quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A Consciência nos seus diversos percursos: caminhos para a civilização, realização e plenificação humana. (1ª Parte)

Texto para edição no site:https://gruposocializando.wordpress.com/

          Alguém já parou pra pensar: por que, na Contemporaneidade, alguns saberes são tidos como mais importante do que outros? Sem desconsidera o valor de cada saber, é no mínimo estranho encontramos no mundo midiático e no sistema educacional público um valor, quase divino, aos saberes das Ciências Exatas (Mecânica- Física- Matemática), ou derivadas, e um desprezo aos das Ciências Humanas (Filosofia-História-Sociologia-Psicologia). Em vista desta imposição preconceituosa e interesseira dos diversos meios de poder e comunicação, outra questão mais específica é surpreendente. O fato de quase não se falar de um tema tão importante e determinante para nós seres humanos: a “Consciência”.  Esta é uma questão que ainda é pouco apresentada, meditada, refletida e debatida no tempo atual. E isso sem contar que, na cultura contemporânea, esse tema é disseminado preconceituosamente, como tema estritamente religioso, alienante, ou como tema de acusação e repressão da felicidade humana. Afim de quebrar essa visão limitada e preconceituosa que se impôs na Contemporaneidade, apresenta-se alguns pontos sobre tal tema que serão apresentados em três partes consecutivas. A primeira destaca 1) A Consciência na tradição filosófica-ocidental; a segunda explana 2) A Consciência a partir da tradição bíblico-testamentária. Por fim, na última parte destacar-se-á 3) A necessidade da Conscientização humanitária na Contemporaneidade.  

A Consciência na tradição filosófico-ocidental.
Se na Grécia antiga, o conhecimento era uma dádiva humana, isso não estava dissociado de três principais áreas do conhecimento, isto é, da consciência humana de si (antropologia), da ação prática e jurídica civil (sociologia-ética) e do caráter humano (moral). Em Sócrates a “Consciência” atinge essas três funções de modo conjunto. Por isso se observa tanto a persistência o ponto antropológico do sujeito: “Conhece-te a Ti mesmo!”. Quem não buscava tomar conhecimento inter-relacionado a estas três áreas de saber, dentre outras, era considerado um “Idiota”, pois estava aquém da sociedade, da sua auto-consciência, filosófica-política e moral-ética. Para visão da época, os escravos eram uma das categorias de “Idiotas” porque não se conheciam, não pensavam, não tinham comprometimento social. Se de início o saber é destinado ao conhecimento do homem, isto é, a conciencização de si, e isso levava o mesmo há um compromisso com a realidade e sociedade, por que será que hoje não se fala de “Consciência” e nem de propriedades que a compõe?  A pior coisa que a humanidade pode fazer consigo é perder a sua “Consciência”, e principalmente, sua consciência moral, pois isso implica na perda da sua identidade. Porque será que não se quer falar mais de identidade da pessoa, enquanto ser humano, social e político?
Na tradição filosófica esse tema persiste sobre perspectivas distintas. Até nos Sofistas como Protágoras a “Consciência”, não é desprezada, mas elevada a sua potencialidade antropológica: “o homem é a medida de todas as coisas”, isto é, ele possui uma experiência interna que possibilita conhecer e definir por si mesmo a dinâmica cultural da sociedade. Platão chegou a observar a teleologia ideal humana, pela qual ele deveria reger sua consciência: o bem ideal. Aristóteles conduziu a “Consciência” para o seu caminho fundamental “o meio termo”, “o justo meio”, o equilíbrio da prática humana. Nesse percurso era possível o homem encontrar a sua eudaimonia, ou seja, a felicidade. E isso acontece por meio de uma consciência virtuosa. Da era grega clássica para a helenista temas envolvendo a "Consciência" persistem. A questão da alma, do bem, do mal, do bom, do indivíduo perpassa essa trajetória com suas particularidades. A partir desses poucos elementos constituintes da “Consciência” se poderia refletir: na realidade atual está sendo clarificado, meditado e iluminado os elementos próprios da "Consciência"? Quais valores virtuosos estão sendo cultivados, vivenciados e estimulados na sociedade?
Uma personagem mística e bastante significativa do advento da patrística é Dionísio, o qual é classificado de suposto autor da obra Livros das Causas. Arrisca-se aqui a dizer sobre tal obra, numa orientação metafísica antropológica, que a comunidade dos diversos seres estão em diversas relações, a tal ponto das inteligências compreenderem a si mesma a partir de uma integração  com a Inteligência fundamental, o Uno. O relevante seria observar que cada ser possui suas propriedades fundamentais em interação com outros seres. Dessa perspectiva poderíamos intuir que se cada “ser” é possuidor de diversas propriedades como sentidos, alma, corpo, inteligência, a “Consciência” Humana precisaria estar integrada nessa dinâmica.Ou seja, ela estaria nessa relação de comunicação e comunhão para se constituir enquanto tal.
Ora, no período Medieval, Tomas de Aquino amplifica e delineia outros elementos para a “Consciência”. As categorias virtuosas de Aristóteles são retomadas e são acrescentadas novas categorias que orientam a vida humana. As virtudes teologais como, a fé, esperança e caridade são acréscimos tratados por ele. Sua novidade se dá por apresentar duas categorias de “Consciência”: a) a que compreende a verdade na sua essência, b) e a que interage nas circunstâncias variantes da vida. Porém essa Consciência Humana consegue caminhar num percurso mais ordenado ora seguindo as normas da natureza humana ora superando os limites da natureza conforme as luzes espirituais. Apesar da “Consciência” se relaciona com outras faculdades além das sensitivas, existe nela uma finalidade teleológica que transcende a natureza humana e vai além da ordem e da perfeição. Nesse processo se insere novos elementos não tratados na Grécia antiga, isto é, o da graça, da “Consciência” conceitualmente dita, do livre arbítrio e dos dons espirituais. A finalidade da Consciência não só entra no campo contemplativo, mas deve se orientar a partir do bem Absoluto, Deus. Não se trata portanto de uma contradição ou submissão da “Consciência” Humana para com a Consciência Divina, mas de uma constatação da pura Verdade, do puro Bem, e da Vita Beata pela qual a humanidade deve encontrar, desde dentro de si. Nesse aspecto não há um fechamento, heteronomia ou aniquilamento da natureza e consciência humana, mas uma orientação mais rica e dignificante da “Consciência”, pois os seres humanos não só possuem em si sua natureza própria pela qual deve subsistir sua dignidade e subsistência da geração, mas fundamentalmente eles possuem os sinais e virtudes que superam tal estado natural e dignifica o ser humano a condição de semelhança divina.
Na Modernidade Kant ressalva um elemento significativa da “Consciência” e determinante de sua condução moral, social e até política: a razão. Esta age nas faculdades sensitivas (estéticas) e do entendimento humano para uma decisão que se impõe imperativamente, sem depender das forças das circunstâncias fenomênicas, mas a partir dos princípios irrevogáveis da razão. Da subjetividade para constituição de uma universalidade da “Consciência” é preciso se considerar o imperativo categórico, isto é, os princípios universais e necessários que deve nortear o comportamento humano para a sua autonomia e felicidade. Desse modo é possível deixar uma “Consciência” da menoridade, de fato, ou seja a dependência, para outra da maior idade, a saber, a independência e esclarecimento do sujeito consciente.
Já Em Giambattista Vico a “Consciência” não se caracteriza no campo da subjetividade e muito menos do relativismo ou individualismo. Neste pensador se verifica que a “Consciência” atinge sua verdade em conformidade com a certeza de cada época e em um nível coletivo determinado, providencialmente na história das nações desde os seus primórdios. Não é as faculdades do entendimento que determinar os passos fundantes da “Consciência”, mas as faculdades pré-reflexivas, como o engenho, a fantasia e a imaginação. Em Vico se apreende um fator diferencial da consciência de todos os povos: trata-se, portanto, dos princípios metafísicos- filológicos e filosóficos- que condicionam os povos para a sua Humanidade. Sem tais princípios esta humanidade volta ao seu estado barbárico, ou seja, inumano. Portanto, em Vico é possível um retrocesso da “Consciência”, quando ela não se orienta conforme seus princípios fundamentais. A religião, o matrimônio e a sepultura são, de modo geral, tais princípios humanizantes e da Consciencivilização da sociedade.    
Até aqui pode-se observar que o percurso da “Consciência” ganha suas propriedades significativas e expressivas a parti do itinerário fundamental que ela percorre, ora, num caminho para o conhecimento do sujeito, do compromisso comunitário, da ação em vista do bem e por práticas virtuosas, ora numa relação dialogal e comunitária, no âmbito da Vita Beata, da Racionalidade imperativa e, por último, da Humanização das nações. Em suma, observa-se os diversos graus e propriedades da “Consciência” que a cada passo se detém sobre um saber maior, um entendimento mais claro e na busca de amplificar seus passos, observar seus limites e orientar seus horizontes. 




terça-feira, 19 de julho de 2016

A Filosofia e o Sagrado: fundamentos e significativo sinal para os tempos atuais.

A Filosofia e o Sagrado: fundamentos e significativo sinal para os tempos atuais.[1]
Isaias Mendes Barbosa[2]
Na Tradição Filosófica Ocidental, contemplar o nascimento e desabrochar da Filosofia, desde a Grécia Antiga, é uma tarefa de sublime importância, ainda hoje. Principalmente para quem se compromete apaixonadamente com a realidade atual e pretende trazer para a Contemporaneidade questões novas, inéditas, ou, na verdade, esquecidas e até certo ponto desprezadas, porém tão necessárias, no nosso tempo. Por isso, retomo um elemento significativo da Tradição Filosófica Ocidental que perpassou boa parte, se não quase toda, dessa referida trajetória filosófica. Falo da experiência filosófico-poética-mítica que tiveram os primeiros pensadores naturalistas e que até certo ponto deram continuidade os demais, como Platão, Aristóteles, Agostinho, Pico Della Miradola, Hegel e Giambattista Vico. Essa experiência significativa tem sua expressão ainda hoje, apesar de precisar ser revitalizada e disseminada.

            O Sagrado é este elemento que constituiu a trajetória originária da Filosofia e sem o qual não teríamos como entender com riqueza e profundidade o valor da Filosofia. Não é que esse termo (Sagrado) tenha sido descrito como categoria filosófico-temática propriamente dita, porém, ele fez parte em suas propriedades e significados da Filosofia no seu desabrochar e na sua mais elevada reflexão. Quem sabe tal elemento tem faltado nas reflexões atuais cotidianas!?

A experiência filosófica não começa com Aristóteles, apesar de atingir neste uma conceituação reflexiva profunda. Porém, ela começa com os pré-socráticos, ou melhor dizendo, com as primeiras comunidades periféricas, a saber, os religiosos, os míticos, os poetas e políticos da Grécia Antiga. Todavia, basta, aqui, considerar essa experiência a partir dos pré-socráticos.

Ela inicia na percepção de elementos da naturezas apreendidos e valorizados, na reflexão filosófica, como Sagrados, ou originalmente dizendo Divinos. Tais elementos da Natureza são apreendidos numa profundidade tão grande que chegam a ser definidos como arché da physis, isto é, como os princípios primeiros e fundamentais da realidade, da Natureza, isto é, de todas as coisas. Tais princípios compreendem a essência das coisas que são, e pelas quais não deixam o seu extrato, ou seja, não deixam de Ser, mas regem, orientar, impulsionam e governam o ser elementar de todas as coisas. Cada pensador compreendia essa essência (apreendida por mim como Sagrada) de uma forma original e particular.

Para Tales era a água, ou o elemento úmido, aquilo que era fundamental em todas as coisas. A experiência com o Sagrado era tão convincente para ele que o mesmo chegou a afirmar que “todas as coisas possuem deuses”, porque todas as coisas possuíam esse elemento húmido, e que portanto poderia provir de um essencial fundante metafísico-divino. Com Anaximandro esse elemento Sagrado é denominado de á-peiron, isto é, indeterminado, algo sem limites, tal elemento, todavia, possuía o mesmo valor divino. Já para Anaxímenes é o ar infinito, uma espécie de sopro vital.

Se nos pré-socráticos esse vínculo da reflexão filosófica com o Divino ou o Sagrado era algo intrínseco, com Platão não é diferente. A experiência da regência do Cosmo e da Pólis grega, a partir de uma realidade supra-sensível, não descuida de uma ligação com o Divino. Pois se na ordem hierárquica dos seres ideiais tanto os deuses são proprietários de todo o saber divino, como o UNO e a DIADE são elementos ideais essenciais e relacionais, de onde se originam o igual e o diferente, o maior e o menor, o idêntico e o distinto, de todas as coisas que são, em variados graus e por participação com esses dois princípios ideais fundantes. Daí é que a enteléquia humana constituía a faculdade que pode apreender o Ser originário de todas as coisas, pois o homem (e não a mulher-visão preconceituosa da época), entre os diversos seres, é a personalidade capaz de se relacionar com e conhecer as coisas no seu substrato mais elevado.

Em Platão não podemos descuidar das formas poéticas e analógicas divinizadas de compreender e descrever a realidade na sua real origem. Esse é um elemento marcante do platonismo que advém até nossos tempos. Se em Platão temos tal ligação como o Sagrado, compreendido ideal e supra-sensivelmente, em Aristóteles não podemos deixar de constatar tamanha ligação com o Sagrado, porém menos constante que a do seu mestre, Platão. Para Aristóteles o conhecimento é dadiva dos deuses, portanto é algo divino e sacro que os homens podem possuir. Isso faz o homem semelhante ao deus grego. Na ordem metafísica das coisas existe o motor imóvel que ele chega a chamar de deus, que move todas as coisas e inclusive a outros motores auxiliares, as constelações esféricas e os demais seres, sem sair de si e sem mover um dedo se quer. Abaixo desse princípio Sagrado, em algum lugar da hierarquia metafísica estão os deuses. E assim se manifesta esse vínculo com o Divino.

Em Santo Agostinho esse vínculo com o Sagrado atinge uma orientação particular, isto é, Cristã. Deus como Sagrado é o fundamento da existência, vivencia e vitalidade de todas as coisas. A pessoa humana é o ser particular que possui características diferenciais na hierarquia do criado: a razão, a inteligência e a fé. Neste pensador a realidade é apreendida partir de uma essência sagrada una e trina, que de modo comunitário e por vontade amorosa, cria todas as coisas e concede a todas as coisas a sua verdadeira essência e felicidade, quando elas se voltar para o seu Criador, pela contemplação e comunhão sagrada.

Em Pico Della Mirandola a experiência com o Sagrado transcende as barreiras da instituição Igreja Católica e do tempo histórico. É a força sagrada de Deus que ilumina e conduz até a felicidade ou paz teológica todas as pessoas, por diversos caminhos e diversos estágios histórico-culturais e místicos da vida. Por meio dessa ação sagrada de Deus, a humanidade até certo ponto não se contradiz ou se nega, mas entra em concordância com uma mesma Verdade, Deus, o BELO de todos os seres belos.

Hegel não segue a dinâmica da harmonia comum pela qual caminha a humanidade e as religiões, como sustentou Pico, porém sua experiência com o Sagrado em um sentido filosófico vai além de uma convergência para Deus. É o próprio Espírito que se manifesta na História humana, onde ele expressa a consciência de si mesmo, por um processo dialético de desvelamento e autosuperação. É a experiência do Espírito que promove um eterno conhecimento e a exuberância de si, por meio da dinâmica da Natureza, da família, da sociedade e do Estado, sendo que este último é o estágio mais apurado do Espírito. Esse Espírito ganha expressividade em três formas distintas e até certo ponto harmônicas da vida humana: na Religião, na Filosofia e na Arte.

Se Hegel se pautou numa dinâmica circular desenvolvimentista de Espírito, Giambattista Vico fez um percurso diferente. A experiência com o Sagrado se tornou a parte de uma Nova Ciência da vida civil, isto é, de todos os povos e nações, desde seus primeiros passos. Trata-se portanto de observar a relação da Humanidade com o Sagrado a partir de uma experiência pré-reflexiva, onde as faculdades do entendimento estão por se formar. A experiência do Sagrado compreendida desde o estado de barbárie humana ganha seus traços nas quatro religiões humanas em que a figura da deidade é o meio para a humanidade bárbara, imersa nos sentidos (a fantasia, a imaginação e o engenho) se tornar Humana. Tal percurso se faz mediado e ordenado pela Providência divina, que sempre ilumina o homem para ser pessoa humana e conservar a si e sua geração, enquanto tal.  
 
Depois desse rápido recorte histórico, pode-se constatar que a Filosofia e o Sagrado, na sua expressão e propriedades características variadas, não são ou estão dissociados, mas constituem uma ligação fundamental sem a qual não é possível se refletir sobre a realidade e a totalidade, sem cair no risco de perder a inspiração e experiência primeira, além de reduzir a Filosofia a pura reflexão materialista. A Filosofia não pode estar dissociada das outras ciências humanas e exatas, pois essa completude totalitária era a sua conjuntura fundamental.

Desde a crise humana promovida com os males cometidos pela revolução tecnológica e industrial, e a ditadura militar, pode-se constatar que as ciências diversas passaram a se fragmentar e se dividir dramáticamente. Algumas ciências passaram a ter maior destaque em detrimento de outras. Isso aconteceu pelos interesses dominantes de cada época. Como desde o século XVIII a tecnologia e informática vem sendo o interesse determinante da camada dominante de muitos países, é lógico percebermos como algumas ciências foram relegada ao abandono ou até desprezo.

No Brasil o pouco valor que a Filosofia tem é um exemplo disso.  Nas escolas, Faculdades ou Universidades públicas e particulares esta disciplina cursiva é a menos valorizada. E a que infelizmente, para muitos, deveria ser a que menos exigisse do aluno ou estudante universitário. Fica em questão por que tanto descaso para financiar e promover tal ensino filosófico? A função que mais me toca na Filosofia é a criação de uma consciência esclarecida e que apreenda o máximo, que puder, a realidade, nas suas contradições possíveis de serem mudadas. Essa função tem em vista a dignidade humana. Porém, será que o Estado, as grandes Instituições de educação estão querendo e promovendo isso, o suficiente?  Porque será que a educação é muitas vezes a menos valorizada? Quais forças estão determinando o descompasso e a hierarquização das disciplinas?

Na Grécia a Filosofia era a mãe de todas as ciências, hoje ela é promovida, por uma cultura persistente e ignorante, como um saber para quem não quer nada na vida. Essa visão errônea foi e continua sendo muitas vezes disseminada. Infelizmente a Filosofia ficou no porão do ensino educativo. Daí é preciso conceber a tal Ciência divina a sua vitalidade atual.

Se antes a Filosofia estava ligada inseparavelmente com a Teologia hoje vemos a triste tentativa de separação e desprezo das duas. O mercado tecnológico não promove a ligação e a valorização das duas. Hoje perdemos muito nisso, pois se desvinculamos a Teologia da Filosofia perdemos a fonte originária do conhecimento humano e do sentido mais profundo da vida. A separação das duas é como andar sem uma das pernas. O corpo não se sustenta.

Um grande exemplo que temos dessa vitalidade da Filosofia com a Teologia está a Igreja Católica. O vínculo entre essas duas Ciências é profético e sempre novo. Na Alegria do Evangelho e na Laudato Si’, dentre outros documentos da Igreja, vemos o quanto de valor e autenticidade existe no entrelaçamento entre esses dois saberes. Essa originalidade faz com que a Humanidade reveja sua jornada e refaça os seus caminhos para a plenificação do ser Humano e a sua abundante felicidade no encontro com o Sagrado. Sem, mais delongas: o mundo precisa de questionar o modo atual de vida que não dignifica o ser humano e encontrar novos caminhos que não sejam apenas reflexão ou mudança aparente, mas um encontro com o sentido profundo da existência que se depara com o Sagrado, o Absoluto, para a plenificação do Homem.






[2] Noviço Redentorista, Professor licenciado pela Universidade Estadual do Ceará.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O processo da não-liberdade para a Liberdade: uma efetivação da negação para uma racionalidade da consciência autônoma na perspectiva marcusiana.


Introdução
O percurso da história, o progresso e desvelamento da revolução industrial é marcado por mudanças significativas no processo de civilização humana, apesar de se observar um rompimento com os paradigmas da tradição antiga, tal evento revolucionário trouxe, com a novidade do desenvolvimento tecnológico industrial, económico e produtivo, uma aparente ideia de suprimento e resolução das necessidades humana e a promoção do bem-estar da sociedade civil industrial.
Tal proposta teria a objetividade de promover a Liberdade e Autonomia humana para uma vivência prazerosa e gratificante, porém isso não se realizou no status quo. A negação da liberdade e do direito conforme a tradição esperançava foram os primeiros passos de delimitação da autonomia humana.  A proposta camuflada de liberdade comercial e ascensão econômica retardou o processo da racionalidade humana e gerou na história humana exploração dos meios de produção, da tecnologia, da economia, do trabalho e da vida civil industrial.
As contradições do próprio sistema capitalista foram conciliadas com o eixo de desenvolvimento para que não houvesse uma consciência crítica da debilitação de tal sistema. Novas formas de alienação foram impostas, não mais só nos meios trabalhistas, mas na própria consciência do homem. Sair de tal determinismo se tornou o grande desafio dos contemporâneos de Marcuse. Urgi a retomada e atualizada dos elementos principais e motivadores da revolução industrial: a Liberdade e Autonomia. Para esse empreendimento se promove uma proposta de negação do estado estabelecido e uma observação sobre as contradições nas estruturas fundamentais do sistema determinante.
Tal apreensão requer uma observância das verdadeiras necessidades humanas em contrapartida com o estabelecido. A partir da negação realizada por um processo mediático-reflexivo e crítico pode-se observar novos passos para Liberdade humana. Esse processo se realiza pelo descobrimento de uma não liberdade determinista tecnológica industrial para promoção de uma racionalidade da consciência humana para tornar o movimento da história conforme sua lógica racionalista desvelada: o progresso da autonomia humana e da sua Liberdade fundamental. 
   
          1)      O estado contemporâneo da industrialização: a não-Liberdade da racionalidade humana e um conformismo determinista.                                                                                                                                                                                         
A civilização industrial avançada ou contemporânea apresentou um progresso racional tecnológico, econômico e industrial que pretendia, nas suas formas de organização, satisfazer as necessidades humanas e conformá-las ao sistema estabelecido, o status quo, e suas determinações impositivas. Tal período é determinado pela negação das raízes tradicionais, princípios e valores motivadores originários da sociedade industrial, e pelas contradições internas do atual sistema de governo determinista e elitista até então: como uma ‘não-liberdade confortável” e conformista da massa populacional ao status quo, uma perca da racionalidade e da independência econômica das classes populacionais frente a outras alternativas de equilíbrio econômico e desenvolvimento social, e a privação da criticidade do pensamento autônomo,  independente e deliberativo das classes. Tal estado totalitário impôs novas formas de repressão da Liberdade e racionalidade humana no seu âmbito crítico e autônomo.

                a)      A recusa da liberdade tradicional.

Se por um lado houve mudanças paradigmáticas com a inovação tecnológica industrial na ascensão capitalista, que fez a civilização superar a situação tradicional de comercialização, trabalho e produção de bens, por outro, tais princípios da razão tecnológica, negaram a liberdade e o direito dos setores de baixa produtividade comerciais tradicionais. Neste sentido tais impedimento de liberdade de consciência, pensamento e palavras, defendidos pela tradição foi relegado ao silencio e a submissão ao sistema econômico e comercial determinante. Deste modo a participação e autonomia dos grupos ou indivíduos na promoção da liberdade e do direito para outros meios alternativos de comercio e economia foram sufocadas pelo sistema dominante e totalitário alienante de dominação.
“Os direitos e liberdades que eram os fatores vitais nas origens e nos estágios iniciais da sociedade industrial se rederam ao estágio superior dessa mesma sociedade, esses direitos e liberdade estão perdendo sua razão e seu conteúdo tradicionais”. (MARCUSE, 2015, p.41)

               b)     A liberdade oferecida pelo status quo.

A proposta de liberdade do status quo se reduziu ao determinismo industrial do trabalho exploratório em vista do progresso econômico. Liberdade para o trabalho industrial ou para a morte humana, devido a escassez dos meios de trabalho agrícola ou da seca, foras as duas opções que a população do campo teve. O avanço tecnológico promoveria a liberdade econômica, política e empresarial dos setores que tivessem uma renda per capita equilibrada e possuíssem os meios de produção tecnológica para o capital de giro do mercado vigente. A ascensão econômica e maquinaria tecnológica era a proposta ideal e determinante do desenvolvimento capitalista e da facilitação do trabalho humano, ou da força de trabalho. A esperança da racionalidade tecnológica motivou uma liberdade e dignidade humana aparente, pois com o auge da tecnologia o homem “seria livre para exercer sua autonomia sobre a vida que seria propriamente sua”, se o aparato produtivo pudesse ser organizado e dirigido para a satisfação das necessidades vitais humanas. Porém tal proposta não se efetivou, com as contradições do sistema.
“A livre iniciativa não foi. Desde o início, uma vantagem. Enquanto liberdade para trabalhar ou morrer de fome, isso significou labuta, insegurança e medo para uma grande maioria da população”. (MARCUSE, 2015, p.42)

             c)  A atividade de um estado totalitário e o determinismo racional tecnicista.

No estabelecimento do desenvolvimento tecnológico industrial o sistema impôs suas exigências econômicas e políticas de defesa e expansão sobre o tempo de trabalho humano, o tempo livre, a cultura material e intelectual da época. Tem-se nesse sentido, o totalitarismo industrial que dominava pela manipulação das necessidades humanas por interesses alheios e de uma minoria. Deste modo a ação determinante foi a posse sobre os processos mecânicos e o aparato tecnológico, mobilizando, organizando e explorando a mobilidade técnica, mecânica e científica da civilização industrial. A maquinaria superou a força de trabalho humano e se tornou o bem mais valioso do desenvolvimento econômico e da política das organizações determinantes. Porém tal situação é visto por Marcuse como um processo que instaurou a Liberdade humana.
“Atualmente, o poder político afirma-se por meio de seu poder sobre os processos mecânicos e sobre a organização técnica do aparato”. (MARCUSE, 2015, p.43)

                  2)      A atualização da tradição libertária: a negação da negação do status quo para uma Liberdade efetiva.

As consequências negativas da Evolução tecnológica são os primeiros passos para mudança paradigmática da noção de liberdade, consciência e autonomia social. Até então o sistema dominante havia promovido contradições na civilização contemporânea industrial com a privatização dos meios de produção, a exploração tecnológica e trabalhista e a homogeneização do comercio e a negação das tradicionais formas de economia, governo e formas de relações de produção que pretendiam uma “livre sociedade”. A nova proposta de liberdade e autonomia não pode ser definida em termos tradicionais, pois tais propostas antigas estão desvinculadas do seu contexto histórico. Essa recusa da tradição e a atual situação de não-Liberdade no estado estabelecido requer uma atualização da proposta de ‘sociedade livre’ que supere as contradições do sistema vigente, ou seja, reafirme a necessidade a consciência autônoma, dignificante e efetiva da Liberdade humana.
“Se o indivíduo já não fosse mais forçado a ser bem-sucedido no mercado, como um sujeito economicamente livre, o desaparecimento desse tipo de liberdade seria uma das maiores realizações da civilização”. (MARCUSE, 2015, p.42)

               a)       A consciência de servidão para o processo libertário pela negação.

O modelo de domínio predominante na sociedade contemporânea industrial desenvolveu nos meios sofisticados de alienação, estes não se reportam há um estranhamento da atividade do sujeito com o produto do seu trabalho, ou a uma desapropriação dos meios de trabalho. Tratasse de uma identificação do sujeito com seu objeto de trabalho e uma introjeção da consciência alienada nos fatos, aparentemente ausentes de contradições. Tal situação de manipulação da consciência humana tem objetivação de sua função servidora e mantenedora da situação determinante e totalitária da regência oligárquica governamental. A libertação humana depende dessa consciência que precisa ser superada. E não tem como propor novos caminhos libertários se não se assume uma postura distinta, contrária ou negativa ao sistema determinante. Daí se impõe a necessidade de novos caminhos que promova uma racionalidade libertária humana.
“São necessários novos modos de realização, que correspondam às novas capacidades da sociedade. [...]. Esses novos modos só podem ser nomeados com termos negativos porque eles equivaleriam à negação dos modos predominantes”. (MARCUSE, 2015, p.43)

               b)     A negação como caminho libertário.

A negação é positiva, ou seja, trata-se de um esclarecimento e afirmativa acerca das contradições em que se depara a sociedade civil regida pelo sistema vigente. A ausência de autonomia e controle sobre a própria existência humana é um dos impositivos, além do determinismo trabalhista e das situações homogêneas de necessidade e satisfação. Por meio de tal percepção mediática-racional-reflexiva e da negação de tal situação camuflada de bom senso é possível a abertura para novos caminhos, que liberte o ser humano das forças e econômicas, sociais, políticas, ideológicas, intelectuais e alienantes da sociedade. A mais efetiva e duradoura guerra para promoção da Liberdade humana se reporta a quebra das falsas necessidades materiais e intelectuais que se perpetuam nas formas de domínio e manipulação do status quo.
“Assim, a liberdade econômica significa a libertação da economia-de ser controlado pelas forças e relações econômicas; libertação da luta diária pela existência, de ganhar a vida. A liberdade política significaria a libertação dos indivíduos em relação às políticas sobre as quais eles não têm qualquer controle efetivo”. (MARCUSE, 2015, p.45)

               c)      A negação da Liberdade pelo novo modelo sofisticado de alienação.

A predominância do controle social tecnológico capitalista utilizou-se da igualdade de meios compensatório universais para promover e satisfazer as necessidades de toda a população para preservação do estado estabelecido. Essa medida paliativa chamada de nivelamento das classes tentou amenizar as contradições do próprio sistema capitalista. O meio para realização de tal efeito ilusório reparador foi a construção de necessidades sociais do âmbito público para o âmbito privado ou individual. Deste modo uma mesma medida tomada, como os meios de comunicação, tanto servem como instrumento de informação e entretenimento, como meios de manipulação e doutrinação. No mundo produtivo o controle técnico parece incutir a própria encarnação da Razão em benefício de todos a tal ponto de todas as contradições do sistema predominante parecerem irracional. Assim se instaura medidas que tentam repelir qualquer oposição ao estado estabelecido disfarçado de influência e Liberdade, e introjeta na mente humana a ausência de qualquer contradição entre o status quo e seu programa, pautado na tecnologia, de manipulação e redução das disparidades exploratórias do sistema.
“Nós estamos novamente diante de um dos mais irritantes aspectos da civilização industrial avançada: o caráter irracional de sua racionalidade. Sua produtividade e eficiência[...], a dimensão com que essa civilização transforma o mundo objetivo em uma extensão do corpo e do espírito (mind) torna             questionável a própria noção de alienação. As pessoas se reconhecem em suas mercadorias’. (MARCUSE, 2015, p.47)

                 3)      A necessidade do processo mediático para Liberdade.

A libertação das formas de opressão e manipulação social dominante, não pode ser realizada sem uma reflexão crítica racional acerca do sistema determinante e sem a efetivação de novos caminhos.  Não se trata de uma observação imediata e muito menos de uma ação imediata, mas da observância de processos. Neste sentido entra em questão a análise do sistema e das suas formas de manipulação totalitárias. Alguns elementos de tal processo são a inversão de necessidades fundamentais por necessidades supérflua, a introjeção de uma mentalidade elitista como meta de vida, a aceitação de forças exteriores que apresentam verdades dogmáticas que devem ser mantidas. Todos esses elementos são fundamentais para manter a dinâmica do capital, as formas de manipulação e consumo desenfreado, e a resistência a mudanças necessárias. Esses processos nos mantem na rotatividade do estabelecido e é responsável pela miséria humana, pelo medo, pela injustiça e pela estagnação da racionalidade como caminho de Liberdade. Superar tal estado é promover novos percursos é o desafio.

             a)      As falsas necessidades do status quo.

Se a contemporaneidade industrial avançada tomou outras medidas de domínio e manipulação isso se realizou pelo estabelecimento de necessidades ao população. As determinações do que era satisfatório ou insatisfatório, desejável ou indesejável, desfrutável ou destrutível, prazeroso ou o oposto. Tais coisas foram necessidades importas que induziu a maioria ao acolhimento e a manutenção dos bens supérfluos de consumo. Tais necessidades perpetuam labuta, agressividade, miséria e injustiça. Sua realização não gerou a felicidade humana geradora de paz e bem-estar, mas uma euforia na infelicidade. A maior parte delas como o descanso, o divertimento, o comportamento e o consumo de acordo com os anúncios propagandistas da classe dominante pertencem as categorias de falsas necessidades que devem ser negadas.
“Nós podemos distinguir entre necessidades verdadeiras e falsas. ‘Falsas’ são aquelas que são superimpostas ao indivíduo por interesse social particulares para reprimi-lo” (MARCUSE, 2015, p.44)

              b)     As necessidades fundamentais humanas.

As necessidades úteis e fundamentais para a humanidade foram aquelas ligadas as necessidades vitais, ou seja, essenciais para a manutenção e subsistência da existência e cultura social e intelectual humana. Partir destas necessidades é possível observar outras sublimadas pelo processo técnico determinante e outras não-sublimadas. Todas elas precisam estar ligadas ao desenvolvimento do indivíduo e de toda a população para a melhor e mais útil dos recursos materiais e intelectuais disponíveis. Por meio de tais observações é possível instaurar propostas inovadoras e o movimento história da própria realidade na sua racional efetivação. Porém para que tal Liberdade se esclareça e se efetive é preciso sua relação com o movimento da história e as imposições do estado contraditórias do status quo.
“As únicas necessidades que possuem uma pretensão absoluta à satisfação são as necessidades vitais-alimentação, vestuário e moradia possível em certo nível cultural”. (MARCUSE, 2015, p.44)

              c)      O imperativo da autonomia humana sobre as suas verdadeiras necessidades e satisfações.

Se a libertação de tal paradigma tecnológico e governo totalitário requer uma negação do estabelecido, é autonomia e autoconsciência humana precisa estar em posse de sua deliberação e livre de qualquer determinismo. Deste modo é o próprio indivíduo, e não os tribunais ou sistemas de decisões políticas, éticas e jurídicas, a decisão ou resposta sobre o quais são as necessidades reais humanas e as falsas necessidades. A retomada do direito e deliberação do sujeito sobre quais necessidades são relevantes no processo de dignificação e Liberdade humana é uma ação que exige como pressuposto a não determinidade exterior da efetivação da consciência humana, ou seja, de sua autonomia. Daí se justifica a negação de qualquer determinismo exterior ou estranho a consciência ou pensamento humano, para sua verdadeira Liberdade como efetivação de um novo processo autônomo que estar por ser desvelar.

“Em última análise, a questão sobre quais necessidades são verdadeiras ou falsas deve ser respondida pelos próprios indivíduos, mas apenas em última análise; ou seja, se e quando eles são livres para dar sua resposta”. (MARCUSE, 2015, p.45)  

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bem-aventurada Maria Celeste Crostarosa: rascunhos de espiritualidade.


Vós me fazeis ver que coisa é a vida de minha alma em vós: [...] E minha Alma, deixando qualquer outra ocupação com objeto criado, é atraída por vossa suavidade acima de qualquer coisa exterior ou interior. Tudo deixa por vós e tudo renuncia por vós, até a alguma reflexão razoável que pertença ainda a mim mesma, com o ato que eu chamo de pureza, tudo cede a vós.  (Diálogos  de uma Alma com seu Senhor, Jesus )
Julia Marcela Santa Crostarosa, esse era nome de batismo da atual Beata Madre Celeste Crostarosa. Nasceu no dia 31 de outubro de 1696 na paroquia de São José Maior, na cidade de Nápoles. Filha de Paula Batista Caldari e José Crostarosa, a boa monja pertencia a alta magistratura, porém poucos diriam que, semelhante a Santo Afonso, essa monja deixaria tudo para levar a todos para Cristo, com seu modo de vida contemplativo e sua espiritualidade cristocêntrica. Sua família era de uma profunda vivência religiosa.  E os primeiros passos de sua vida fazem parte de uma experiência intima com Jesus Cristo, e a vivência dessa intimidade.
Na introdução da Autobiografia (Trad. Port. Pe. J. B. Boaventura, p.17) ela escreve na terceira pessoa do singular: “Foi-me ordenado por vontade do Senhor, por quem me pode mandar, que eu escrevesse as misericórdias liberalíssimas feitas por Nosso Senhor Jesus Cristo, por sua só bondade, a uma alma religiosa, chamada por Ele em seu seguimento desde a sua mais tenra idade. [...] Por isso peço e tenho pedido ardentemente ao Senhor, [...], para que eu acerte sua Divina Vontade.” Acertar a Vontade de Deus, é, semelhante a São Geraldo, de modo resumido, toda a intenção, pensamento e ação de Madre Celeste Crostarosa. 
Aos 11 anos Madre Celeste faz a primeira confissão, na Igreja de Santo Tomás de Aquino, e promete dar-se toda a Deus. Orientada pelo seu confessor, um padre dominicano, começou a praticar a oração mental pela leitura das meditações da São Pedro Alcântara, intituladas de Alimento da Alma. Sua vida de oração, ao contrário do método comumente praticado pelo Bispo Falcoia, não estava apoiada na meditação e prática formais das virtudes. Pelo contrário, sua espiritualidade, sua vida de oração, estava apoiada na sua interioridade com Deus, num Deus que fala ao seu coração e pelas Sagradas Escrituras, na Eucaristia, em seu interior, pela comunidade e nos sinais dos tempos. E o resultado desta unidade e intimidade, que ela descreve tão detalhadamente no Diálogos da Alma, está ligada a uma encarnação de vida prática, das obras e ensinamentos realizados por Cristo.
Na vida religiosa, a Crostarosa entra no Carmelo de Marigliano e, por conseguinte, no mosteiro da Visitação em Scala. Neste ela recebe uma revelação divina para fundação de um instituto religioso: “No dia das Rogações do ano de 1729 no mês de abril, indo comungar a referida religiosa, se fez na sua alma, de novo, aquela transmutação de seu ser no de Nosso Senhor Jesus Cristo. (...) Então lhe foi dado a entender um novo Instituto que o Senhor colocaria no mundo por meio dela. E que Nele e na sua Vida, se encerravam todas as leis de seu viver e sua regra” (Ibidem, p. 61). Deste modo Madre Celeste se torna a fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador, posteriormente, modificada pelo nome de Ordem do Santíssimo Redentor.
A fundação do Instituto não foi fácil. Inclusive a própria monja se questionou acerca da verdade da revelação divina e da concretização da vontade de Deus nesse Instituto. A confirmação desta obra se fez na sua abertura, entrega e confiança total ao projeto de Deus. A espiritualidade e proposta religiosa crostarosiana tinha uma orientação precisa: ser uma viva memória de Jesus e isso exige a plena transformação em Cristo. Desse modo Deus fala ao coração de Madre Celeste, nas Spicilegium Historicum:
Imprimi, portanto, em vosso espírito a sua vida e a verdadeira semelhança de sua imitação e sede na terra, vivos retratos animados de meu dileto Filho, sendo somente ele vosso chefe, o vosso princípio... A vossa vida será regulada pela verdade por ele ensinada nos santos Evangelhos, nos quais estão escondidos todos os tesouros do céu, a fonte da vida (C. Ss.R. 16 (1968). 18).
É pela vontade de Deus que Madre Celeste se tornou a fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador e a Inspiradora da Congregação do Santíssimo Redentor. Essa inspiração costrarosiana está até hoje inserida nas nossas constituições, assim como no nosso modo de vida apostólico. Assim como o filho de Deus veio ao mundo por intermédio de Maria, foi pela presença de Madre Celeste Crostarosa que a Congregação do Santíssimo Redentor teve origem. Uma coisa que não podemos descartar nessa fundação masculina e de modo geral é o aspecto trinitário (Crostarosa-Geraldo-Afonso) por onde se apresenta parte do caráter espiritual-carismático-missionário da Congregação dos Redentoristas. Que a bem-aventurada Maria Celeste Crostarosa interceda por nós, Redentoristas, para vivermos o nosso carisma fundacional com empenho, zelo, dedicação e serviço, na promoção do Reino.


domingo, 5 de junho de 2016

Filosofia como “produção conceitual” de Silvio Gallo e o ensino pedagógico na sala de aula.



O artigo Filosofia e o exercício do pensamento conceitual na educação básica de Silvio Gallo trata sobre a atividade do pensamento filosófico, ou da Filosofia, como produção de conceitos. Silvio categoriza três tipos de pensamentos na tradição, a saber: a) o pensamento por imagem, referente a tradição oral antiga, isto é: mitológico-poético-figurativa; b) o pensamento por palavras, escriturístico-teórico-conceitual; c) e o pensamento mediático informático-operacional-simulativo. Dessa divisão se observa três polos do espírito, que são os três momentos da história do conhecimento humano; o polo da oralidade-figurativo-imaginética, o polo da escrita que resultou na constituição da filosofia e do saber científico, e o polo da informática, da revolução tecnológica. Cada um desses polos apresenta características próprias e diferentes impactos sobre o conhecimento e a pedagogia do ensino filosófico. Para Silvio:
[...] podemos afirmar que a oralidade engendra um saber do tipo narrativo, baseado na ritualidade; a escrita, por sua vez, apresenta um saber teórico baseado na interpretação, enquanto que a informática possibilita um saber operacional baseado na simulação[1]
Porém apesar da particularidade de cada conhecimento e modalidade específica de praticidade, os três conhecimentos se relacionam. Pois podemos relacionar o pensamento por imagens com a oralidade, produzindo narrativas, e o pensamento por palavras com a escrita, produzindo teorias. O pensamento por conceitos proveio da Grécia Antiga, muito distante destas tecnologias que apenas nas últimas cinco décadas estão sendo desenvolvidas. Enquanto que na sociedade contemporânea existe uma hierarquia de valores que exalta o pensamento operacional na modalidade tecnológica em detrimento das outras duas modalidades de pensamentos, Silvio sustenta que o que é próprio e desafio do saber filosófico, ou da Filosofia, é a produção de conceitos. Esta é a maior dificuldade nos tempos atuais na sala de aula. Seguindo o pensamento filosófico de Deleuze e Guattari, Silvio afirma que: “O pensamento por conceitos é esta diferença em relação ao pensamento projetivo que colonizou nossas mentes na oralidade e na escrita”.[2] A filosofia é concebida como,
[...] a atividade de criar conceitos. Isso quer dizer que, no exercício da filosofia, não pensamos por palavras? Exatamente. Na filosofia, usamos também palavras como ferramentas, mas elas são apenas uma forma de expressar os conceitos, assim como elas também expressam as figuras e imagens, através de metáforas e parábolas. O essencial do pensamento filosófico é o trato com os conceitos.[3]
O conceito é uma representação universal. O conhecimento por conceitos chama-se pensar, porém não se trata daquele tipo de conhecimento como reprodução dogmática de ideias ou pensamentos, mas uma ruptura em tal método disciplinar de prática educativa. Romper com o engessamento do pensamento é a proposta de Silvio e missão da filosofia na sala de aula. Deste modo:
Os conceitos, ao contrário são mobilizadores e motores do pensamento, estão para fazer pensar, não para paralisar, imobilizar o pensamento. Cada conceito remete a outro conceito, a outro problema. Cada conceito conecta-se com vários outros e pede novas conecções.[4]
Superar a Doxa é o desafio da filosofia na sala de aula. A produção conceitual não é um simples pensar, mas um conceituar a realidade na sua universalidade, a partir de um problema, e de uma realidade sensível. Portanto, a filosofia não está somente no campo teórico, mas na experiência prática humana. Neste sentido a proposta de Silvio Gallo impõe para o ensino de filosofia algo mais do que reprodução de pensamento, isto é, uma proposta não de e ensino vertical, mas um estímulo no aprendizado filosófico, na própria prática conceitual. Não se trata de um método ou forma específica, mas uma abertura para autonomia da consciência humana na construção do saber e produção filosófica. Deste modo, podemos perceber que filosofia não é reprodução, mas transformação, que gera a construção de novos conceitos e novos problemas. Essa prática na sala de aula é desafiante para o professor, pois requer mais do que uma sabedoria memorística, mas uma sensibilidade para perceber as diversas direções que podem ser construídas para a produção conceitual na escola. Estimular ao filosofar é o principal desafio no ensino. Pois requer algo mais do que uma sala de aula e conteúdos reflexivo. É como dar a luz a um filho pelo qual não se sabe o que será, mas que precisa, com dores e esforço, ser encarnado na realidade.



[1] GALLO, Silvio. Filosofia e o exercício do pensamento conceitual na educação básica. Uberlândia, 2008, p. 55.
[2] GALLO, Silvio. Filosofia e o exercício do pensamento conceitual na educação básica, p.62.
[3] Ibidem, p.62.
[4] Ibidem, p.65.