assim como destacamos suscintamente a relevância dessas colocações para a Ecoteologia.
O Teólogo Leonardo Boff na obra “Sustentabilidade: O que é. O que não é” analisa criticamente os seis modelos atuais de Sustentabilidade utilizados pelos governos e empresários. O primeiro modelo (padrão de desenvolvimento sustentável) classificou-se como capitalista, industrial, mercantil exploratório. Os efeitos de tal modelo na política e prática empresarial foi a exploração da Terra, a produção de desigualdade humana, a pobreza e a miséria. O consumo e exploração constante dos bens naturais, que eram limitados, geraram a degradação ambiental e o desrespeito ao ritmo de desenvolvimento da natureza. O desenvolvimento sustentável viável, justo e ambientalmente correto não aconteceu, portanto, se classificou insustentável (BOFF, 2012, p.41-44).
O segundo modelo (neocapitalista) aceitou as regulações do Estado, mas deixou o Mercado livre para seguir sua lógica concorrencial. Isso gerou tensão e desequilíbrio na sociedade estadunidense. Daí continuou-se a extração dos insumos da natureza e criou-se uma perversa desigualdade social (BOFF, 2012, p.51-52). O terceiro modelo (do capital natural), contraditório no uso do termo, pretendeu incorporar ao processo econômico os fluxos biológicos. A finalidade era potencializar a natureza, por diversos meios técnicos, químicos e naturais, para que ela produzisse mais. Tais ações geraram reposição de recursos naturais, mas para fins econômicos em detrimento da dignidade, valor e ritmo que a natureza possuia em si mesma (BOFF, 2012, p.52-52).
O quarto modelo (de economia verde) que integra ecologia e economia de forma harmoniosa, pretendeu auxiliar os pobres e pequenos agricultores com os meios técnicos, sementes e créditos. Tentou-se uma redução da poluição ambiental por diversos meios. Porém, a mudança prevista não alterou os padrões de consumo e nem esclareceu sobre os meios (éticos ou não) para a produção “verde” e os efeitos agressivos ambientais de tais atividades. Nesse modelo a desigualdade não foi minimizada pela sua raiz social e cultural (BOFF, 2012, p.53-55).
O quinto modelo (ecossocialismo), ainda não concretizado, visou uma produção respeitosa da dinâmica da natureza e promoveu a economia humanitária fundada nos direitos e nos princípios éticos fundamentais humanos. Mas tal proposta está encerrada no antigo paradigma não relacional entre o humano, a terra e o universo (BOFF, 2012, p.56-57), tal modelo teve as limitações do fechamento da sustentabilidade exclusivamente antropológica. O sexto modelo (do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia) subdividido em três expressões trata a) do decrescimento econômico; b) combina economia, ecologia, democracia, justiça, inclusão e equidade social; c) e busca uma democracia econômica na qual o crescimento deveria ser sustentável, suficiente, eficiente e equânime. Porém, tal modelo até agora não apresentou a força argumentativa da nova cosmologia e da ecologia da transformação (BOFF, 2012, p.60-61).
Em síntese Boff apresenta a razão ética de sua critica aos modelos políticos e empresariais de sustentabilidade:
Em conclusão podemos dizer: pouco importa a concepção que tivemos de sustentabilidade, a ideia motora é esta: não é correto, não é justo nem ético que, ao buscarmos os meios para a nossa subsistência, dilapidemos a natureza, destruamos biomas, envenenemos os solos, contaminemos as aguas, poluamos os ares e destruamos o sutil equilíbrio do Sistema Terra e do Sistema Vida. (BOFF, 2012, p.64)
            Se tais modelos apresentados demostram uma errada compreensão ou ilusória ideia sobre o termo Sustentabilidade, isso se dá por diversos motivos dentre os quais se destaca o sistema econômico, técnico e político vigente que se motiva a busca livre e irrefreável do capital acima de tudo e de todos, assim como tais lideranças políticas, empresariais e governamentais criam projetos, partem de “ideologias” ou pressupostos que pouco ou quase nada tem haver com o significado mais substantivo de Sustentabilidade e das dimensões que tal termo engloba ao pensamos no Bem Comum.
Neste sentido a compreensão e práxis do dito termo não alcançaram sua extensão e definição conceitual indicada por Boff: sustentar, segurar por baixo, suportar, servir de ancora, impedir que caia, impedir a ruína e a queda. Para Boff a compreensão prévia para uma definição original e eticamente necessária de Sustentabilidade se refere a tudo o que fizermos para que um ecossistema e a sua biodiversidade não decaia e se arruíne. Neste sentido se enfatiza o acréscimo de termos ou sentidos que fazem parte do mesmo campo semântico de Sustentabilidade: o conservar, o manter, o proteger, o nutrir, o alimentar, o fazer prosperar, o subsistir, o viver, o conservar-se sempre à mesma altura e conservar-se sempre bem (BOFF, 2012, p.31). “Estes sentidos são visados quando falamos hoje em dia de sustentabilidade, seja no universo, da Terra, dos ecossistemas e também de inteiras comunidades e sociedades: que continuem vivas e se conservem bem” (BOFF, 2012, p.32).
A partir da constatação do que não se denominou como sustentável nos projetos e ações governamentais e empresariais, vamos em busca de uma definição mais clarificada de tal termo. Ela deve abranger as relações entre os diversos setores de intervenção humana no sentido positivo do termo, assim com deve se relacionar com os âmbitos observados na Ecoteologia: cosmologia, antropologia, ética, ecologia. Neste sentido Boff nos atenta para alguns elementos presentes na história recente do conceito de Sustentabilidade. Ele sustenta que a preocupação do termo partiu da silvicultura, com o manejo das florestas, mas se originou conceitualmente na Alemanha. Se no início a questão estava relacionada com a preservação da floresta, pela limitação de corte para o consumo humano e produção de carvão mineral (BOFF, 2012, p.34-35), ao longo do tempo outras questões forma somando-se e se relacionando ao termo.
A preocupação de manutenção dos bens naturais para as futuras gerações, a limitação ou refreamento do crescimento económico, a radicação da pobreza, dos padrões desiguais de vida, a saúde do sistema ambiental, a reciclagem dos resíduos naturais, a busca por energia renovável (alternativa), a conservação da biodiversidade e a interdependências entre todos os seres, foram elementos ou questões que ampliaram e somaram-se na definição de Sustentabilidade e na busca de efetivação do termo nos programas de diversos países para a manutenção, o desenvolvimento e bem estar equitativo da vida humana e planetária.
Dois pressupostos são fundamentais para uma definição integradora de Sustentabilidade, a saber: o cosmológico e o antropológico.  O primeiro se reporta a “visão geral do universo, da Terra, da vida e do ser humano que serve de orientação para as pessoas e para a sociedade” (BOFF, 2012, p.77). Essa visão engloba a cosmogênese, o processo evolutivo e interdependente de todos os seres. Trata-se de um sistema aberto e em processo de transformação, harmonia, adaptação e etc. O universo é visto como um todo, a massa e a matéria são equivalentes, e na matéria está a informação como o resultado da interação entre todos os seres.
O segundo pressuposto, não sem relação com o primeiro, apresenta a gênese humana. O processo evolutivo complexo – de interiorização e interdependência – se transformou e nele surgiu à complexidade mais sofisticada da vida, a vida humana. Da interioridade surge o sistema nervoso central e um cérebro humano. Aqui desponta a consciência, a inteligência, a espontaneidade e a liberdade; a espiritualidade, a cordialidade, o cuidado e a vulnerabilidade (BOFF, 2012, p.82-83). Antropologia e cosmologia se integram e se relacionam como pressuposto da Sustentabilidade. Daí Boff apresenta uma definição integradora:
Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando sua continuidade e ainda atender as necessidades da geração presente e das futuras, de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução. (BOFF, 2012, p.107)
As condições favoráveis da existência de todos os seres é a base que dar sentido ao emprego do termo. Desde o processo da cosmogênese e da biogênese que se observa o processo evolutivo e transformador dos seres pela conjugação de elementos energéticos, informacionais e físico-químicos. É o fundamento de tudo e passo inicial para que os diversos seres que compõe a comunidade de vida e vida humana subsistam e se conservem enquanto tal (BOFF, 2012, p. 107).
A sustentação vital de todos os seres supera o paradigma antropocêntrico moderno (estrito) que exerce a objetivação ou coisificação instrumental da comunidade de vida planetária e cósmica. Isso significa que independente da funcionalidade utilitarista e capitalista, a biodiversidade, todos os seres bióticos e abióticos que participam do nosso habitat são importantes para a Sustentabilidade.
Por outro lado, a Terra é mais do que um instrumento de extração e captação de bens, é uma célula viva que se autorregula, sofre, regenera-se, evolui. É a base de subsistências da comunidade de vida e vida humana. Da Mãe Terra sai todas as demais formas de vida e conservação dos seres. O meio ambiente é espaço basilar da nossa existência. Somos interdependentes. Sem essa cadeia ou rede de vida a existência fica fadada ao fracasso (BOFF, 2012, p.108). A comunidade de vida forma os biomas e a biodiversidade para a continuidade da vida no planeta.
Neste o ser humano habita e participa da rede de vida e se destaca por ser o ser mais complexo e portador de consciência, sensibilidade, inteligência, amor e cuidado para garantir a continuidade da vida e civilidade humana, além de possuir a liberdade de intervir positivamente ou destrutivamente na natureza, no ecossistema e na espécie humana. A continuidade se dá pela fonte originária de todo ser e pelo processo de autocriação e expansão do universo vital. A assistência das necessidades humanas faz parte desse processo de Sustentabilidade da vida em todas as suas formas, pois são os recursos emergenciais que o Cosmo e a Terra nos oferece (BOFF, 2012, 109).
A conservação da nova geração além das que continuarão a nossa é condicionada pela relação de sinergia e cooperação com a terra e distribuição equitativa dos bens e serviços. A solidariedade e o direito de condições favoráveis de existência são os percursos de preservação das novas gerações. A comunidade de vida, por sua vez, é recoberta na Sustentabilidade como espaço para a vida e convivência do ser humano. Porém, não se tem cuidado, subsistência e conservação sem a capacidade de conservar o capital natural para ser entregue as gerações futuras (BOFF, 2012, p.109).
Ora, até aqui constatamos que a Sustentabilidade é de grande contributo para a Ecoteologia porque amplia e relaciona de modo profundo e integral a dimensão antropológica e a cosmológica. Neste sentido, há uma interdependência, ligação, relação, interação entre os diversos temas ou questões tratadas na Ecoteologia. O vínculo dos seres humanos com os demais seres que compõem a nossa Casa Comum e a visão planetária como um sistema complexo, inter-relacional e em constante auto-criatividade, transformação e evolução.
As questões da degradação humana e do meio ambiente tem o respaldo da Ética Humana Ambiental, do cuidado humano com a Casa Comum e da ligação dos seres humanos com os demais seres que compõe no nosso sistema planetário. Isso tanto é observado na Ecoteologia como na compreensão integrante da Sustentabilidade. Todavia, assim como na Ecoteologia, aquela se dedica a resgada o valor de todos os seres, independente de utilidade comercial e capital.
Ao ser tratado como pertencente às diversas esferas da vida humana e existência planetária, a Sustentabilidade se relaciona com as questões da pobreza, da desigualdade, da exploração comercial e capital, da degradação ambiental, da destruição do nosso ecossistema planetário e do próprio gênero humano. Neste sentido há uma aproximação muito grande entre Sustentabilidade e Ecoteologia. Pois tais questões se cruzam e se complementam na hora de se observar a vida nas suas variações de formas pelo princípio holístico. O respaldo que aquela dá sobre as questões da ecologia, da cosmogêneses, da antropologia humana, da economia, é enriquecedor na Ecoteologia, pois amplia as pesquisas e formas de pensar relacional e interdependentemente.
O processo sustentável desenvolvimento concede uma maior explicação sobre a evolução de todos os seres, isso serve como complemento para a dimensão teologal do dia da criação e da doutrina social da Igreja. Por fim, as questões éticas pertinentes a continuidade da geração presente e futura contribui na Ecoteologia para uma visão mais histórico-social-imanente da escatologia.   

Ecoteologia: o que é, que método usa e que temas trabalha?

Isaias Mendes Barbosa, CSsR.
            Ao falarmos de teologia estamos tratando de um tipo de conhecimento ou saber que deriva da fé cristã, mas se distingue desta porque apresenta formas, linguagens e métodos próprios, mais articulados e elaborados para descrever a vida, a compreensão e a forma de práxis do ser cristão. Sobre essa distinção entre fé cristã e teologia, Murad (2016, p.207) nos ajuda a compreender que a fé, é intuitiva, sensitiva, comparativa, expressa por analogias e aproximações das situações do cotidiano. Não elaborada categoricamente, a fé cristã faz parte da vida simples ou do sentido comum dos crentes, é um dom divino.
Já a teologia é discursiva, racional, ela elabora os dados da fé, das sagradas escrituras e da tradição eclesial, em busca de maior clareza sobre a vida e missão do cristão. É uma ciência com um rigor reflexivo, pois dá razão àquilo que cremos (fé), esperamos (esperança) e praticamos (caridade). A teologia está voltada para a luz da fé revelada para compreender o mundo, a vontade de Deus e responder evangelicamente às exigências da realidade. Apesar desta distinção, tanto a fé cristã como a teologia se implicam, pois a teologia é a reflexão sobre a fé cristã ou a partir dela. Elas partem de objetos indispensáveis ao saber e vida cristã: Deus, a Revelação e autocomunicação de Deus na história, e relação de Deus com a Comunidade (humana) crente e a realidade vivenciada. Todavia fica a questão: o que é Ecoteologia? Qual sua relação com a teologia e a fé cristã? O que diferencia a Ecoteologia dessas duas formas de saber?
A Ecoteologia é uma saber ou ciência que deriva da teologia, é parte desta. É um tipo de teologia cristã que partilha de elementos constitutivos da ciência da fé, porém com um diferencial, dentre outros: “consiste em pensar a fé no horizonte da consciência planetária. Essa se caracteriza como a (re)descoberta de que o mundo torna-se um todo, o ser humano è membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável” (MURAD, 2016, p.211).
A Ecoteologia trata de questões que relaciona a humanidade com a sua práxis e a realidade planetária que a cerca. É um saber de relação, de interconectividade, de intercambio e interdependência com tudo e em momentos variados. Assim, três âmbitos fazem parte das questões inter-relacionais da Ecoteologia: a ciência da interdependência do todos os seres, a ética do cuidado com o planeta e o paradigma pós-antropocêntrico (MURAD, 2016, p.212). Ela amplia a visão e consciência humana para além de um antropocentrismo, ou visão tradicional antropológica. Situa o ser humano na relação com os outros seres abióticos (solo, ar, energia solar) e bióticos (micro-organismos, plantas e animais) da nossa esfera planetária.
Apesar da Ecoteologia tratar de questões ou temas que pertencem à teologia como a fé, a revelação, o homem, a ética, os escritos bíblicos, a tradição, a experiência religiosa cristã, ela tem uma singularidade quanto ao método, a linguagem e ao conteúdo. Há um rompimento da separação tradicional entre corpo e alma, sujeito e objeto, realidade humana e realidade da natureza, é um saber que promove a integralidade nas relações entre os seres que compõe o nosso ecossistema. Não há uma redução metodológica conceitual como na teologia tradicional, mas também uma combinação de símbolos e imagens para tratar das questões ou realidade teológica.
Ela combina elementos que aparentemente não possuem nenhuma relação entre si, como a sabedoria da terra e a sabedoria humana, a degradação ambiental e a mobilidade humana, o aquecimento global e a economia, o bem estar humano e o cuidado com o planeta, revelação divina e o nosso ecossistema, a crise ambiental e a fragilidade do pobre. O método “combina vários acessos à comunhão da criação: tradição, experiência, ciência, sabedoria, dedução, intuição” (MURAD, 2016, p.216).
Se a teologia é uma prática teórica que considera o saber hermenêutico pré-teológico – como a filosofia, a literatura, a arqueologia, a medicina e a sociologia – para aprimorar ou amadurecer sua compreensão e posicionamento ético (não fundamentalista ou dogmático) sobre a realidade, a Ecoteologia, por sua vez, serve-se de outros saberes ou ciências (sociais e ambientais) – como a história, a economia, a agroecologia, o ecodesign, a engenharia civil e arquitetura sustentável, a geografia, a ecologia e o estudo dos solos, dentre outros – para sua postura moral ecológica cristã fundamental sobre a realidade relacional humana e ambiental integral. Para além de um discurso eclesial ou magisterial, da tradição bíblica ou das verdades reveladas da fé cristã, a Ecoteologia pensa a realidade humana, ambiental, planetária, social, estrutural, cultural e política á luz da fé. Ela tem uma função crítica, construtiva e se insere no movimento de continuidade, rupturas e avanços da teologia contemporânea:
[...] Não alimenta a ilusão de ser a grande chave hermenêutica para reconfigurar toda teologia. Tampouco é um pequeno setor, que se ocupa somente de questões ambientais ou da teologia da criação. Consiste em uma perspectiva, um enfoque, que permite reorganizar dados da fé, inferir, dialogar e aprofundar. Ela influencia a produção da teologia ao colocar perguntas decisivas no momento de realizar o intellectus fidei, a mediação hermenêutica própria ente teológica, que utiliza a Bíblia e a Tradição eclesial, sensível aos “Sinais dos Tempos” (MURAD, 2016, p.222).
            A Ecoteologia pode tratar dos mesmos temas, elementos ou referencial teórico da teologia. Todavia, o seu diferencial está em contribuir ou ampliar o patrimônio vivo do saber teológico contemporâneo e poder avançar nas reflexões em diferentes áreas disciplinares até então pouco ou quase nada exploradas. Para exemplifica, sustentamos que a Ecoteologia ora trabalha, ora recebe contribuição teológica sobre diversos temas.
O tema da Terra é focado numa visão cristã sobre o ser humano em relação com a natureza e Deus. Aqui o princípio cosmogênico de complexificação, interiorização/diferenciação e inter-relacionalidade se constitui como fundamental; o tema antropológico da Graça apresenta uma perspectiva cristã antropológica em relação com o processo evolutivo da matéria e história do cosmos. Há uma reflexão sobre a graça original e o pecado no horizonte evolutivo; observamos o tema do mistério de Deus sobre a relação una e trinitária de Deus conosco. Essa comunhão fundamenta a biodiversidade e a diversidade humana, a prioridade da cooperação e interdependência de todos os seres;
A Cristologia acentua o Cristo glorificado, aquele que é Palavra criadora, primogênito de toda criatura, o Cristo cósmico; na Pneumatologia a Ecoteologia acentua a função do Espírito Santo que cria, conserva, renova e consuma o projeto de Deus, atuando no crente, na Igreja e no universo; a Ética tem como conteúdo a conservação e continuidade da vida em toda sua extensão, a Ética do cuidado; a Teologia bíblica trás para a Ecoteologia a questão da criação e salvação, louvor, compromisso histórico, a sabedoria, a ética, o profetismo e etc, numa unidade integral; o tema dos estudos patrísticos resgata as intuições dos primeiros séculos referentes à ecologia e a relação do pecado, encarnação e redenção de Cristo na natureza. Por fim acentuamos:
[...], a ecoteologia trata de temas explicitamente ecológicos, em âmbito prático, para ajudar os cristãos a constituir uma sociedade sustentável, viável. Por isso, assuntos como água, resíduos sólidos, política energética, biodiversidade, governança global, consumismo e consumo responsável, mobilidade urbana, uso do solo, qualidade do ar torna-se também matéria-prima para a ciência da fé, como ética teológica. Em dialogo com as ciências ambientais, compreende-se cada questão no contexto da biosfera. A pontam-se as causas diversas que levam a degradação do meio ambiente e do ser humano. (MURAD, 2016, p. 229)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Fé e Política



A Fé e a Política sempre fizeram parte da vida do povo de Deus. No Antigo Testamento Moisés escreve os dez mandamentos para educar o povo na união com Deus (“Amar a Deus sobre todas as coisas”) e no compromisso de cuidado social do irmão (“não cobiçar as coisas alheias/ não levantar falso testemunho”), principalmente os mais abandonados: o órfão, a viúva, o migrante, o pobre.
Naquele tempo não havia separação entre Religião e Política. O profeta (o Ungido de Deus) era responsável para falar ao povo o que Deus queria, assim como tinha a obrigação de denunciar o Rei vigente (Saul, Salomão) quando este cometia injustiça para com o povo. A irresponsabilidade política era sempre condenada como o rompimento da “Aliança” de Deus. Pela boca do profeta Amós Deus denuncia os três crimes de Judá: “porque desprezaram a lei de Deus e não guardaram os seus mandamentos, tomando um caminho de mentiras” (Am 2,4). 
          Nos Evangelhos Jesus não é político, não se liga a nenhuma instância política do império romano, mas sua vida tem uma ação política que pode ser resumida em quatro posições: a) Jesus tinha uma visão realista da realidade: “‘sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam” (Mc 10,42); b) Jesus sabe que as autoridades políticas, apesar de serem importantes, não são deuses e nem podem assumir o lugar de Deus (“pois dêm a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 20); c) Jesus não nega o poder político ou função política de Pilatos, mas afirma que essa função é dada por Deus, e seu propósito deveria ser bom: “‘Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11); d) Jesus era livre (Jo 10,18) para decidir corretamente diante de qualquer realidade política.
        Ao longo da história a Igreja e o povo crente estiveram envolvidos com a Política. Na Idade Média a Igreja e Estado eram uma só coisa. As regras da fé eram adaptadas ou sintonizadas com as normas civis da vida política e social do povo. Para assumir um cargo político era preciso passar pelos sacramentos, pelos princípios cristãos do serviço e cuidado. Estes princípios deveriam ser praticados na política. Os ricos influenciavam e até decidiam sobre a Igreja (quem iria ser ordenado Presbítero, Bispo e até Papa) e a Igreja tinha parte nas decisões do Estado e do Império (Romano...).
Da Modernidade adiante, principalmente no Brasil, a Igreja se separou do Estado. Isso até certo ponto foi bom para que os interesses corruptos e injustos do Estado não interferissem na Igreja e na vida de boa vontade dos fieis. Porém, recentemente há nos membros da Igreja um distanciamento da política. A corrupção, a injustiça e diversos erros saltam aos nossos olhos e nos deixam sem motivação para assumir o compromisso cristão de praticar a fé na política, para o Bem Comum. Mesmo diante desses desafios, não podemos perder a esperança. Se o barco está defeituoso, isso quer dizer que pode ser consertado. Assim é com a Política. Depende de nós contribuir para concertar o barco defeituoso chamado Política. 
O Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja e a Política deveriam agir para o Bem de todos. Isso acontece pela cooperação entre as duas instâncias de poder (GS, 1581). Segundo a doutrina eclesial: a educação civil e política, tão necessária hoje em dia, especialmente para os jovens, deve ser ministrada de modo a que todos possam exercer o seu papel na comunidade política. (1578). A participação política do cristão católico é uma exigência que faz parte da raiz essencial humana.
Todos os cidadãos (inclusive cristãos) têm a possibilidade de participar cada vez mais livre e efetivamente da Política, do governo das coisas públicas, das instituições e eleições de governantes. A Igreja considera digna de louvores e considerações às pessoas que se colocam a serviço dos outros, nas coisas públicas e assumindo os encargos (GS, 1573). A exceção está no corpo ministerial ordenado, a saber, o presbítero, o bispo e pontífice romano. Estes mesmo possuindo validade eclesial de uma ação política no exercício do ministério e podendo orientar os fieis cristãmente sobre a Política, não podem fazer parte da política, não podem se filiar a nenhum partido, não podem ser políticos.
Por fim, o Papa Francisco afirma na Cartilha de Orientação Política que “para o cristão, é uma obrigação envolver-se na política. Nós, cristãos, não podemos fazer como Pilatos: lavar as mãos. Não podemos! Devemos nos envolver na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política”.  Quando uma casa está pra cair, os donos correm e fazem alguma coisa. O nosso mundo é essa Casa Comum que está desabando com a corrupção Política, você vai ficar ai parado ou vai começar a arregaçar as mangas pra cuidar da nossa Casa Terra? Comece hoje......

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Vida Religiosa: meditações, reflexões e luzes evangélicas para a Contemporaneidade.



Nos sinais dos tempos atuais, a Vida Religiosa continua sendo um dos mais particulares, radicais e proféticos modos de vida na Igreja e sociedade. Sua singularidade e importância não está somente por se diferenciar tanto da vida laical como da clerical (CONCÍLIO VATICANO II, 2007, p. 228 ), mas por comungar e dialogar com estes dois modos de vida e manifestar, de modo especial e na sua radicalidade de seguimento, a expressão atualizada e renovada do Rosto de Cristo para os nossos tempos. E para contribuir, aprofundar e degustar sobre a experiência misericordiosa e rica de esperança no itinerário da Vida Religiosa, faz-se oitos considerações, a partir do Evangelho de Lucas (5, 1-11), que podem iluminar-nos e inspirar-nos- Religiosos(as) Consagrados(as)- a contemplar nosso percurso de vida com gratidão, alegria, esperança e entusiasmo evangélico. Também observamos algumas ideias e interrogações que nos ajudarão a aprofundar e vivenciar a riqueza de ser religioso na contemporaneidade carente de misericórdia.

1)   A realidade do chamado à Vida Religiosa.

“Certa vez em que a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus, à margem do lago de Genesaré, viu dois pequenos barcos à margem do lago os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.”

Se o Concílio Vaticano II nos convidou a retomar as origens do carisma congregacional ou institucional (CONCILIO VATICANO II, 2007, p. 302), essa origem precisa também fazer eco na nossa história particular, nas nossas bases histórico-existenciais. Essa conexão entre vida pessoal e experiência congregacional é necessária para percebermos que há uma continuidade, conversão e renovação na nossa trajetória de vida. Isso nos é importante para relembrarmos com alegria o fator motivador e decisivo do nosso modo de viver atual: o chamado de Deus. Não foi vós que me escolhestes, mais fui eu que te escolhi disse Jesus (Jo.15,16). Esse chamado não é outra coisa do que a expressão de quem nos conhecer profundamente e nos ama verdadeiramente. Podemos observar que há mais de 2000 anos Deus continua chamando pessoas para segui-Lo, como fez conosco e isso não é por mérito nosso, mas pela sua misericórdia que é eterna (Sl 136).  
O chamado de Deus, na nossa vida, não aconteceu no deserto ou na solidão da vida, mas numa experiência concreta, em um local concreto: em uma comunidade que caminhava com Cristo. A nossa experiência de fé parte de um contexto em que existiam um povo: “a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus”. Isso é tão certo que o chamado de Deus, a nós, não é intermediado só por uma pessoa, mas por várias que aos poucos vão lançado a semente da sua misericórdia no nosso coração e nos sinalizando a vontade de Deus. E isso aconteceu porque nos abrimos para essa experiência. Cabe agora duas interrogações: temos guardado no nosso coração, bem vivo internamente, a experiência do chamado de Jesus na nossa vida? Atualizamos concretamente, todo dia, esse chamado e resposta a Deus? Santo Afonso Maria de Ligório costumava rezar no seu interior todo santo dia: começo hoje! (SÉGALEN, 1996, p.25). Essa é a primeira luz que não pode sair do nosso coração.
Se foi em um local, contexto e realidade específica que fomos chamados, e nos encantamos com tal experiência, isso não aconteceu por acaso, mas porque o barco da nossa vida estava dando uma estacionada, desembarcando para lavarmos as redes da vida que até então estava sem sentido profundo, sem caminho seguro, ou a espera de algo maior. Daí, como o chamado não é nosso, mas de Deus e também de seu Filho Jesus, foi este que “viu dois pequenos barcos à margem do lago”. Foi Jesus que nos viu. Portanto, podemos perceber novamente a ação primária e misericordiosa de Deus, que nos viu, nos amou por primeiro e foi ao nosso encontro de diversas formas e por diversas pessoas, como ele mesmo fez com seus discípulos. Outra questão se faz importante na Vida Religiosa: estamos deixando-nos ver (totalmente) e se encontrar por Jesus?

2)   A centralidade do Cristo e o distanciamento necessário da dinâmicas do mundo, na Vida Religiosa.

“Subindo num dos barcos, o de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra”

Se temos a certeza de fé, rezada e vivenciada, isso implica uma pergunta de fundo que fizeram todos os profetas e apóstolos: o Senhor nos chamou para que? A resposta de Deus é tão simples e tão difícil que podemos nos surpreender. Eles nos chamou para sermos Um com Ele, como Ele e o Pai são Um (Jo.17,22). E esse é o passo fundamental de toda a Vida Religiosa. Não há misericórdia maior do que estar unido com Cristo, com quem nos ama por primeiro e acima de tudo. Outros dois questionamentos se fazem necessários para nós: Estamos desejando, buscando, e tentando concretizar, nos nossos projetos e ações, ser Um, radicalmente, com Cristo? Os nossos trabalhos, pastorais, missão, instrumentos de evangelização, estão nos mantendo unidos a Ele?
Essa experiência é tão importante, que todo o nosso caminho histórico-humano-espiritual depende dessa união com Ele, pois Ele mesmo nos disse: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo.15, 4). Nesse sentido precisamos orientar o barco da nossa vida, pois assim como Jesus subiu “num dos barcos, o de Simeão”, Ele quer fazer a mesma coisa com o nosso barco. Na verdade essa é a coisa que Deus mais quer. Todo o intento de Deus - deste o tempo dos primeiros povos na literatura-espiritual-poética adâmica até ressurreição do seu Filho, seguindo até hoje (com a mediação, aparições e intercessão de Nossa Senhora; a vida, persistência e testemunho dos Santos, Mártires, Beatos e Servos de Deus) - é para manter a comunhão conosco, porque nos ama.
Não foi por outra coisa que nós entramos na Vida Religiosa, se não por uma abertura à vontade de Deus. Para tanto, é preciso termos como opção fundamental o Cristo. Se na Vida Religiosa nós estamos com crise de identidade, isso é pela descentralização que fazemos da pessoas humana e divina de Jesus na nossa vida. Pela fraqueza humana e falta de fé, pelo fechamento à obra de Deus. Portanto é importante outra duas questões: Jesus Cristo está sendo a motivação fundamental, central e primeira na nossa vida, na nossa ação evangélica, nos nossos estudos e trabalhos? As outras motivações, as secundárias e assim por diante, estão sendo vivenciadas e realizadas para completar a motivação primeira e fundamental?  Quando deixamos outras coisas tomarem o lugar de Cristo então, aos poucos vamos nos separando, desligando e se afastando da identidade, vida e missão religiosa.
Para tal fim o próprio Jesus orienta a pessoa que Ele ama, pois ele mesmo, “pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra”, isto é, que mantivesse uma distância razoável do jeito de pensar e viver dos demais modos de vida, e principalmente, dos que não caminham com Cristo. É importante destacarmos que os primeiros homens e mulheres (Monges, virgens,..) que se inspiraram para a criação da Vida Religiosa, levaram esse afastamento ao pé da letra e foram para o deserto. Apesar de tal radicalidade ter surtido efeitos positivos, porém, não foi um corte da realidade que Nosso Senhor nos pediu, não foi um virar as costas para a nossa realidade histórica, para o mundo, como se este não existisse ou fosse algo de condenável, como a tradição medieval pensou. Na verdade o que Jesus pediu, ou melhor dizendo, nos pede é um afastamento razoável, para adentrarmos no seu mistério e provarmos de sua misericórdia. É um abandonar a mentalidade do mundo humano egocêntrico, autossuficiente, independente, não solidário, não generoso, injusto e fechado ao cuidado com o gênero humano e todos os seres que compõe o nosso sistema planetário, para deixar-se guiar pela mentalidade de Jesus, pela inspiração concedida por Deus na pessoa de Jesus.
A entrada nas casas religiosas e o processo de formação é para termos esse afastamento a fim de que Ele nos fale, nos ensine e nos oriente ao que fazer na caminhada. Não se trata somente de um afastamento espacial-geográfico, pois podemos deixar os locais onde estávamos (muitas vezes incompatíveis com a opção de vida religiosa), sem deixar dentro de nós o modo antigo, ou as outras formas de vida que não nos ajudar a se encontrar e se identificar com Cristo radicalmente. Portanto, esse distanciamento interior e até certo ponto espacial é o que Cristo nos pede. O distanciamento de modos de vida que não promovem a felicidade humana, mas destrói a cada dia o nosso semelhante e explora initerruptamente as criaturas do nosso meio planetário. Então uma pergunta se faz presente: estamos nos distanciando de modos de pensar e viver que não competem a nós enquanto religiosos (as)? Olhemos a nossa consciência, pois, segundo falou Santo Afonso: ela é o sacrário de Deus, onde podemos encontrar a VERDADE MAIS PROFUNDA E ILUMINADA DO CORAÇÃO HUMANO.  É importante destacar que quando mais assumimos a nossa vocação religiosa, mais nos tornamos humanos, mais nos aprofundamos na experiência do amor agápico: amor incondicional, amor que busca e luta pela vida, dignidade e felicidade do outro.

3)   Uma escuta atenta e comunhão com Deus na Vida Religiosa.

           “depois, sentando-se ensinava do barco às multidões”

Se a experiência com Jesus nos leva há uma abertura para o seu chamado, ela exige de nós um afastamento razoável do estilo de vida e mentalidade do mundo. Isso significa que precisamos partir de outro ponto de vista que não seja o do ter, do prazer e do poder egoísta. Pois tais mentalidades são estimuladas, promovidas e disseminadas na cultural e na conjuntura contemporânea.
Podemos observar, então, que o chamado divino cristocêntrico é para nos envolver mais profundamente, mais de perto e realizar a comunhão com Jesus. E se não tentarmos nos esvaziar das coisas que nos afastam de Deus, ficará difícil fazer comunhão com Ele. Esse esvaziamento exemplificado pelo próprio Cristo (Fl 2,7) é fundamental para ouvir a vós de Deus, como fez o profeta Samuel (Sm 3,10). Assim como Jesus “ensinava do barco às multidões”, do mesmo modo Ele quer nos ensinar a Vontade do Pai misericordioso, para bem vivermos enquanto religiosos (as).
A Palavra de Deus, Além da Eucaristia, torna-se, então, um dos principais veículos de comunicação com o Pai e com o seu projeto misericordioso. Enquanto humanos imersos no amor, mentalidade e práxis profunda de Deus. Porém, não se trata de um ato de leitura somente, mas de interiorização. É um esforço continuo para guardar a Palavra de Deus no coração. Dois são os meios mais comuns para isso: a meditação e contemplação. Para realizarmos tal intento, é preciso condições favoráveis. No nosso itinerário religioso podemos nos questionar: estamos rezando a Palavra de Deus? Estamos criando condições para nos encontrar com Jesus? Estamos nos abrindo para acolher Deus que age na nossa vida nas luzes e trevas que vivenciamos? Essa experiência com Jesus é mais do que um formalismo. É um encontro com alguém que nos conhece e nos ama mais do que tudo. Portanto, deve estar preenchida pelo afeto e amor verdadeiro e sincero. Santo Afonso exemplifica que o encontro com Deus é semelhante há um encontro com alguém que deixou um Reino, um país, só para estar e falar conosco, e que anseia nos ver dia e noite (LIGÓRIO, 2014, p.84-85). Portanto, trata-se de uma intimidade profunda. Muitos religiosos caem na vida e se extraviam como ovelhas perdidas, porque perderam essa noção profunda de intimidade com a Palavra de Deus e com sua Pessoa misericordiosa, na oração e no cotidiano. Há também outros meios para fazermos comunhão com Deus. Porém depende de nossa persistência e abertura constante para não perdermos essa unidade e comunhão.

4)   Desprendimento de si: uma abertura para a profundidade do seguimento de Deus na Vida Religiosa.

“Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo; lançai vossas redes para pescar’. Simão respondeu: ‘Mestre, trabalhamos a noite inteiro sem nada apanhar; mas, porque mandas lançareis as redes’”.

Ter Jesus no barco da nossa vida e escutar a sua voz, que toca a nossa mente e o coração, requer que deixemos de lado uma tentação que acontece quando estamos progredindo, dando os primeiros passos no seguimento de Cristo, ou até quando nos tornamos propriamente religiosos (as): é a tentação de querer guiar a vida por si próprio, ou simplesmente, querer ter Jesus conosco, porém, como passageiro, ou objeto dos nossos interesses. Quando isso acontece fazemos muito, nos esforçamos e nos preocupamos cansativamente, porém, não encontramos tanto resultados. Esse é um risco que muitos religiosos correm, pois muitos vezes achamos que estamos sempre certos, e chegamos até a cair no erro de se achar portadores da salvação, ou, radicalmente, chegamos até a se tornar monopolizadores da Verdade.
Essa experiência pode acontecer desde a formação introdutória para a Vida Religiosa, pois normalmente se entra no seminário, com algumas ideias já mais ou menos formadas de como será o seguimento, porém, no caminhar da carruagem Deus vai exigindo mais de nós e nos mostrando o caminho que devemos percorrer. Ele nos diz: “‘Faze-te ao largo”, ou seja, avance por aquele lado. Assim Ele continua: “lançai vossas redes para pescar”, ou seja, segui por esse caminho, superai esse obstáculo, desprendei disso ou daquilo para continuar navegando. Então quanto mais nos fechamos e resistimos com nossas opiniões já prontas e acabadas, com nossa visão pequena e as vezes mesquinha de seguimento, mais sentimos dificuldade e sofremos para seguir. É como Pedro disse: “Mestre, trabalhamos a noite inteiro sem nada apanhar”.
Ora, enquanto religiosos precisamos nos abrir por alguns caminhos inusitados e que muitas vezes depende mais da confiança em Deus, do que da nossa própria segurança. Muitas vezes a comunidade religiosa passa por transformações e o Espírito diz é por aqui, porém, quando alguns membros emperram a caminhada, então, a caminhada religiosa entra em crise. Na verdade toda a crise é fruto da falta de comunhão com o espírito de Deus, quando boa parcela dos seus membros estão perdendo a direção do Espírito ou estão resistindo a tal ação divina, porque estão apegados há alguma coisa, ideia, ou pessoa, que não liberta-os para o movimento do Espírito.
Nessas circunstâncias é preciso muita oração, discernimento, e abertura para o bem comum. E isso se dá tanto no âmbito pessoal como no âmbito comunitário, pois o Espírito é um só, e Ele se manifesta em todos como no pentecoste (At.2,1-11). Nesse sentido é preciso obedecer as investidas do Espírito, aniquilar o egocentrismo que gira em nós e dizermos como Pedro: “mas, porque mandas lançareis as redes’”, ou melhor dizendo, “em atenção a tua Palavra lançarei as redes”. Então podemos refletir: que coisas em nós estão dificultando a identidade e ação da Vida Religiosa no seguimento de Cristo? Diante das exigências do Espírito, que se apresenta na vida e no trabalho seja religioso, seja apostólico: onde estamos tendo mais dificuldade, ou o que nos prende, não nos deixa seguir, na opção de Vida que respondemos? É preciso uma confiança em Deus e muita coragem para manter a nossa comunhão com Jesus, pois cada dia, Ele nos surpreende com um novo caminho ou uma nova exigência.  

5)   A exigência do Reino na Vida Religiosa para além do individualismo e personalismo.

“Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam. Fizeram então sinais aos sócios do outro barco para virem em seu auxílio. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem”


            É possível percebermos que no itinerário da Vida Religiosa temos dificuldades e desafios, porém também temos muitos ganhos, crescimento e amadurecimento espiritual-humano. Mas boa parte depende da forma como nos doamos para realizar a vontade de Deus. Se fizemos isso conforme as exigências do Espírito, pois os discípulos “Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam”, isto é, a abertura e obediência para as moções do Espírito foram tão profundas e confiantes, que os frutos de tal seguimento foram maiores do que eles esperavam. Assim também pode acontecer conosco, quando estamos disponíveis, confiamos e seguimos.
Mas tal ação do Espírito exige que nós superemos as inclinações ao egoísmo em nós, aquilo que a contemporaneidade chama de Individualismo. E a resposta para tais entraves é iluminada pela Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco em que ele afirma: “[...] hoje somos todos chamados a esta ‘saída’ missionária. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar essa chamada: sair da própria comodidade [...]” (FRANCISCO, 2013, p. 20). Só acontece o frutífero sinal de Cristo se sairmos de nós mesmo e entramos numa outra dinâmicas: a dinâmica da comunidade que se deixa iluminar por Deus, a dinâmica do Reino. Possuir uma personalidade própria não é negar o Evangelho, porém é preciso superar o nosso caminhar pessoal, pois, quando dizemos “sim” para Deus, não se trata somente de um “sim” pessoal, mas que engloba um projeto que vai além de nossas forças. Por isso, que os apóstolos “Fizeram então sinais aos sócios do outro barco para virem em seu auxílio. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem”. Portanto, o projeto do Reino na Vida Religiosa é comunitário, e vai além do que pensamos ou queremos decidir com a comunidade. Podemos então nos perguntar: estamos identificando o projeto da nossa comunidade de fé como algo também nosso? Estamos contribuindo para tal projeto? Estamos nos abrindo para as novidades que nos aparecem?

6) O reconhecimento das limitações, fragilidade e dependência humana na Vida Religiosa, na comunhão com Deus.

“À vista disso Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: ‘Afasta-te de mim, Senhor que sou pecador!’”


A experiência com Cristo deve nos levar a uma consciência de nós mesmos, de nossas limitações, pecados e fragilidades. Isso é reflexo dessa amizade que nos revela a verdade que é Deus e nossa total dependência Dele para concretude do Projeto.
A maturidade de que precisamos Dele para efetivação do projeto é a prova de verdadeira humildade. Para tanto essa maturidade também se realiza na comunidade onde cada membro se ver como ligados, feitos comunhão, entre si. Assim quanto mais reconhecemos essa verdade de nossa fragilidade e pecado diante de Deus, mais Deus se derrama de amor por nós e nos acolhe na sua misericórdia como aconteceu com o Filho pródigo (Lc.15, 11-32). Por isso São Paulo nos afirma que quanto mais fracos, ai é que somos fortes (2Cor.12, 9-10).
Reconhecer a fragilidade e olhar com misericórdia diante da fragilidade do irmão é o passo inicial para agirmos maduramente e a partir da nossa condição humana: dependentes da Graça de Deus, deixando Deus agir, confiando em Deus que conduz o nosso barco e o barco dos outros, mesmo que tais barcos estejam um pouco quebrados, desorganizados ou sujos. Ai está a beleza da vida religiosa: não buscamos a Deus pelo que de ruim existe em nós e nos outros, não buscamos a Deus porque somos mais ou melhores que os outros. Não buscamos a Deus porque só nós fazemos diferente ou somos melhores que os outros. Isso tudo é vão pensamento e modo de viver de acordo com o mundo.
Escolhemos essa vida porque cada dia mais reconhecemos que é Deus que nos quis, é Deus que nos chamou, é Deus que nos faz amadurecer e ser melhor, é Deus que age em todos (mesmo que estes criem resistências a Graça), é Deus que usa até do mais miserável de todos os homens para mostrar o seu grande poder, a sua bondade infinita. Mas isso só acontece no momento de Deus e não no nosso.   

7) A experiência do temor de Deus na Vida Religiosa.

“O espanto, com efeito, se apoderara dele e de todos os que estavam em sua companhia, por causas da pesca que haviam acabado de fazer; e também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão”


            O temor é outro elemento que pode aparecer no itinerário da Vida Religiosa, desde a entrada nas casas de formação. Maria e muitos outros Santos passaram pela mesma experiência. Até certo ponto o temos é construtivo na Vida Religiosa, desde que ele nos motive para justamente avançar para águas mais profundas e depositar a confiança em Deus. Isso implica uma questão de fé, de dar crédito a Deus. O temor pode também seguir uma orientação de respeito com o Sagrado e com a exigência da caminhada religiosa.
Daí poderíamos nos perguntar: a experiência de nossa fé está entrelaçada pelo temor a Deus, como confiança Nele e no temor como impulso para caminhar no seguimento de Cristo? O grande risco dos radicais é crer que tudo é ruim ou que tudo é bom. Mas a coisa mais difícil na discernir o que de fato é ruim e o que de fato é bom.  E perceber que o que era ruim antigamente hoje pode ser bom assim como o que era bom antes hoje pode ser prejudicial a nossa vida cristã.
A lógica ética é que o bem deve ser praticado e o mal evitado. Porém, essa não necessariamente é a lógica de Deus. É só olhar as palavras difíceis de serem entendidas por Jesus: é preciso morrer para nascer de novo; do pobre é o Reino do Céu; aquele que não perder a vida por mim, não entrará no Reino; eu vim para os doentes e pecadores. Se olharmos o modo como Deus salvou a humanidade vamos nos deparar com um escândalo ético: Deus nos salva, assumindo a nossa condição humana, Deus nos salva perdoando a nossa maldade ou pecado, Deus nos salva estando perto dos publicamente incorretos, Deus nos dá a vida eterna perdendo a sua vida, Deus nos salva se tornando um condenado, Deus nos abre a possibilidade de tudo (eternidade) perdendo tudo. Por isso que até o temor, visto aparentemente com algo da fraqueza humana nem sempre é um problema. Muitas vezes é a solução. E se torna eticamente correto.  

8) Identidade e missão na Vida Religiosa.

“Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens”. Então, reconduziu os barcos à terra e deixando tudo, eles o seguiam”


Por fim, todo esse processo de reflexão, meditação e observação por alguns pontos de inspiração evangélica devem nos conduzir para a nossa identidade religiosa, enquanto radicalidade, profundidade e maturidade no seguimento de Cristo. Essa experiência rezada e vivida no cotidiano da vida tem a finalidade de tornar-nos na Vida Religiosa, “pescadores de homens” para e na realidade em que nos encontramos. Daí o movimento é de distanciamento do anti-reino para profundidade evangélica, a fim de realizar a missão profética como religiosos (as) no mundo contemporâneo, sendo uma expressão da misericórdia de Deus e conduzindo todos para o fim eterno: a união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.