sábado, 4 de março de 2017

Os Conselhos Evangélicos nas Constituições Redentoristas: um processo contínuo de profecia até a Contemporaneidade.


Não tem como falar da força revolucionária atual dos conselhos evangélicos (castidade-pobreza-obediência) na Congregação Redentorista, sem nos atermos aos processos históricos, culturais e religiosos que tais conselhos tiveram desde sua origem na Igreja. Por isso, de antemão, votemo-nos as proximidades do século IV (após os primeiros mártires cristãos e a institucionalização do cristianismo), quando as virgens escolhiam uma vida de total entrega a Deus, e o monacato dava seus primeiros passos de gestação, numa tentativa radical e decisiva de realizar a vontade de Deus-absoluto e estar nessa comunhão com o mesmo. É nesses dois momentos que nos deparamos com as primeiras fundações e configurações dos votos religiosos, sendo que as virgens apresentavam como ponto forte de sua profecia “a castidade”, enquanto os primeiros monges, senobitas ou da ordem de São Bento, tinham como mais relevante “a obediência” para realizar o que Deus queria e seguir "cegamente a autoridade” de seu mestre-fundador- e pastor, uma vez que este era considerado como "porta vós de Deus".

Para um mundo religioso que ainda estava em construção os votos evangélicos tiveram conotações diversificadas de acordo com cada mosteiro, ordem religiosa e opção radical de vida consagrada. Nesses primeiros séculos os votos religiosos foram não tão “perfeitos”, mas, sobretudo, como afirmou os padres do deserto, um profundo desejo de entrega a Deus, num caminho continuo de conversão. Ora, é no século XII, com a ascensão burguesa-comercial, que surge a figura de São Francisco e as Ordens Mendicantes, dando destaque profético para a “pobreza literal” e para a crítica ao capitalismo comercial. Essa postura, apesar de importante, não acompanhou, com a mesma força originária, a história humana religiosa. 

Com o período patrístico encontramos o respaldo e influência “do voto da castidade” em Agostinho e as Ordens Monásticas, e uma visão de retração afetiva e um dualista entre corpo e alma, que perdurou até o Concílio Vaticano II. Nesse percurso patrístico o desprezo pelo corpo e a continência sexual tinha sua sustentação e validade por diversos mecanismos de contensão, como as práticas da disciplina, ascese, mortificação e flagelação do corpo.

No período escolástico os conselhos evangélicos ganharam uma significativa teologia fundamentada com instrumentos filosóficos e ontológicos, revestindo-se de caráter doutrinal e lógico. Nesse período os votos são visto como meios para a “perfeição” no seguimento radical de Jesus Cristo. Porém é na Modernidade que tais votos começaram a ser colocados em questão critica com toda a relevância de sua radicalidade profética. No período de transição moderna tais conselhos ainda seguiam a sua concepção histórica tradicional, formal, onde a coisa mais importante era “cumprir os votos” de acordo com “cada regra de vida religiosa”. Por conta disso muitos religiosos se tornaram santos, muitos sofreram inigualavelmente, muitos morreram bem cedo, enquanto outros, em posição extrema, nos porões do anonimato, não davam importâncias para tais coisas, e viviam como bem queriam.

É nesse período de transição, do Renascimento italiano para Modernidade (séc. XVII para o séc XVIII) que, em 1732, Santo Afonso funda a Congregação Redentorista, denominada pelo nome de Santíssimo Salvador, mas que, no decorrer da história, assumiu as feições próprias e titulares de uma Congregação Missionária Redentorista. Ora no período afonsiano os votos religiosos seguiam a radicalidade da tradição, isto é, era marcado pela continência sexual, pelas formas ascéticas de mortificação, pela dilaceração do corpo, por uma “obediência cega” ao superior e por uma pobreza em todos os níveis da existência. Evidentemente que havia as exceções anônimas na Igreja que não seguiam tais orientações, como ainda hoje acontece, porém, na Congregação afonsiana os conselhos evangélicos assumiram algumas particularidades significativas que se desenvolveram no decorrer da história até os tempos atuais.  

É no âmbito redentorista que os conselhos evangélicos tiveram um caráter teológico e cristológico muito forte. A vida de oração era a base para tais votos, tanto que Afonso chegou a praticar 8 horas diárias de oração. E não só ele, mas todos os santos e beatos redentoristas cultivaram essa prática como sustento e sentido vital para os votos religiosos. A obediência tinha por meio a fidelidade não só ao superior, mas primeiramente a Jesus Cristo e a missão confiada a Congregação. Era nesse sentido que a obediência estava orientada para uma abnegação de si mesmo, a fim de levar aos outros, os mais abandonados, a boa- nova de Cristo. Assim não se fazia a obediência, mas se seguia, isto é, se "continuava o Cristo" obediente, indo ao encontro dos cabreiros e excluídos de Nápoles.

No campo da castidade é possível perceber que, provavelmente sem saber, Afonso assentou a razão fundamental do carisma da Congregação: o amor por Jesus Cristo e o amor especial pelos prediletos de Jesus, os últimos, os excluídos, os pobres. Em poucas palavras podemos encontrar o sinal mais forte da castidade, que perpassou a razão de ser dos missionários: a redenção, a salvação da humanidade, uma paixão sem limites pelo homem. Era essa linha que orientou e ainda hoje orienta  a castidade redentorista.  

No campo da pobreza Afonso deu um salto qualitativo e inovador, pois tal voto nunca foi um não ter nada material, mas algo bem mais profundo: um desapego existencial (da família, dos amigos, dos bens, de si mesmo). Evidentemente que o básico se tinha para viver, conforme a mentalidade da época, porém quanto mais se desapegasse dos bens materiais e dos apegos afetivos, em função de Jesus Cristo, da missão, muitos mais os missionários eram livres e autênticos Redentoristas. Poderíamos dizer que este voto ganham a sua máxima expressão numa simples palavra: distacco! É tão impressionante a visão de Afonso para o seu tempo, porque ele observou uma coisa inaudita nos votos evangélicos: a busca constante e persistente do Eterno. Por isso que adjunto aos três votos ele acrescentou um, “o voto da perseverança”, isto é, morrer na Congregação, realizar algo em vista da Eternidade. Realizar um passo que não teria mais como voltar. Por isso é que ele dizia que “quem quiser entrar para Congregação Redentorista, deve entrar para ser santo”. Uma decisão que não tem um meio termo. É deste modo que os conselhos evangélicos vão perpassando a própria identidade redentorista.

Com o prosseguir do Concílio Vaticano II, os votos tiveram uma revolução significativa. Se antes do Concílio os conselhos evangélicos estiveram atrelados a “prática minuciosa da regra”, no decorrer do pós-concílio aconteceu uma abertura para a vivencia de qualidade dos votos, sem tantas e minuciosas regras, muitas vezes desnecessárias. Se na Congregação Redentorista, em 1936, as orientações redacionais e instrutiva sobre o votos possuíam um total exaustivo de 56 páginas, em 1965 tais votos eram tratados sinteticamente em 9 páginas. Dos aspectos minuciosos e sem sentido, se passou para os aspectos essenciais acentuados. No voto da pobreza, a Congregação promovia a sustentabilidade dos membros, de tal modo que eles vivessem “uma vida perfeitamente comum”, sem “distinções ”, todos os bens de atividade  missionária e apostólica não deviam denotar vaidade, mas um modo simples de viver. Quanto ao aspecto da castidade, esta tinha uma fundamentação espiritual em vista do bom êxito do trabalho apostólico, “sendo uma virtude tão agradável ao Filho de Deus e tão necessária ao operário evangélico”.  Em relação a obediência, as Constituições e Estatutos eram a "lei" que deveria ser cumprida, todavia, havia a possibilidade de dispensa de tais regras de acordo com a necessidade e as circunstâncias, desde de que houvesse uma razão plausível para tal dispensa e sob a orientação de um superior.

Segundo as Constituizoni e Statuti Della Congregazione del Ss. Redentore, em 1969, fala sobre os votos evangélicos, este é “uma resposta de amor”, uma busca pelo “dom total de si”. Pela castidade o redentorista, “consagrado ao mesmo mistério” de Cristo, “dedica-se... a Deus a Missão de Cristo” para “servir o próximo com coração grande”. Assim, vemos os novos caminhos que a castidade deveria seguir e amadurecer. Em relação a pobreza,  os redentoristas abraçaram "voluntariamente a pobreza de Cristo". Inspirados nos apóstolos de Jesus, que viviam a fraternidade, os redentoristas partilhavam os bens em “comum para utilidade de todos”. Também neste sentido, a pobreza evangélica tinha em consideração a situação dos destinatários da missão, os pobres. Por isso a pobreza era um sinal de esperança de uma vida humana e fraterna. Quanto a obediência, todos, desde os superiores até os seus subordinados, deveriam servir a Deus e a comunidade com responsabilidade e solicitude, e no serviço apostólico e missionário, dentro do devido diálogo. As Constituições de 83 apresenta uma abertura maior da vivencia dos votos conforme as diversas circunstâncias e situações de cada região, província e vice província. Na radicalidade dos votos os pobres, a missão e o carisma da Congregação são levados em conta. Uma maior solidariedade evangélica perdura, a tal ponto dos redentoristas se integrarem com as causas dos pobres e lutarem pela dignidade humana deles.  


Por fim, temos as Constituições e Estatutos de 2004, ai encontramos mudanças significativas quanto aos votos religiosos. O voto de castidade mantem o seu viés de auxílio da graça de Deus e ação intercessora de Maria, nossa mãe do Perpétuo Socorro. Enquanto que o voto de pobreza nos abre um leque profético missionário atual. Onde a prioridade é “colocar em comum todos os bens” e “uma aguda sensibilidade face à pobreza do mundo e aos graves problemas sociais”. “Toda a espécie de pobreza- material, moral, espiritual- deve solicitar seu zelo apostólico”. Em casos particulares é possível participar das penúrias dos pobres. O testemunho e solidariedade com os mais pobres é a meta constante do voto de pobreza. Quanto a prática da obediência, a proposta se destina ao corpo missionário para “continuar a missão da Congregação, segundo a diversidade de lugares”. Quanto ao potencial e dons da diversidade redentorista, se promove o estímulo dos dons para o serviço redentorista em vista do carisma congregacional e da essência misericórdia divina, a caridade.

Portanto, conforme a história se segue e conforme a Congregação se abre para as investidas do Espírito, mais ela se aprofunda e se descobre sobre a importância e valor dos votos evangélicos. Eles não só possuem um caráter espiritual, e isso é de fundamental importância, mas também uma força transformadora, social, cultural, político, redentora e plena na vida do Redentorista e na vida das pessoas, em especial, os pobres e abandonados. Os votos não se reduzem a práticas fechadas, mas envolvem a razão de ser redentorista e a qualidade de sua missão. Pois não tem como pensar em conselhos evangélicos tridimensional sem uma integração com a própria existência da Congregação Redentorista e o seu desafio profético nos tempos atuais. Atualmente podemos dizer que tais votos se desdobram em três ações que os dois últimos capítulos tentam implementar: a) a restruturação para a missão, que implica uma abertura e obediência frente aos novos desafios que se segue com a evangelização e promoção humana, b) a solidariedade internacional, de pessoas e bens, para a realização do projeto redentor (pobreza-distacco), e c) uma conversão interior para identidade e fidelidade carismática missionária redentorista (castidade).




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Redentores das mais abandonas: percurso e reflexões sobre a prostituição.


            Apesar da temática “prostituição” não ser tão refletida, explanada e amadurecida na sociedade atual, ela não esteve desvinculada das preocupações evangélico-missionária da Igreja em seus diversos períodos histórico-culturais. Todavia a presente reflexão se limita em observar essa questão a partir do período patrístico-medieval, e, também especificadamente, o da Modernidade no século XIII. Esses dois períodos são contributos importantes para posteriormente delinearmos como se deu, nas suas variações, causas e desafios, a compreensão e posição pastoral eclesiológica sobre a questão da prostituição na sua problemática social, assim como para olharmos os novos desafios que apresentam tal questão na Contemporaneidade.

          Quanto ao primeiro período é notório, na figura de dois Santos, isto é, Santo Agostinho e Santo Tomas, a postura eclesiológica tradicional de “tolerância” para com a realidade da prostituição. Segundo o Redentorista Pe. Dalton Barros de Almeida comenta: “A tradição ‘tolerante’ de Santo Agostinho e de Santo Tomás apresenta a prostituição como um mal menor, como o desaguar das águas sujas das casas” (ALMEIDA, CADERNO AV-20, ?, p. 19 )(Grifo nosso). Assim, a “tolerância” da prostituição se fundamentava pelo medo da corrupção e da desordem social-civilizatória. Isto é, que se não houvesse espaços e pessoas para a deliberação de atos libidinosos-sexuais e sensuais antes e extraconjugais, as mulheres integras, de família, perderiam a sua honra e integridade moral. Neste sentido, também se tinha o medo da desordem sexual como o incestos e outras atividades sexuais anormais. Isso justificou a “tolerância” para com a prostituição e sua atribuição como um “mal necessário”.

            Todavia, como nos esclarece o Redentorista Historiador-Teólogo Jean Carlos Lima da Silva, na sua monografia “A ETERNA FACE DO FEMINISMO: ANÁLISE HISTÓRICA-BÍBLICA-MORAL DA PROSTITUIÇÃO”:

Ao nos perguntamos se a prostituição é um mal necessário, os cristãos primitivos estavam necessitados de resposta à ordem e à sociabilidade da cidade, desta forma não podemos julgar ou afirmar que há um apoio de Agostinho e Tomas de Aquino à prostituição, mesmo que haja uma política de tolerância. (SILVA, 2016, p. 29)

           É a partir do segundo período, o qual nos deteremos melhor, que acontece uma mudança de reflexão e postura sobre a questão da prostituição, que tem a influência dos Redentoristas no magistério da Igreja e na sua postura pastoral. Por esse motivo destacamos duas personalidades, a saber, Januário Sarnelli e São Clemente, que, ainda hoje, possuem ressonância pastoral-prática nessa área.

        Eles desenvolveram novas reflexões e propostas evangélicas para orientar, cuidar, ou até resolucionar tal problemática, no século XVIII. Essas posturas que foram de relevante peso para o magistério da Igreja são inspiração para refletirmos e buscarmos caminhos novos diante da problemática atual da prostituição.

         Januário Maria Sarnelli (1702-1744) desde o seu sacerdócio “se preocupou com a infância abandonada, especialmente com as meninas pobres, vítimas da miséria e presa fácil da prostituição” (ALMEIDA, ?, p. 3). Tal intento apostólico se deu por observar na paróquia rural de São Francisco e Mateus, e, especificadamente, em Nápoles, a proliferação das prostitutas e dos bordeis, ou prostíbulos. Para ele, as causas desse aumento e problemática não se reduz a imoralidade pública:

Sarnelli não reduz a ela [- a imoralidade pública-] toda a problemática da prostituição nem enfoca o tema em termos exclusivamente religiosos ou moralizantes. Para ele toda esta proliferação de prostitutas tem a ver com a falta de proteção das meninas pobres que andam pelas ruas mendigando um pedaço de pão. E porque se entrelaçam elementos políticos econômicos e sociais, legais, religiosos, etc. (Ibidem, p. 14) (Acréscimo nosso)  

         As observações sarnelianas vão além da questão moral pessoal, isto é, também levam em consideração as circunstâncias contextuais, sociais, estruturais, econômicas e políticas, como parte do sistema cultural-social-napolitano da Itália. Sobre toda a estrutura que ele considera, salvo as exceções, como causas da prostituição das meninas de Nápoles: Ele chega a falar “de medidas contra a prostituição descarada e retificada. [...]. É evidente que o ponto de partida e o objetivo primordial da pastoral e dos escritos sarnelianos sobre a prostituição têm a ver com as meninas em perigo” (Ibidem, p. 10-11).

Toda via, sim, o título de excluída é válido para as meninas indefesas, aquelas que são o ponto de partida da preocupação de Sarnelli. Elas são excluídas de uma família, que por pobreza as abandonam; excluídas do bem-estar social e obrigadas a pedir esmola e venderem-se por um pedaço de pão; excluídas dos centros destinados a protege-las, porque os administradores dão os lugares àquelas moças que deles não necessitam; excluídas dos benefícios da pastoral e da solidariedade econômica eclesiástica. (Ibidem, p. 15)

           Além dessas vítimas há uma outra categoria de prostitutas que Sarnelli viu como problemática. Trata-se das prostitutas profissionais, as que vivem da prostituição e colaboram para mantê-la. “[...] é que se trata de um número imenso de mulheres escandalosas e que são elas encontradas por todos os cantos e a toda hora. Estão tão presentes que ocuparam toda a cidade: as praças, os bares, as ruelas e os átrios dos templos” (Ibidem, p. 12). Isso começou a afetar a vida social napolitana de tal modo e com tanta perversidade que até as relações sexuais não tinham espaço apropriado e nem condições humanas de qualidade. Para tentar soluciona o problema Sarnelli propôs reservar um lugar específico para elas, distante do centro da cidade, com condições mais apropriadas para tais atividades. Porém seu intento não era só de distanciamento da prostituição e condições menos desumanas para isso, mas de observação as próprias causas da prostituição: “Sarnelli propõe um registro da cada mulher (nome, estado civil, idade, condição) a fim de descobrir as causas pelas quais querem se prostituir e talvez se possa reverter a situação” (Ibidem, p. 20). Um assistencialismo espiritual do pároco e conselheiros, a prática dos exercícios espirituais e função profético-evangelizadoras das pregações, dentre outras coisas, são medidas pastorais motivadas por ele, para tentar solucionar o problema e não desamparar tais pessoas da possibilidade de conversão. Para as prostitutas que queriam mudar de vida era oferecido os conventos, os conservatórios, destinados a ajudá-las nas suas necessidades. Além disso tinha a proposta para as meninas em perigo:

[...]o primeiro é perguntar às meninas por sua família, seu povoado de origem, o motivo de flanar [, isto é, perambular nas ruas,] e ver se é possível devolvê-las a seu lar. Caso não possam retornar aos seus, que se crie uma casa de acolhida e se lhes ensine vários ofícios; assim ficará mais fácil de reintegrá-las socialmente. Onde esta possibilidade não se efetivar, leva-las a um conservatório ou recomendá-las a uma família honrada é [a] solução. (Ibidem, p. 26) (Acréscimo nosso)

        Apesar das limitações de cada contexto a postura de Januário Sarnelli se torna inovadora e profética para o seu tempo. Por se preocupar com a salvação das pessoas prostituídas e das meninas em risco, Sarnelli foi mal visto e desprezado por muitos. Segundo comenta Santo Afonso sobre os protestos de sua família: “aos parentes que protestavam contra tal atitude, ele dizia: ‘Se alguém perguntar se eu sou da família Sarnelli vou apresentar-me apenas com o nome Januário Maria. Assim a pessoa vai pensar que meu nome é Januário e o sobrenome Maria” (LIGÓRIO, 1753, p. 28, Trad. Port.), isto é, ele iria omitir o nome de sua família para que não sofressem as discriminações e maus falatórios de sua ação evangélica pastoral. Porém, as injurias, preconceitos e desprezos não o impediu de ser um sinal redentor frente as abandonadas de sua época e efetivar uma pastoral da benignidade, no século XVIII, para com essas pessoas. Eis algumas medidas que ele fazia para ajudar tais pessoas em perigo de prostituir-se e até em estado de prostituição:

Para ajudar às pobres mulheres perdidas a se sustentarem não guardava nada para si do que tinha em casa, chegando a se vestir como um maltrapilho em plena Nápoles. Sustentava a muitas delas com seu dinheiro, dando a cada uma certa soma mensal, a fim de que se abstivessem de vender sua honra e sua alma. Não se contentava em ajudar ás que a ele recorriam, mas percorria a cidade buscando algumas delas para salvá-las do pecado. Entre essas, 16 ele colocou num conservatório e a muitas outras deu dote para o casamento. De modo particular sustentou duas delas por dois anos e logo arranjou-lhes moradia, fornecendo os móveis e os utensílios do lar. E como os gastos eram grande e acima de seus rendimentos (...) recolhia esmolas em toda Nápoles, com tanta contrariedade ou repugnância que ele mesmo dizia morrer de pena de si próprio. (ALMEIDA, ?, p. 16)

           Sarnelli compreendia que a questão da prostituição estava acima das escolhas das mulheres, ou seja, que configurava parte da própria falta de assistência e responsabilidade dos ricos, líderes políticos e até religiosos de Nápoles. Por isso chegava a denunciá-los pela via moral, apelando para as suas “consciências”: “Saibam os ricos que por conta da pobreza [...] muitas prostitutas continuam nos lupanares porque não há quem as ajude a mudar de vida e que a virtude das pobres meninas se troca em um pedaço de pão” (Ibidem, p. 28). “Os santos do céu jubilosos cederiam em favor das meninas em perigo toda a prata, pedras preciosas, ouro e outras decorações que adornam suas igrejas e seus altares” (Ibidem, p. 27).

         Diante da realidade problemática da prostituição, o Tcheco São Clemente Maria Hofbauer (1751-1820) nos é útil no aspecto pastoral e no aprofundamento dessa temática. Ele, após se tornar Redentorista e ser ordenando, no dia 29 de março de 1785, é a principal personalidade que leva a Congregação para além dos Alpes, isto é para os países do Norte da Europa. Segundo o Redentorista Pe. Afonso Trenba comenta na sua obra São Clemente Maria Hofbauer: um missionário redentorista movido pela fé (2014) , São Clemente, recém ordenado, estando no território polonês, se depara com a dura realidade de Varsóvia, que estava sob o domínio da Prússia:

A Varsóvia da alta aristocracia, que se revolvia e remexia atrás do carro triunfal da revolução francesa, corroída nas orgias do rei Estanislau II pela depravação da sensualidade, a Varsóvia de então com seus palácios, com seus adultérios nos salões, com suas profanações do matrimonio por meio do dinheiro vil, não queria saber de Deus e nem do bem da pátria, contanto que se lhe fosse dado gozar e se divertir. (TRENBA, 2014, p. 23)

        Em Varsóvia, estando com o Missionário Redentorista Pe. Francisco Saverio Bressler, São Clemente começa a compreender a realidade da prostituição varsoviana com as chamadas “mulheres das estradas” (Ibidem, p. 36). Por meio de seu confrade Bressler, que já tinha um trabalho pastoral nessa área, ele constata que o problema da prostituição estava relacionado inicialmente com uma “má formação religiosa”. Diante de tal realidade eles desenvolvem, na comunidade São Beno, um projeto pastoral de aproximação:

Para as prostitutas profissionais oferece um retiro de dez dias onde nutre a esperança a fim de que redescubram o seu valor como pessoa humana e assim recuperadas em sua autoestima  tornem-se apostolas na conversão de suas colegas de profissão. Para as meninas ocasionais que não podiam participar dos exercícios espirituais proporciona espaço para a edificação pessoal por meio de leituras espirituais dirigidas e incentivando-as à participação na vida sacramental. Para o terceiro grupo o Pe Bressler percebe a necessidade de uma educação adequada e para tanto envia-as para o internato em São Beno a fim de serem formadas em prendas domésticas podendo desta forma ganhar a vida decentemente. (Ibidem.)

        Após a morte do Pe. Bresseler, São Clemente continua o apostolado frente a situação da prostituição em Varsóvia. Aprofundando-se diante das situações de prostituições, com espanto, “Clemente constatou que, em Varsóvia, muitas jovens de classe baixa desde cedo eram levadas e instruídas a prostituição” (Ibidem, p. 39). Na cidade “quase não havia rua sem bordel. As mulheres entregues à prostituição “trabalhavam” nisso, não pelo instinto de serem, mas, simplesmente, para conseguirem o necessário a subsistência” (Ibidem.). Além da causa da extrema pobreza como motivação para prostituição, Clemente observa que:

Essas criaturas, dignas de consideração, moviam-se num círculo vicioso. Já suas mães haviam sido condenadas a uma vida indigna de seres humanos. Mal sabiam que eram gente. As filhas também não gozavam de menor possibilidade de aprender algo que mais tarde lhes servisse de base à existência. (Ibidem.)

        Se a pobreza, a má formação cristã e humana, e a falta de habilidades profissional ou domésticas, eram algumas causas da prostituição, São clemente resolve quebras as cadeias de tais explorações por caminhos inovados. Assim ele cria uma “escola de trabalhos manuais para jovens desamparadas e em perigo” (Ibidem, p. 40). Tal intervenção social, apesar de não ser barrada pelas autoridades prussianas, era motivo de incomodo e preocupações para o governo sul prussiano, pois eles temiam:
[...]que as jovens damas de origem proletárias assim educadas esquecessem sua classe [pobre] e adotassem um estilo de vida cômodo. Os belos frutos saídos do instituto de Varsóvia era boa prova disso. Foi assim que o governo sul-prussiano resolveu, em 1806, acabar com a escola de trabalhos manuais. Nas razões apresentadas, dava-se a entender sutilmente que não convinha que uma “escola para moças estivesse sob controle de um convento de homens”. (Ibidem.)

          Deste modo é que em Varsóvia, São Clemente se depara com os obstáculos da reinserção social das meninas em perigos de prostituição e das mulheres prostitutas. Porém São Clemente não desiste no seu trabalho. Além dessas medidas, ele criou um orfanato, onde os meninos seria acolhidos e recebiam toda uma assistência para seguir a vida até a idade adulta. E as meninas em risco eram entregues aos cuidados das famílias amigas e de viúvas abastardas. O orfanato passou a acolher cerca de 40 a 60 crianças abandonadas. Apesar de que São Clemente era atento a todas as classes da Polónia, ele tinha uma práxis evangélica que o distingue no trabalho apostólico: “o seu amor pelas crianças, principalmente as órfãs e as em situação de risco” (Ibidem, p. 98).   Todavia, a postura pastoral de Clemente, como a do beato Sarnelli, não se restringe ao aspecto da conversão das almas desamparadas, isto é, mulheres em estado de prostituição e as que estavam em risco para tal estado. Ele compreendia que além de cobrar ao Estado sua responsabilidade para com tais situações, também era é preciso cobrar das famílias. Por isso que ele:

Abre colégios e escolas profissionalizantes a tempo integral, orfanatos para as vítimas das guerras e discriminadas e para as em situação de risco. Fala frequentemente aos pais sobre a sua responsabilidade no processo educacional de seus filhos: “Pais e mães; não vos esqueçais de que de vós depende, em boa parte, a benção ou a maldição da sociedade; depende de vós terdes ou não terdes uma boa geração no dia de amanhã; o que se semeia hoje no coração das crianças produzirá frutos na velhice; convencei-vos de que, se fizerdes o que depende de vós, Deus abençoará o vosso trabalho e fará o restante”. (Ibidem, p. 98)

          Diante desses dois redentoristas podemos observar que a questão da prostituição não se encerra na escolha moral das pessoas, mas também nas condições que influencia tal situação. Boa parte das vítimas desse sistema são pessoas que vivem com condições indignas de sobrevivência, direitos humanos e sociabilidade. Tais redentoristas tiveram a coragem de perceber que a estrutura sociocultural de suas localidades tinham um grande contributo de responsabilidade pelo problema da prostituição. A questão não era “tolerar” e muito menos fechar os olhos para tal situação, mas proporcionar caminhos e soluções para tais problemas sociais desumanizantes. O caminho não era a condenação, mas a possibilidade de conversão para uma vida digna conforme os bons desígnios de Deus. A proposta deles foram caminhos de redenção que propiciaram a salvação de muitas pessoas em estado de risco de perderem a sua dignidade e vida.

         Se no século XVIII a situação da prostituição era difícil, na Contemporaneidade ela assume nova roupagem e complexidade. Por isso, vamos traças algumas pontuações que esclarecem as causas, os problemas dessa realidade. E algumas orientações da Igreja e pastorais para lidar com tais desafios, de acordo com algumas luzes dos documentos da Igreja.

        A Modernidade do século XXI é marcada por uma onda de erotismo a ponto de tal época Contemporânea ser definida como “sociedade erotizada”, onde a beleza, a estética e a sensualidade se impõe socialmente como regra de vida pública. Tal característica pode contrariar os valores humanos e a natureza de sua sexualidade, quando ela contradiz e viola a dignidade da pessoa humana e seu significado sagrado e natural ontológico: ser imagem de Deus. Ora, especificadamente, no campo da prostituição, ligado ao campo da pornografia e da violência social, encontramos os sinais das deturpações da sexualidade humana, onde esta é utilizada como “meio” para fins lucrativos antiéticos. É neste sentido que o bem natural do ser sexual humano se torna instrumento de manipulação da prostituição, na disseminação e manutenção da mesma pelos diversos meios de comunicação. Neste percurso, segundo a Campanha de Fraternidade, o tráfico sexual humano é um desses males que utiliza:

[...] como mercadorias o corpo, a sexualidade, a força de trabalho e até órgãos de pessoas, atentando contra a sua dignidade. No entanto, corpo, sexualidade e pessoa formam um todo que não pode ser utilizado como meio para alcançar fins contrários à sua dignidade. O corpo e o sexo não são produtos, objetos de compra e venda, ou meros instrumentos de trabalho e prazer. (CF, 2014, p.61)  

             Segundo o Documento da CNBB sobre a Prostituição: desafio à sociedade e à igreja, afirma: “a prostituição fere a dignidade da pessoa humana e lesa os seus direitos e valores fundamentais” (CNBB, 1976, p. 11). Ela é “consequência de uma sociedade omissa, cujas estruturas deixam acontecer a miséria e a servidão” (Ibidem, p.8). Se na História humana a prostituição foi considerada como um “mal menor”, porém,

[...] este “mal” não protege a família; antes, leva à corrupção dos costumes, à promiscuidade, à infidelidade e a escravidão da mulher. Como também não preserva a juventude, porque favorece o desencaminhamento de jovens, dissemina doenças, incentiva vícios, favorece a exploração do lenocínio o tráfico de tóxicos. (Ibidem, p.9)

       Para Igreja há uma distinção muito clara entre a prostituição e a pessoa em estado de prostituição. No primeiro caso o Concílio Vaticano II chega a afirmar que “‘[...] a prostituição, o mercado de mulheres e de jovens, ou ainda as ignominiosas condições de trabalho, [...]’ são ‘infames’, ‘prejudicam a civilização humana, desonram aqueles que assim se comportam’” (CF, 2014, p. 11-12), e que a “prostituição é uma forma de escravidão, portanto uma injustiça, da qual a sociedade toda é responsável” (CNBB, 1976, p. 27).  Todavia, em relação a pessoa em estado de prostituição: “[...] as prostitutas são “pessoas” e não “coisa”; que se deve pleitear, junto ás autoridades justas em favor delas; que a absoluta maioria das prostitutas são mais vítimas que culpadas” (Ibidem.); “são gente como nós, como nossos parentes, amigos e amigas” (Ibidem.). Neste sentido é que podemos afirmar que “a Igreja condena o mal, mas não condenam as pessoas envolvidas, para as quais ‘estendem a mão’ a fim de ajuda-las a ‘se levantarem’” (Ibidem, p.33).

          No Brasil, a prostituição atinge casos complexos e variados, porém, além da irresponsabilidade e descaso do Estado e do Governo vigente para com esse problema, há outras causas da prostituição como por exemplo:

[...] a injustiça social; o “machismo”; a dupla moral; a miséria; a falta de instrução; a ausência da família; a carência afetiva; os tabus e os preconceitos; a inobservância dos artigos do Código Penal que condenam o lenocínio e o tráfico de mulheres; a propaganda do sexo pelos meios de comunicação; a impune e inescrupulosa exploração de mulheres para fins de lucro. (Ibidem, p. 20)
            É diante dessa situação que se criou pastorais em favor das prostitutas, como o “Ninho”, que pleiteiam a reinserção social das vítimas da prostituição; o “Movimento de Promoção da Mulher” e a Pastoral da “Mulher Só e Desamparada” que ajudam de diversas formas na conscientização da sociedade e das mulheres em estado de prostituição. Todo o trabalho pastoral deve levar em conta as forças externas que forçam tal mal.
[...] o trabalho que se realiza em favor das prostitutas não pode limitar-se a uma simples prestação de serviços gratuitos. [...] É necessário convencer-se de que as vítimas da prostituição não podem ser ajudadas de um ponto de vista “moralizante”, mesmo porque a “santidade” delas se rege por outros cânones, que não os comuns. (Ibidem, p. 31) 

            No decorrer da História tivemos várias situações e posturas em relação a prostituição, porém duas posturas histórias se apresentaram socialmente marcantes, a saber, a) o regulamentarismo da prostituição, desde a Idade Média. Um período de destaque, para nós, é o século XIX, quando Napoleão realizou medidas intervencionistas para regulamentar a prostituição. A medida tinha a pretensão de parar com a desmoralização pública da prostituição e diminuir os riscos do perigo venéreo (doenças sexualmente transmissíveis) com o sistema de saúdes às prostitutas. A regulamentação passou a ser um ato de fé: As consequências “foram funestas por toda a parte: criou-se, na mentalidade masculina, a confiança de que as casas ofereceriam segurança sanitária e todas as facilidades, dando ao vício um caráter de legítimo direito oficializado pelo Estado” (Ibidem, p.65). Tal medida criou cúmplices de toda ordem, como os policiais, traficantes de mulheres e de drogas. As mulheres eram tratadas como objetos, enquanto os proxenetas (explorador e pasticipante da atividade de prostituição) e clientes não sofriam nenhuma repreensão e punição, mas tinham liberdade exploratória.

            Por sua vez, o b) proibicionismo da prostituição se apresentou em alguns períodos históricos, porém, muitas vezes ficou fadado ao fracasso, porque enquanto se quis proibir a prostituição, não se atentou para as causas sócio-culturais-econômicas determinantes. Além disso tal medida de proibição não atingiu profeticamente a todos os agentes promotores e mantenedores da prostituição como os clientes e proxenetas, dentre outros. Encontramos exceções dessa medida ou corrente contra a prostituição em trinta países. Entre estes estão os países em que o nível de vida dos cidadãos é muito elevado, como certos Estados norteamericanos, os países nórdicos da Europa, além dos países de regime comunista” (Ibidem, p.74). Apesar do bom êxito dessa medida contra a prostituição em alguns países, ela só terá pleno êxito quando as raízes profundas da prostituição forem superadas.   Todavia no Brasil tal medida não concorda com a sua conjuntura nacional.

       Entre essas duas posições existe uma terceira medida ou corrente de trabalho contra a prostituição e a favor dos direitos humanos, a saber, o abolicionismo:

Revendo a posição das três correntes: a regulamentarista, que confina e institucionaliza o exercício da prostituição, a do proibicionismo que proíbe e pune, e a do abolicionismo que luta contra o lenocínio e o tráfico de mulheres; concluiu-se que o abolicionismo é a corrente que se apresenta com maiores possibilidades de combate à exploração da pessoa humana. (Ibidem, p. 79-80)   

        Aposição abolicionista intenta “agir sobre as causas morais, sociais e econômicas da prostituição, lutar contra o proxenetismo e toda regulamentação que favoreça sua atividade” (Ibidem, p. 49). Suas raízes histórias estão na Inglaterra, onde foram organizada as primeiras campanhas abolicionistas, na personalidade de Liverpool, Josephine Butler, que realizou os primeiros protestos contra o sistema opressor, discriminatório e desumano inglês, que tentou institucionalizar e regulamentar a prostituição. “O objetivo inicial [...] foi o de lembrar que nada justifica o tratamento dado às prostitutas, tirando-lhes os direitos devidos a toda pessoa humana e colocando-as sob um estatuto discriminatório” (Ibidem, p.58). “Lutaram para que se admitisse serem elas muito mais vítimas de circunstâncias e pressões, do que pecadoras ou viciadas” (Ibidem.).

             Essa postura abolicionista está de acordo com a legislação vigente no Brasil, “expressa no Código Penal, e com a Convenção Internacional para a repressão do Tráfico de Pessoas e do Lenocínio, firmada pelo Brasil em outubro de 1951 e aprovada pelo Congresso Nacional em junho de 1958” (Ibidem, p. 80).  As obrigações legislativas do Brasil estabelece pena de reclusão aos que induzem ou atraem alguém à prostituição, assim como os que mantem casas de prostituição e participam de seu lucro. Todavia, a realidade brasileira apresenta uma total contradição com esses acordos legislativos. Diante disso a Igreja e os grupos pastorais abolicionistas “não podem deixar de denunciar, sob pena de infidelidade ao Evangelho, o evidente desrespeito aos Direitos Humanos, nas casas dessas zonas, onde as mulheres” (Ibidem, p. 80) e homens são subtraídos do direito comum, colocados sob o poder discricionário de gerentes, proxenetas e da polícia, explorados como objetos de comércio, vítimas de maus tratos e violências, lesados em suas necessidades básicas. Por fim, apresentamos aqui que:

A luta contra a prostituição só poderá ser eficaz quando dirigida contra as causas socioeconômicas, culturais, psicológicas que favorecem a prostituição e sua exploração; e recomenda aos Poderes Públicos dos Estados que esta ação se concretize: 1º) pela luta contra o subemprego e desemprego, e as desigualdades sociais e econômicas; 2º) por uma igualdade de tratamento dos homens e das mulheres em todos os campos; 3º) por uma política social em prol das pessoas sós, desamparadas ou em dificuldades, a fim de evitar que não encontrem outra solução que se prostituir; 4º) por uma ajuda largamente dispensada às Instituições que oferecem apoio às pessoas desejosas de sair da prostituição, e lhes oferecem os meios necessários para o seu desenvolvimento pessoal. (Ibidem, p.104)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Santo Afonso e a Sexualidade: sinais de uma vida e espiritualidade redentora.



Dizer que Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787), no percurso de sua vida, adquiriu todo um conhecimento elaborado sobre a sexualidade humana, e que esse tema, como contemporaneamente se observa nas diversas ciências (a psicologia e psicanálise), foi tratado por ele com tanto esclarecimento e maturidade, seria mentira e injustiça para com um santo homem, que viveu enraizado no seu tempo, isto é, entre o século XVII e XVIII. Por outro lado, afirmar que o itinerário da vida de Santo Afonso é totalmente desprovida de uma vivência sexual e noção sobre isso, também seria um erro equivalente.

Entre as duas posturas, opostas e exageradas, soma-se um preconceito sobre o percurso de vida afonsiana com a temática da sexualidade. Todavia, é possível termos uma compreensão plausível ou equilibrada acerca da vida deste Santo com a questão da sexualidade. Isto é, que Santo Afonso, no decorrer de sua vida, teve uma intuição e, mais precisamente, uma vivência sexual que muitos desconhecem ou desprezam no tempo atual, mas que foi significativa e fundamental para sua realização humana e espiritual, assim como para o percurso inicial da Congregação do Santíssimo Redentor.   

Sem negar a visão tabuística, limitada e repressiva que a sexualidade foi vivenciada, de modo geral, no seu tempo, observa-se aqui alguns elementos que sinalizar uma vivência dessa sexualidade em Santo Afonso que contribuíram e enriqueceram a sua opção de vida religiosa, celibatária e santa. Esses elementos estão integrados na sua vida e no modo como experienciou a castidade. Porém, para chegarmos a este ponto faz-se necessário duas observações iniciais.

A primeira observação preliminar que podemos fazer é constatar que a sexualidade humana vai além da relação sexual genital entre pessoas. Como bem sinalizou Martinez na nota de rodapé da obra Sexualidade e crescimento na vida sacerdotal e religiosa (2005, p.16): “É importante ressaltar que a sexualidade é diferente de genitalidade. A sexualidade é uma função do ser que está sempre presente, do nascimento à morte, e que se expressa através do amor, da ternura, dos afetos”. Um fator intrínseco da sexualidade é a questão do desejo, ou da vontade, que gera prazer, satisfação e realização humana. A partir desse esclarecimento podemos encontrar os sinais dessa vivência nos escritos e na vida de Ligório.

A segunda observação está no âmbito da sexualidade em dois modos de vida cristã, a saber, na vida matrimonial e na vida religiosa, virginal e celibatária. Se Marciano Vidal, na Sexualidade e Condição Homossexual na Moral Cristã (2008, p.27) sustentou, que “tanto os casados como os celibatários realizam o mistério de Cristo, que é, em unidade inseparável, mistério de amor fecundo e de amor virginal”, podemos perceber que em Santo Afonso a vivência da sexualidade como amor virginal ou celibatário é um testemunho profético até hoje, que não pode ser esquecido, mas estimulado na radicalidade da vida religiosa redentorista.

O primeiro e fundamental elemento que podemos detectar especificadamente na vivência da sexualidade afonsiana é a sua Espiritualidade, pois foi a partir desta, discretamente, (isto é, sem os olhos atentos do seu pai,) que ele norteou todas as suas escolhas, prazeres, afetos e opção de vida. Desde jovem Santo Afonso desenvolveu esse vínculo afetivo com Deus. As orações cotidianas, a piedade popular e a frequência nos sacramentos sinalizam para este ponto crucial, sem o qual não é possível perceber a orientação determinante da sexualidade afonsiana, a partir de sua experiência Espiritual.

O segundo elemento é o aspecto relacional de sua sexualidade. A relação de Santo Afonso com Deus, não é de sujeito para objeto, mas de sujeito para com O Sujeito, O SAGRADO, Deus uno e trino. Um Deus que fala ao coração e que caminha com ele. E no decorrer de sua vida, lhe mostra que caminho fazer, para onde seguir. Nessa experiência Maria tem sua importância, pois é visível, nos seus escritos, ele sempre recorrer afetuosamente ao auxílio desta Senhora da Esperança (Cf. LIGÓRIO, 2014, p.38-39). Só uma pessoa aberta e experimentada no Espírito é que consegue fazer essa relação no âmbito da sexualidade. Quando Santo Afonso se tornou advogado os ideais de sua conduta estavam inspirados dessa experiência relacional com Deus (Cf. REY-MERMET, 1982, p.102-104). E isso podemos encontrar nas, aproximadamente, 9 horas que ele reservava durante o dia para fazer oração. A constante vida de oração expressava em sua sexualidade essa intimidade com Deus. A disposição de seu corpo e espírito, instrumentos e ornamentos oracionais interagia nessa relação.

Se o aspecto anterior orientava sua sexualidade numa comunhão com Deus, ela não se reduzia a um exclusivismo. Mas ganhava sua expansão na relação com os familiares e, de modo particular, com os pobres de Nápoles. Portanto, o terceiro elemento que denota traços da vivencia dessa sexualidade estava no cuidado, na compaixão, na caridade para com os mais necessitados. O auxílio no hospital dos incuráveis, a caridade para com os mais necessitados e a constante oblação de amor nas missões da época, tudo isso, era expressão ativa de sua sexualidade que tinha como desejo e gosto profundo fazer a vontade de Deus e encontrar-se com Cristo nos abandonados.

A quarta forma de expressão de sua sexualidade pode ser encontrar na fundação de sua Congregação. Trata-se por tanto da vida em comunidade. A aproximação evangélica e o trabalho comunitário teve como fim a evangelização, porém não tem como compreender tal trabalho sem um vínculo afetivo, como a amizade, por menor que seja. Como é sabido, nosso pai, Afonso tinha escrúpulos para consigo, pois em muitas situações era muito radical. Porém, podemos observar que ele para com os outros era até mais brando, principalmente para com os mais abandonados. Se a radicalidade da regra fazia parte da mentalidade da época, por outro lado, a vivência com seus confrades apresenta esses resquícios de fraternidade que é uma expressão da sexualidade humana. Isso se justifica no fato de Santo Afonso, inspirado na experiência com Deus, querer uma Congregação Apostólica-Missionária e não contemplativa, portanto, voltada para o cuidado e redenção dos outros excluídos e abandonados.

O quinto elemento é encontrado na sua criatividade evangélica. Como diz Rey-Mermet: “Em desenho, pintura, arquitetura, Afonso teve um êxito maravilhoso” (Ibidem, p.86). Além dessas artes, Ligório também era escritor, compositor e pianista, dentre outros tralentos. Em todas essas artes é possível encontrar sinais dessa sexualidade que atinge seu prazer e satisfação enquanto relação intima com Deus e provedora frutífera de evangelização. Em tais instrumentos artísticos encontramos uma riqueza de valores, virtudes, desejos e sonhos que constituem aspectos da sexualidade humana em Santo Afonso como a ternura, o zelo, a sensibilidade afetiva, a meditação e sensibilidade a ação divina.  Tai coisas não só enriqueciam os outros que acolhiam esses talentos, mas a sua própria pessoa humana e espiritual.

O último elemento a destacar como elemento mais profundo de sua sexualidade é o amor.  Em boa parte de suas obras o amor para com Deus e para a salvação da humanidade é uma constante. Não se trata portanto de uma ideia e nem de um sentimento, mas da realidade essencial do amor na experiência divina e humana: a entrega oblativa. Deus é amor, Jesus é a real, humana e mais concreta realização e expressão do amor do Pai. Este elemento é tão profundo e determinante em sua vida que promoveu em Santo Afonso uma experiência nova e inigualável: a de um Deus que é louco de amor pela humanidade a ponto de sair de Si, de sua condição divina, adentrar na condição humana, assumir a nossa fraqueza e morte, dar-nos a possibilidade da eternidade e estar sob o serviço da humanidade, na condição de pão (Eucaristia). Essa experiência com O AMOR, e de Amor é expressa nas Visitas ao Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria (Cf. LIGÓRIO, 2014, p.38-39):

“Grave-me, como selo em seu coração, como selo em seu braço; pois o amor é forte, é como a morte! Cruel como o abismo é a paixão. Suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Javé! As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisera alguém dar tudo o que tem para comprar o amor...seria tratado com desprezo’(Ct 8, 6-7)”. Para Santo Afonso “Jesus na Eucaristia é esta chama de Deus que incendeia os corações no amor. [...] O próprio Jesus, ao anunciar a hora de sua paixão e morte, a descreve como um fogo que abrasa toda a terra [...]” (Ibidem.).

Essa experiência de Amor e com O AMOR o levava a desejar profundamente Deus e a dizer à Jesus: “Senhor Jesus, inflama-nos em teu amor e faz com que pensemos só em ti; que nada mais ambicionemos além de ti. [...] Ó Verbo Divino, na encarnação (Fl 2, 6-7), paixão e Eucaristia (Jo 13, 1) te aniquilaste e sacrificaste por amor a nós, como nos consagramos totalmente a ti? Quanto a ti, Pai de bondade, aceita nossos louvores, que brotam da entrega de nossas vidas e se unam à oferenda de teu Filho Jesus (Hb 13, 15)” (Cf. Ibidem, p.72-73).

Portanto, apesar das limitações do tempo e da mentalidade da época de Santo Afonso, é possível encontrar sinais que expressam a sexualidade afonsina como a entendemos hoje. Neste sentido, essa riqueza deve inspirar a vida religiosa na realização humana afetiva-sexual no modo especial de viver, tão especial como a vida matrimonial e mais amplo do que os preconceitos de tempos passados. Neste sentido podemos dizer que a vivência afetivo-sexual-afonsiana é exemplar para nós, Religiosos Redentoristas. Isso não nos inclui em elementos próprios da opção de vida matrimonial: a relação sexual genital e a frutificação de tal relação (os filhos), porém, tal impasse não deve ser considerado como lástima ou negação de nossa sexualidade humana, e muito menos de nosso ser sexual, mas apenas alguns elementos que são abdicados pela opção de vida religiosa como oblação em vista do Reino, pelo chamado de Jesus e pelo seu exemplo de vida virginal e casta. A experiência profunda do amor a quem nos amou e nos chamou por primeiro continua sendo o elemento mais importante e motivador da nossa sexualidade e da opção de vida respondida por nós. Neste modo especial de viver nossa sexualidade somos desafiados a ampliar o nosso horizonte existencial, humano e sexual para a plenificação da proposta redentora. Que Deus, em seu Filho Jesus continue sendo nosso caminho, verdade e vida.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

1) As linhas indicativas do espírito profético na Contemporaneidade, com base nos escritos do Papa Francisco.



No decorrer da História da Igreja Católica, da década de 80 até a Contemporaneidade, o profetismo ganhou novo dinamismo e novos desafios em vista das mudanças do mundo moderno, mudanças estas como a evolução tecnológica-virtual e o desenvolvimento científico. Nesse percurso o profetismo teve avanços e retrocessos, ora com uma práxis político-social relegada ao ativismo, ora com um espiritualismo sem historicidade. Essas duas correntes proféticas extremistas ainda se apresentam até hoje, porém, para se ter uma maior atualização e autenticidade profética, pode-se dizer que o caminho mais plausível para o contemporâneo profetismo não seria o das duas correntes citadas, mas um caminho intermediário, que não tivesse seus fundamentos e razão de “ser” no materialismo, e muito menos em um espiritualismo abortado, isto é, que estivesse a quem da vida, nas suas diversas manifestações.

Neste sentido, salvo as exceções, o caminho mais significativo e marcante do profetismo na Contemporaneidade passa por uma experiência espiritual cristológica-pneumática autentica, isto é, evangélica, renovada, impelida pela força divina do Espírito. Todavia, esse profetismo renovado precisa cotidianamente estar integrado com uma concretude história, a partir da realidade (mundo?) atual, para que se tenha uma compreensão evangélica dos sinas dos tempos e consiga responder profeticamente as novas exigências da Contemporaneidade. Dentre outras pessoas características desse profetismo, considera-se o Papa Francisco como personalidade marcante desse novo percurso.

De acordo com a temática titular, com base nos escritos do Papa Francisco, traça-se algumas linhas indicativas desse profetismo na Contemporaneidade, que caminha no presente sem perder a sua inspiração evangélica. Devido a amplitude da proposta, o artigo se divide em nove temas na ordem alfabética, que não necessita necessariamente de seguir a ordem de apresentação. Tais temas, a saber:  a)     Linha Gerais de abordagem profética: Justiça e Misericórdia; b) Motivações proféticas para a Vida Religiosa Consagrada; c) Motivação profética para os leigos em comunhão com a Vida Religiosa; d) Profetismo: leitura dos sinais dos tempos na Contemporaneidade; e) Redirecionamento profético: reencontro, conversão, saída e superação continua; f) Anúncio profético: a Boa-Nova; g) Denúncia profética: degradação humana e degradação ecológica; h) Sintomas e causas da degradação humano-ecológica; e i) Linhas proféticas de ação, foram ordenados a partir da pretensão temática, na tentativa de desenvolver linhas de reflexão e caminhos para o profetismo na Contemporaneidade.

       a)      Linha Gerais de abordagem profética: Justiça e Misericórdia.

Em linhas gerais pode-se afirmar que o profetismo é caracterizado por três conceitos essenciais- anuncio, testemunho e denúncia- sem os quais corre-se o risco de perder sua originalidade e essência. Em Francisco tais conceitos encontram-se como realidade concreta, portanto, vivida. Todavia, a particularidade da abordagem profética na figura de Francisco está em duas palavras que se complementam de modo processual: a Justiça e a Misericórdia. Como ele apresenta na Misericordiae Vutus para abertura do Ano da Misericórdia (2015, p. 23): “[...], não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolvem gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor”. Essas duas palavras são significativas no atual itinerário profético porque elas tratam do “[...] tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos” (Ibidem, p. 13).  Ora, conceituando processualmente tais palavras, Francisco apresenta com clareza o que é possível entender profeticamente por Misericórdia e Justiça. Por Misericórdia, se entende que:

[...] é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado. (Ibidem, p. 5-6)

Essa concepção, marca da profecia, tem suas raízes evangélicas, que até certo ponto ficaram esquecidas na História. Porém, Francisco retoma tal historicidade desde o Concílio Vaticano, quando a Igreja sentiu a necessidade de dar os primeiros passos renovados da sua caminhada evangélica. “Os padres, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível” (Ibidem, p. 7). Ao contrário do que muitos pensam, na perspectiva profética, Francisco não fala de uma ideia, ou uma palavra vazia de sentido, mas algo correto e vivido desde o coração de Deus:

Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo de suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de uma amor “visceral”. (Ibidem, p. 9)

Deste modo a Misericórdia atinge sua plena e mais compreensível expressão em Jesus Cristo. Pois ele é o rosto de Deus misericordioso. É na espiritualidade cristológica que o profetismo se atualiza. Na observância de Jesus, a partir de suas palavras e atos, na relação com as pessoas. Nessa relação Jesus “manifesta algo de único e irrepetível. Os sinal que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de Misericórdia. (Ibidem, 10-11). Assim, a Misericórdia apresenta sua inspiração profética na pessoa de Jesus que em Nazaré, no sábado, ler a passagem do profeta Isaias, para anunciar um tempo novo, de graça:
“O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para levar a boa nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de misericórdia do Senhor” (Is 61, 1-2). “Um ano de misericórdia”: isto é o que o Senhor anuncia e que nós desejamos viver. (Ibidem, p. 19)
As observações sobre a Misericórdia, característica da abordagem profética franciscana, se justificam no tempo atual, tempo este em que “A palavra e o conceito de misericórdia parece causar mal-estar ao homem” (Ibidem, p. 14). Ora a “mentalidade contemporânea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, entende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia de misericórdia” (Ibidem, p. 14). Com a evolução tecnológica da ciência a humanidade adquiriu uma potencialidade que a desviou de sua responsabilidade e essência frente ao domínio ético e evangélico da terra. Isso fez ela se afastar de suas natureza essencial: a misericórdia, a compaixão. Desse modo é preciso resgatar essa essência humanitária e divina para a humanidade não se perder no seu caminho.
Junto a Misericórdia está a Justiça:

A Justiça é um conceito fundamental para sociedade civil, normalmente quando se faz referência a uma ordem jurídica através da qual se aplica a lei. Por justiça entende-se também que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. Na Bíblia, alude-se muitas à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo bom judeu conforme os mandamentos dados por Deus. (Ibidem, p. 23)

            Porém essa concepção perdeu a sua força profética porque não se atualizou as exigências dos novos tempos e não alcançou o sentido de Justiça original. O resultado do conceito de Justiça como cumprimento da Lei foi o legalismo, tão persistentemente motivado pelos saduceus, fariseus e doutores da Lei, na época de Jesus, como por muitos do poder político na Contemporaneidade. Ora a abordagem franciscana apresenta um novo valor para a Justiça. Não mais uma justiça que é comprimento da Lei pela Lei. Assim ele retoma a inspiração bíblica ao afirmar que “diante da visão de uma justiça como mera observância da lei que julga dividindo as pessoas em justo e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia” (Ibidem, p. 23). Nesse sentido a justiça de Deus se identifica com a Misericórdia. Porque é uma justiça que promove a dignidade humana. Neste sentido é que, segundo Francsico, São Paulo modificou o seu conceito de Justiça como superação da Lei pela Fé:

A sua compreensão da justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a lei. Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica. A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu perdão [...]. (Ibidem, p.24)

            Assim é possível compreender que a justiça tem uma práxis revolucionária que culmina no amor. “A misericórdia não é contrária a justiça” (Ibidem.), mas a misericórdia é complemento e plenitude da justiça. Porque: “A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de destruí-la. Por isso, Deus com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça” (Ibidem, p.25). E isso não nega a justiça.

Antes pelo contrário! Quem erra deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele a engloba e a supera em um evento superior em que se experimenta o amor, que está na base de uma verdadeira justiça. (Ibidem.)

               Portanto, essas duas abordagem não são contraditórias, mas complementares. A Justiça precisa superar a lei e ser sinal de redenção para as pessoas. Na medida em que a Justiça vai contra a dinâmica do evangelho, a vida e a dignidade humana, ela perde o seu verdadeiro sentido. Isso não implica desconsiderar os erros humanos, mas uma caminho de conversão humana que conduza a pessoa para a experiência do amor. Neste sentido é que se chega na Misericórdia e que é possível resgatar o sentido original do profetismo como uma busca pela dignidade e sacralidade humana para que a pessoa se reconcilie consigo e com Deus. Esses dois conceitos são marcas do profetismo contemporâneo.

       b)     Motivações proféticas para a Vida Religiosa Consagrada.

É de conhecimento tradicional, na História da Igreja, que a Vida Religiosa Consagrada surgem categoricamente após os período dos Grandes Mártires da Igreja, isto é, nas proximidades do século III e IV, depois que a Igreja se ligou aos Estado e poderio Constatinopolitano e tornou-se religião oficial de Roma. Ora, com essas mudanças os cristãos não precisavam mais se esconder nas cavernas, arriscar-se pela fé, e nem dar a vida como profeticamente aconteceu com alguns apóstolos e mártires, pelo testemunho de Cristo. Assim o Cristianismo se uniu fortemente ao Estado e a vida cristã assumiu a dinâmica da vida civil comum, sem o radicalismo de antes.

Deste modo os fundamentos do Cristianismo e o seu modo de vida não diferenciou-se muito da vida social civil, com seus prestígios, suas festas, regalias, culturas e modo de vida. É nesse contexto que desponta a Vida Religiosa Consagrada como uma escolha radical por Jesus Cristo, distanciando-se do centro das cidades e da vida comum. Eram os Padres e a Virgens que iam para o deserto, afim de fugir do conformismo e dos apegos de uma vida “mundana”, isto é, marcada pelas facilidades do ter, pelas vaidades do ser, e pela ganância do poder. Ora essa fuga para o deserto foi uma forma de profetismo que não concordava com o status quo e buscava um novo modo de viver o batismo, na sua fidelidade. Daí é que surgem na Igreja a Vida Religiosa Consagrada como sendo essencialmente profética. Essa é sua essência e razão de ser, pois a profecia é uma radical opção por Jesus Cristo e a concretização de seu Reino, de igualdade, liberdade, fraternidade, amor, paz e justiça, dentre outros predicados que é possível encontrar.

Com o decorrer do tempo a Vida Religiosa continuou manifestando seu testemunho profético, ora com altos e baixos. Porém, ela está passando por um processo de transformação, desde o Concílio Vaticano II. E seu desafio profético precisa ser continuado e atualizado para a Contemporaneidade. Apesar de se ter muitas pessoas que são sinais proféticos nos tempos atuais, não se pode desconsiderar algumas indicações do Papa Francisco úteis para a Vida Religiosa no nosso tempo. Pensando justamente nisso é que na Carta Apostólica ele fala ÀS PESSOAS CONSAGRADAS (2014). Nessa Carta é possível encontrar motivações proféticas para a Vida Religiosa Consagrada.

A primeira orientação está em retomar as origens profético-históricas da Vida Religiosa. Um “olhar com gratidão o passado. Cada Instituto provém de uma rica histórica carismática. Nas suas origens, está presente a ação de Deus que, no seu Espírito, chama algumas pessoas para seguirem de perto a Cristo” (FRANCISCO, 2014, p.7). O revisar as fontes não é para ficam num saudosismo dos tempos antigos e nem para fazer arqueologia histórica,

[...]mas de percorrer o caminho das gerações passadas para nele captar a centelha inspiradora, os ideais, os projetos, os valores que as moveram, a começar dos fundadores, das fundadoras e das primeiras comunidades. É uma forma também de tomar consciência de como foi vivido o carisma ao longo da história, que criatividade desencadeou, que dificuldades teve de enfrentar e como foram superadas. (Ibidem, p. 8)

         Deste modo é possível ter sentido de pertença das raízes históricas da Vida Religiosa para continuar essa profecia nos novos desafios que advém pela frente. Se a visa religiosa teve suas regras como norte de evangelização e profetismo, não se pode esquecer que para “os fundadores e fundadoras, a regra em absoluto foi o Evangelho; qualquer regra pretendia apenas ser expressão do Evangelho e instrumento para o viver em plenitude” (Ibidem, p. 9). Neste sentido a motivação profética na Vida Religiosa precisa ser o Cristo, e toda a profecia precisa estar inspirada na experiência com Ele, no hoje da vida.

A pergunta que somos chamados a fazer neste Ano é se e como nos deixamos, também nós, interpelar pelo Evangelho; se este é verdadeiramente o vade-mécum para a vida de cada dia e para as opções que somos chamados a fazer. Isto é exigente e pede para ser vivido com radicalidade e sinceridade. Não basta lê-lo (...), nem basta meditá-lo (...); Jesus pede-nos para pô-lo em prática, para viver as suas palavras.  Jesus- devemos perguntar-nos ainda- é verdadeiramente o nosso primeiro e único amor, como nos propusemos quando professamos os nossos votos? (Ibidem, p.10)

           A revisão sobre a Missão Religiosa é uma constante para atualizar o seu profetismo. A História dos profetas bíblicos mostra que cada realidade apresentava a sua exigência, por isso que cada profeta apresenta um tipo de denúncia e um tipo de resposta profética para cada situação. Deste modo na Contemporaneidade, com a globalização e a revolução tecnológica, as realidades se tornam mais complexas e se modificam com uma velocidade maior. Daí surge a necessidade de atualização da Missão que nos foi confiada, da fidelidade religiosa, e o renovado amor aqueles aquém Jesus nos envia por primeiro, a saber, os que estão nas periferias existenciais.

O Ano da Vida Consagrada questiona-nos sobre a fidelidade à missão que nos foi confiada. Os nossos serviços, as nossas obras, a nossa presença correspondem àquilo que o Espírito pediu aos nossos fundadores, sendo adequados para alcançar as suas finalidades na sociedade e na Igreja atual? Há algo que devemos mudar? Temos a mesma paixão pelo nosso povo, solidarizamo-nos com ele até o ponto de partilhar as suas alegrias e sofrimentos, a fim de podermos compreender verdadeiramente as suas necessidades e contribuir com a nossa parte para lhes dar resposta? (Ibidem, p. 11)

            O novo caminho profético na Vida Religiosa, apresentado por Francisco, requer uma abertura para a relação com o outro, para o testemunho profético da vida em comunidade, semelhante aos doze apóstolos. Após a vinda de Cristo eles anunciaram com grande paixão a esperança do Reino concretizada pela paixão, morte e ressureição de Jesus. A luta pelo Reino continua, porém tal luta é em vista do que Cristo nos chamou a fazer: anunciar que Deus se encarnou, que a salvação entrou na História Humana, que a felicidade já se realiza com a vinda de Jesus, mas que o seu Reino de amor precisa se expandir a fim de restaurar a dignidade humana, refazer os caminhos mal feitos, restaurar a vida, denunciar um mundo contrário ao projeto de Deus e lutar para o resgate dos desfavorecidos. Para tal fim Francisco convida os religiosos a viverem com paixão o presente:

Viver com paixão o presente significa tornar-se “perito em comunhão”, ou seja, “testemunhas e artífices daquele ‘projeto de comunhão’ que está no vértice da história do homem segundo Deus”. Numa sociedade marcada por conflito, convivência difícil entre culturas diversas, prepotência sobre os mais fracos, desigualdade, somos chamados a oferecer um modelo concreto da dignidade de cada pessoa e a partilha do dom que cada um é portador, permita viver relações fraternas. (Ibidem, p. 12)

Nesse percurso Francisco nos alerta contra um tipo de profeta que não configura de originalidade evangélica. Ele pode ser classificado como os falsos profetas do Primeiro Testamento. Tais profetas hoje se baseiam nos números de religiosos que se tem e nas quantidade das obras, nas estruturas e numa visão estreitamente negativa da vida e da humanidade contemporânea. Numa condenação de tudo o que é novo, sem uma fé esperançosa em Cristo que caminha na história e nos chama a continuar seu projeto.

Não cedais à tentação dos números e da eficiência, e menos ainda à tentação de confiar nas vossas próprias forças. Com atenta vigilância, perscrutais os horizontes da vossa vida e do momento atual. Repito-vos com Bento XVI: “Não vos unais aos profetas de desventura, que proclamar o fim ou a insensatez da vida consagrada na Igreja dos nossos dias; pelo contrário, revesti-vos de Jesus Cristo e muni-vos das armas da luz [...]. (Ibidem, p.14)

A exortação para os tempos atuais é de esperança no futuro, na certeza de que Deus caminha com seu povo. Não se trata, todavia, de uma esperança sega, mas de uma esperança que sabe das limitações e fragilidade humanas, que diante de tais fragilidades, experimenta a misericórdia do amor de Deus. E ver nas situações de limitação humana, a “ocasião para gritar ao mundo com força e testemunhar com alegria a santidade e a vitalidade presentes na maioria daqueles que foram chamados a seguir Cristo na vida consagrada” (Ibidem, p. 9). Deste modo é que Francisco insiste para que os religiosos não se desanimem com os desafios da realidade, pois é sabido das “dificuldades que enfrenta a vida consagrada nas suas diversas formas: a diminuição das vocações e o envelhecimento, especialmente no mundo ocidental, os problemas econômicos na sequência da grave crise financeira mundial, os desafios da internacionalidade e da globalização” (Ibidem, p. 13). Porém a profecia da vida religiosa está na esperança em dias melhores, no futuro, onde Cristo se adianta a esperar a todos. Por isso, como profetas todos os religiosos precisa alegria:

Que seja sempre verdade aquilo que eu disse uma vez: “Onde estão os religiosos, há alegria”. Somos chamados a experimentar a mostrar que Deus é capaz de preencher o nosso coração e fazer-nos felizes sem necessidade de procurar noutro lugar a nossa felicidade, que a autêntica fraternidade vivida nas nossas comunidades alimenta a nossa alegria, que a nossa entrega total ao serviço da Igreja, das famílias, dos jovens, dos idosos, dos pobres nos realiza como pessoas e dá plenitude à nossa vida. (Ibidem, p.16)

Todos esses sinais apresentados pelo Papa Francisco na Carta aos Religiosos são motivações características do profetismo no tempo atual. E isso se apresenta desde o anúncio de Cristo como primeiro amor da Vida Religiosa até o testemunho vivo dessa experiência com Ele. “Numa sociedade que ostenta o culto da eficiência, da saúde, do sucesso e que marginaliza os pobres e exclui os ‘pecadores’, [...] [é possível testemunhar], através da nossa vida, a verdade (...) da Escritura [...]. Tal testemunho é concretização do Reino em nosso meio. Por meio de um novo modelo de vida, que anuncia a boa nova, denuncia as injustiças e promove o Reino de Misericórdia é que a Vida Religiosa realiza a profecia. Esta configura parte importante de sua missão evangelizadora:

Espero que “desperteis o mundo”, porque a nota característica da vida consagrada é a profecia. [...] Mas os religiosos seguem o Senhor de uma maneira especial, de modo profético”. Esta é a prioridade que agora se requer: “ser profetas que testemunham como viveu Jesus nesta terra (...). Um religioso não deve jamais renunciar à profecia” [...]. (Ibidem, p. 18)

            O profeta recebe de Deus a capacidade de se inserir na história e discernir sobre os acontecimentos. Ele conhece a Deus e aos homens e mulheres do seu tempo. É capaz de discernir e denunciar o mal do pecado e as injustiças. Só deve responder a Deus e não tem outro interesse a não ser o de Deus, por isso ele é livre. Habitualmente o profeta está ao lado dos pobres e indefesos:

Desse modo, espero que saibais. Sem vos perder em vãs “utopias” onde se viva a lógica do dom, da fraternidade, do acolhimento da diversidade, do amor recíproco. Mosteiros, comunidades, centros de espiritualidade, cidadelas, escolar, hospitais, casas-famílias e todos aqueles lugares que a caridade e a criatividade carismática fizeram nascer- e ainda farão nascer, com nova criatividade-, devem tornar-se cada vez mais o fermento para uma sociedade inspirada no Evangelho [...]. (Ibidem, p. 19)

       c)       Motivação profética para os leigos em comunhão com a Vida Religiosa.

Assim como para os Religiosos e Religiosas da Igreja, a profecia também é uma exigência para o povo leigo. Pois estes também participam da Missão de anunciar a Jesus, vivenciar essa experiência e denunciar as injustiças contrárias ao Reino. Embora os leigos estejam numa condição de vida distinta daquela professada pelo Religioso, eles participam da mesma realidade carismática da Vida Religiosa e, portanto, da Igreja. Francisco convida os leigos para viver esse diálogo e comunhão com os Consagrados:

Por isso, convido todas as comunidades cristãs a viverem este Ano, procurando antes de mais nada agradecer ao Senhor e, reconhecidas, recordar os dons que foram recebidos, e ainda recebemos, por meio da santidade dos fundadores e das fundadoras e da fidelidade de tantos consagrados a seu próprio carisma. A todos convido a estreitar ao redor das pessoas consagradas, rejubilar com elas, partilhar as suas dificuldades, colaborar com elas, na medida do possível, para o prosseguimento do seu serviço e da sua obra, que são, aliás, os da Igreja inteira. (Ibidem, p.26)

       d)     Profetismo: leitura dos sinais dos tempos na Contemporaneidade.

Se as marcas do profetismo atinge hoje novos rumos e desafios, para tal realização é necessário uma observação dos “sinais dos tempos”, ou em outras palavras, compreender a realidade a partir da experiência de fé cristológica e trinitária. É por esse caminho que o Papa Francisco apresenta as exigências do anúncio do evangelho no tempo atual, no segundo capítulo da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013). Neste capítulo, ele anima “todas as comunidades a ‘uma capacidade sempre vigilante de estudar os sinais dos tempos” (FRANCIASCO, 2013, p. 46), para que se possa responder com responsabilidade e compromisso ao apelo da evangelização e discernir profeticamente “o que pode ser um fruto do Reino e também o que atenta contra o projeto de Deus” (Ibidem.). Neste sentido é que ele apresenta como estímulo alguns aspectos da realidade global Contemporânea:

[...] não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumenta algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; cresce a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. (Ibidem, p. 47)

           Esses sinais de agressão ao gênero humano possuem suas causas na história, na própria falta de cuidado com a vida e a dignidade social. Tais tempos apresentam mudanças de época que não configuram somente a situação de exploração e opressão de antes, mas se apresenta mais aguda, profunda e velada. A História denuncia que tais problemas foram causados pelos “enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verifica[ra]m no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida” (Ibidem.). É importante frisar que houve uma disparidade entre a evolução tecnológica-científica-virtual e a humanização das pessoas, na Modernidade. Enquanto se evoluiu em aspectos tecnológicos, de bem estar e comodidades, por outro aspecto se gerou alguns descasos em matéria de dignidade e humanidade. A prioridade na evolução do mercado e da economia pelo sistema capitalista trousse para as pessoas desigualdades e exclusão social, em que “os excluídos não são explorados, mas resíduos, ‘sobras’”.   
  
Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência dessa situação, grande massa da população veem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do descartável, que aliás, chega a ser promovida. (Ibidem, p. 48)

        Tais mudanças promoveram uma globalização não solidária, mas da insensibilidade e da indiferença, do egoísmo e do individualismo. Quase sem se dar conta as pessoas se tornaram incapazes de compadecer-se ao ouvir os clamores dos outros, já não choram à vista do drama dos outros, nem se interessa por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade que interessa a outro (Ibidem, p. 49). Nesse contexto, uma das causas referidas por Francisco está na relação de idolatria estabelecida com o dinheiro, porque este é aceito pacificamente como primado dominador e determinante das motivações e preocupações sociais. Isso fez a sociedade esquecer do ser humano, de sua dignidade, acima de tudo, e do bem comum.

A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer de que, na origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. (...) Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provem de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. (Ibidem, p.50).  
  
         Neste sentido a evolução econômica atrelada ao sistema capitalista moderno gerou problemas no âmbito da vida civil. As regras pretendidas absolutas do capital não diminuíram a disparidade entre países ricos e pobres. Mas quis impor um sistema cultural económico que na sua raiz é injusto. As relações comercias pressionam os países desfavorecidos a se submeterem aos países dominantes, para poderem ascender economicamente. Isso trousse prejuízos para muitos países, um crescimento as custas da intervenção cultural e ambiental.  “Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como [os países pobres e] o meio ambiente, fica[m] indefesa, face ao interesse do mercado divinizado” (Ibidem, p.50, Acréscimos nosso). O problemas do sistema econômico exige uma reforma financeira que leve em conta a ética:

Uma reforma financeira que tivesse em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! (Ibidem, p.52)

No âmbito cultural a Contemporaneidade apresenta desafios grandes para serem superados. O relativismo exacerbado, relacionado as decepções e crise das ideologias contrárias a tudo o que parecia totalitário, foram fatores da Modernidade contemporânea, todavia, a permanecia desse relativismo, contrário aos princípios normativos de civilidade e boa convivência, está trazendo prejuízos para estabilidade humana, a Igreja e a equidade civil. Isso é visível no âmbito cultural, onde se manifesta “verdadeiros ataques à liberdade religiosa ou em novas situações de perseguição aos cristãos, que, em alguns países, atingiram níveis alarmantes de ódio e violência” (Ibidem, p. 54). Soma-se a isso um subjetivismo de conduta e busca de verdade individualista que distancia cada pessoa de um norte comum de vida, norte este fundamental para as relações interpessoais, sociais e fraternas.

Reconhecemos que, numa cultura onde cada um pretende ser portador de uma verdade subjetiva própria, torna-se difícil que os cidadãos queiram se inserir num projeto comum que vai além dos benefícios e desejos pessoais. Na cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido, superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência. Em muitos países, a globalização comportou uma acelerada deterioração das raízes culturais com a invasão de tendências pertencentes a outras culturas, economicamente desenvolvidas mas eticamente debilitadas. (Ibidem, p.55)

        Em meio ao relativismo exacerbado surgem movimentos religiosos “tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus” (Ibidem, p. 56). Essas ações reacionárias tentam preencher o vazio deixado pelo secularismo, e pela falta do espírito evangélico e acolhedor de muitas paróquias e comunidade. Todavia, emerge na sociedade um processo secular que tende reduzir a fé e a Igreja ao âmbito do privado e íntimo, desvinculado de uma responsabilidade e compromisso com a sociedade, além de estimular a sociedade para um relativismo moral. Tais transformações culturais atingem também o âmbito familiar, as células, ou membros, do corpo social humano. Elas fragilizam os vínculos fundamentais familiares e tenta reduzir a vida matrimonial familiar a vínculos afetivos que podem ser modificados conforme a sensibilidade de cada um.  “No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros e onde os pais transmitem a fé aos seus filhos” (Ibidem, p. 58). Tais conflitos são favorecidos pelo individualismo pós-moderno e globalizado que “favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos vínculos familiares” (Ibidem).

Nas cidades ainda há um estilo de vivência religiosa distinto da população rural. Também é possível encontrar nas periferias das cidades grupos de pessoas que são excluídas dos centros e da convivência fraterna. Enquanto os citadinos-povo da cidade- lutam para viver há outros que são desconhecidos. “Enquanto há citadinos que conseguem os meios adequados para o desenvolvimento da vida pessoal e familiar, muitos são também os ‘não citadinos’, os ‘meios citadinos’ ou os ‘resíduos urbanos’” (Ibidem, p. 64).

A cidade dá origem a uma espécie de ambivalência permanente, porque, ao mesmo tempo em que oferece aos seus habitantes infinitas possibilidades, interpõe também numerosas dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradição provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades são cenários de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela força poderão ser silenciadas. (Ibidem, p. 65)

         No âmbito das cidades Francisco explana as situações delicadas as quais pode-se constatar “o tráfico de drogas e de pessoas, o abuso e a exploração de menores, o abandono de idosos e doentes, várias formas de corrupção e crime” (Ibidem.). Essas tenções transformam os espaços, que deveriam ser de encontro e solidariedade humana, em lugar de retraimento, desconfiança, medo e insegurança mútua. Todavia, invés de se afastar de tais ambientes o desafio profético é estar nessas realidades, pois inserir-se no coração dos desafios “como fermento e testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade, melhora o cristão e fecunda a cidade” (Ibidem.).  Devido a esses diversos desafios da cultura contemporânea, os cristãos e agentes pastorais correm o risco de retroceder, se afastar e distanciar-se de tais realidades que gritam por justiça, misericórdia e salvação. Neste sentido negativo Francisco ressalta os desafios da espiritualidade missionária hoje, ou poder-se-ia dizer, da presença profética.

Hoje se nota em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoas de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade. Ao mesmo tempo a vida espiritual se confunde com alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão pela evangelização. (Ibidem, p. 67)

        Tais situações são frutos dos males do nosso tempo. Infelizmente muitos agentes pastorais acabam “por sufocar a alegria da missão numa espécie de obsessão por serem como os outros e terem o que possuem os demais” (Ibidem, p. 68). Neles se desenvolve um relativismo ainda mais perigoso que o doutrinal, isto é, agir como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem, sonhar como se os outros não existissem, trabalhar como se houvesse uma classe particular, como se as pessoas que não foram evangelizadas não existissem. Muitos se agarram as seguranças econômicas e aos espaços de poder e gloria, em vez de doar a vida pelos outros na missão evangélica. Muitos leigos fogem do compromisso cristão e não querem assumir tarefas que lhe tire seu tempo livre. Muitos sacerdotes se preocupam obsessivamente com o tempo pessoal, como se não houvesse um povo precisando dele, como se ele não fosse responsável pelo cuidado pastoral de um povo. Também se observa um desanimo egoísta na missão confiada por Deus, uma atividade mal vivida de espiritualidade e convicção de fé. Muitos se fecham em um pessimismo estéril e seguem o caminho de profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos miseráveis, como se tudo estivesse chegando ao fim.

Uma das tentações mais sérias que sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e mal-humorados desencantados. Ninguém pode empreender uma luta, se de antemão não está plenamente confiado no triunfo. Que começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e enterra os seus talentos. (Ibidem, p.73)

            Outro fator que atinge a sociedade, mas de modo contra testemunhal cristão, em nível internacional, é as guerras. O mundo está dilacerado pelas guerras e violência, ou ferido pelo individualismo que põe os seres humanos uns contra os outros, visando o próprio bem-estar egoísta. Essas guerras se manifestam dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, de um modo mais velado. Invejas, ciúmes, são contradições que dilaceram o profetismo cristão. Elas se impõe pela busca do poder, prestígio, prazer ou segurança econômica. Deste modo Francisco pede aos cristãos de todas as comunidades do mundo, “um testemunho de comunhão fraterna, que se torna fascinante e resplandecente” (Ibidem, p.83), pautado pela lei do Amor.  Sem uma radicalidade de fé e entrega na vida a partir da experiência com Cristo, a vida cristã fica fadada ao mundanismo espiritual. Este se esconde por aparência de religiosidade e até mesmo de amor a Igreja, mas busca cada vez mais a glória humana e o bem-estar pessoal. Não assume a profecia e não denuncia o pecado de domínio público, pelo que apresenta que tudo é correto:

Este mundanismo pode alimentar-se, sobretudo, de duas maneiras profundamente relacionadas. Uma delas é o fascínio do gnosticismo, uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos. A outra maneira é o neopelagianismo autorreferencial e prometeico de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a certo estilo católico próprio do passado. (Ibidem, p. 80)

Deste modo a Contemporaneidade apresenta as suas limitações, fraquezas e desafios a serem superados. Para que se tenha mudanças para o bem comum é preciso não se conforma com o mundo, refazer e reciclar a experiência profética a partir de dentro, esclarecer e denunciar as mazelas da realidade global corrompida e anunciar um tempo novo em que Deus convida a cada um a conversão interior, a busca por soluções que com o testemunho cristão já se anuncia.

     e)      Redirecionamento profético: reencontro, conversão, saída e superação continua.

O profetismo na Contemporaneidade não pode ter a mesma dinâmica tradicional que em tempos passados, se não correr-se-ia o risco do anuncio profético não chegar ao coração humano e se tornar uma palavra morta, condenada ao fracasso. Na melhor das hipóteses ele seria pura expressão de um museu retórico falacioso, que as vezes se pode encontrar mofando em algumas academias teológicas. Uma roupagem estilística nova, uma resposta evangélica nova aos problemas atuais, se faz necessário. Não se trata portanto da perca dos fundamentos do profetismo, da sua essência geradora, mas de uma atualização e redirecionamento das bases pelas quais ele surgiu, somando-se a isso os novos horizontes criativos e desafiantes do nosso tempo. Em poucas palavras, poderia se dizer que trata-se de um caminho de renovação, de redirecionamento criativo profético. E esse primeiro passo se dá no encontro com Cristo, onde Francisco, na Evangelii Gaudium, escreve:

Convido todo cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de procura-Lo dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que “da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído”. (Ibidem, p. 4)  

        Por essa experiência renovada é que os profetas são chamados a levar a alegria da salvação que se concretizou com a vinda Jesus Cristo em nosso meio. Esse renovado encontro deve impeli-los para o anúncio da presença misteriosa de Jesus e a esperança da sua segunda vinda escatológica, na plenitude do Reino. Essa deve ser a mesma contagiosa alegria que também se manifestou nos profetas do Primeiro Testamento, como Zacarias que, vendo o dia do Senhor, convidou o povo a vitoriar o Rei que chegaria humilde, montado num jumento: “‘Exulta de alegria, filha de Sião! Eis que o teu rei vem a ti. Ele é justo e vitoriosos” (Ibidem, p. 6). Infelizmente, há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Pascoa, desesperançados que estão da presença de Cristo e de seus dons cotidianos. Porém, tal caminho precisa ser refeito num encontro autentico e confiante, numa entrega e abertura para presença de Deus.

Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. [...] Somente graças a este encontro- ou reencontro com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa consciência isolada e da autorreferêncialidade. (Ibidem, p. 8)

           O reencontro com Jesus, nossa grande alegria, proporciona uma liberdade de filhos de Deus, porém, ela deve mover os profetas para uma maior humanidade e sensibilidade face as necessidades dos outros, pois tal foi o caminho de Cristo. Essa confiança e expansão de fé deve o profeta a buscar o bem do outro. Essa é a experiência do amor doação. “Na doação, a vida se fortalece; e [ela] se enfraquece no comodismo e no isolamento. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que se deixam a segurança da margem e se apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais” (Ibidem, p.10). Nessa dinâmica de entrega, a vida ganha um novo sentido evangélico e profético:

[...] um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral Recuperemos e aumentemos o fervor de espírito, “a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas![...] E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a Boa-Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo”. (Ibidem, p. 11)

           Após esse redirecionamento interior, na experiência com Deus, que deve se expressar no cotidiano da vida, outros fatores se fazem necessário para revitalizar o coração no chamado profético. Trata-se da conversão para a missão confiada por Deus, por Cristo, a todos, e de modo especial, aos profetas. Tal conversão não se trata de um lamentar-se e murmurar sobre as faltas cometidas no caminho, mas “uma necessidade generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda dos defeitos, que aquela consciência denuncia e rejeita, como se fosse um exame interior ao espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si mesmo” (Ibidem, p. 24). Essa conversão de coração deve ganha sua concretude no trabalho pastoral e missionário profético, como Francisco aconselha: “Espero que todas as comunidades se esforcem por atuar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão” (Ibidem.). Esse caminho profético ganha sua comum expressão em uma Igreja “em saída”, inspirada desde a sua tradição bíblica profética:

Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de “saída”, que Deus quer provocar nos crentes. Abraão aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (Cf. Gn 12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: “Vai Eu te envio”(Ex 3, 10). A Jeremias disse: “Irás aonde Eu te enviar” (Jr 1, 7). Naquele “ide” de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova “saída” missionária. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar essa chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. (Ibidem, p.19-20)

          Essa saída implica a moção que o Espírito impele em todo aquele que caminha com Deus. Trata-se dos frutos da docilidade espiritual e profética. Ela “contém sempre a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais. O Senhor diz: ‘Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois para isso que Eu vim’” (Ibidem, p. 20). O exemplo de Cristo é a motivação profética para não perder de vida o aspecto itinerante da missão.  O aspecto profético está enraizado em ter os mesmos sentimentos que Cristo e se deixar impulsiona pelas suas iniciativas da redenção. É preciso perceber que na saída, Deus já tomou tal iniciativa e precede a todos que querem segui-lo. Na confiança em Deus é preciso “ir a frente, saber tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos” (Ibidem, p. 22). No contato com os pobres, abandonados e excluídos, os profetas evangelizam e são evangelizados, compreendem a realidade dolorosa e esperançosa do povo e contraem o “cheiro das ovelhas”. E desse modo o sair de si mesmo pode levar a pessoa a se encontrar com Jesus Cristo que está no outro, mais necessitado, e portanto, o privilegiado de Deus. Somente nessa dinâmica do contato e da presença é que se pode ressignificar o profetismo, pois é nessa dinâmica de “comunhão” e em “comunidade” que é possível discernir e sentir a presença do Reino que se faz no estar junto, no acompanhamento com a humanidade e de modo especial, com os esfoliados e anônimos da sociedade.

          Na Contemporaneidade é necessário rever os meios tradicionais de evangelização e orientar as estruturas que se possuem para proximidade e serviço do povo. Um dos desafios que se fala, está nas paróquias missionárias que ainda não atingiram o seu ideal evangélico, muitas vezes se fechando em manutenção sacramental, ou não alcançando os excluídos de sua região. Além dessa estrutura, outras precisam de um maior compromisso e fidelidade ao evangelho para não perderem ou enfraquecerem seu caráter profético. Sem vida nova e espirito evangélico autêntico, sem fidelidade a própria vocação, qualquer estrutura acaba se corrompendo com o passar do tempo. A reforma das estruturas só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, comunicativas, abertas ao diálogo e em atitude de constante “saída” para chegar a todos que Jesus oferece sua amizade. Sobre a reorientação da paróquia Francisco afirma:

[...] supõe que esteja realmente em contato com as famílias e com a vida do povo, e não se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmo. A paróquia é presença eclesial no território, âmbito para a escuta da Palavra, o crescimento da vida cristã, o diálogo, o anúncio, a caridade generosa, a adoração e a celebração. (Ibidem, p. 27)

         Quanto as outras instituições eclesiais que possuem forte caráter profético e evangélico, como as comunidades de base e pequenas comunidades, os movimentos e outras formas de associação, é importante que não percam o contato com a paróquia e que se integrem na pastoral orgânica da Igreja particular para que mantenham comunhão com o espírito e unidade da Igreja e saibam apresentar os diversos desafios proféticos que se mostram no meio da evangelização. Todavia, todo o trabalho de renovação profética e pastoral requer clareza na sua missão. Neste sentido o chamado essencial é para que se seja “uma mãe de coração aberto”, que sabe parar para ajudar quem caiu pelo caminho, as vezes como o pai do filho pródigo que continua dia e noite esperando o filho amado voltar. Essa abertura, acolhimento e dedicação tem uma especial predileção profética:

Mas a quem deveria privilegiar? Quando se lê o evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, “aqueles que não têm com que te retribuir” (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, “os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho”, e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. (Ibidem, p. 42)
               
       f)       Anúncio profético: a Boa-Nova.

Depois de se apresentar algumas mudanças indicadas pelo Papa Francisco na caminhada cristão em suas funções eclesiásticas, se faz salutar observar o outro aspecto que caracteriza o profetismo, a saber, o anúncio da Boa-Nova de Cristo, na evangelização.  Neste sentido o terceiro capítulo da Gaudium evangelii é bem claro ao afirmar que “‘não pode haver verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor’ e sem existir uma ‘primazia do anúncio de Jesus Cristo em qualquer trabalho de evangelização” (Ibidem, p. 93). Porém esse anúncio vai além das institucionalidades, isto é, “quer dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho” (Ibidem, p. 96). Porém essa evangelização deve levar em conta a cultura de cada povo, respeitá-las e promove-las na medida em que elas são expressão dos valores evangélicos e da dignidade humana. Pois tais atitudes evangélico-proféticas enriquecem e orientam qualquer cultura assim como dinamiza o anúncio. Sobre a relação do Evangelho com as diversas culturas, vale dizer que:

Quando uma comunidade acolhe o anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força transformadora do Evangelho. E assim, como podemos ver na história da Igreja, o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural, mas “permanecendo o que é, na fidelidade total ao anúncio evangélico e à tradição da Igreja, o cristianismo assumirá também o rosto das diversas culturas e dos vários povos onde for acolhido e se radicar. (Ibidem, p. 97-98)

         Ora, Graça e Cultura não são duas coisas contrárias e opostas, mas a primeira pressupõe a segunda e a ação de Deus se encarna na Cultura. Para isso se faz mais patente o aspecto da inculturação como o da inserção no processo de anúncio e encarnação da Boa-Nova. É importante perceber que na História algumas culturas estiveram ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento cristão, porém a Boa-Nova do Evangelho, sua mensagem fundamental criativa, não se identifica com nenhuma delas, mas é transcultural no seu conteúdo, isto é, emana e transcende a própria cultura de um povo. Como afirma Francisco: “A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta alguma roupagem cultural, mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que autêntico ardor evangelizador” (Ibidem, p. 99-100). Porém, quando há uma e madura inculturação na vida dos povos, estes se tonam sinais visíveis do Evangelho, da força redentora de Deus. Isso acontece nos povos que acolheram a Boa-Nova do Evangelho:

[...] os diferentes povos, nos quais foi inculturado o Evangelho, são sujeitos coletivos ativos, agentes da evangelização. Assim é, porque cada povo é o criador da sua cultura e o protagonista da sua história. A cultura é algo dinâmico, que um povo recria constantemente, e cada geração transmite à seguinte um conjunto de atitudes relativas às diversas situações existenciais, que esta nova geração deve reelaborar frente aos próprios desafios. O ser humano “é simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido”. Quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova: daí a importância da evangelização entendida como inculturação. (Ibidem, p. 103- 104)   

           No âmbito da profecia como anúncio Francisco apresenta algumas considerações para as diversas modalidades de mensagem salvífica crista. As devoções populares tão presente na América Latina é característica de uma profundidade e simplicidade popular que expressa com qualidade a fé desse povo, embora tal modalidade não esteja articulada e categorizadas por uma teologia sistemática. Além dessa Francisco destaca uma especial atenção para os presbíteros e pregadores da Palavra. O tempo para o estudo, a meditação, reflexão, oração e criatividade pastoral são elementos imprescindíveis para um pregado que comunica e anuncia a mensagem do Evangelho:
O pregador “deve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida necessário; precisa se aproximar da Palavra com o coração dócil e orante, afim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere uma nova mentalidade”. (Ibidem, p. 123)  
       Com não menor importância no anúncio evangélico- profético está a pastoral da catequese. Esta não pode se desprender do seu conteúdo principal e vida, o querigma: “O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos leva e comunica a misericórdia do Pai” (Ibidem, p. 135). Na boca e na vida do catequista deveria-se sempre ressoar a mensagem de que Jesus Cristo deu sua vida a humanidade para salvá-la. A mistagogia é outra característica catequética que não poderia faltar para que os iniciados a vida cristã tivessem um progresso formativo e uma valorização memorial celebrativa-litúrgica dos mistérios da fé. Tal suporte tem como finalidade atualizar e revitalizar a caminha cristã e o aspecto profético que todos possuem pelo batismo.  Uma pastoral renovada se faz necessária para atualização profética da Boa-Nova.

Para superar tais fronteiras do caráter pastoral ordinário da profecia evangélica nas comunidades, paróquias e pastorais, faz-se necessário algumas pontuações desse anúncio na dimensão social da evangelização. O coração do Evangelho deixa explícito a conexão entre a evangelização a e promoção humana integral. A comunhão com Deus deve levar os cristãos para as consequência sociais e políticas concretas, que se inspiram no Reino. Nesse itinerário se apresenta a afirmação de Francisco sobre a religião Católica:

Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar a alma para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterne, porque Ele criou todas as coisas “para nosso usufruto” (1Tm 6, 17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever “especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum”. (Ibidem, p. 151)

      É nesse aspecto que o profetismo ganha socialmente sua praticidade. Enquanto chamados por Deus para implementar seu Reino no mundo os profetas, a partir de uma espiritualidade evangélica. Não se trata portanto de agir como políticos pela ordem social e do Estado, mas de lutar pela justiça que brota do coração de Deus para o povo em benefício da humanidade. Esse dever não é só para os religiosos, as religiosas e clérigos, mas para todo cristão como afirma o Francisco:

Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a preocupar-se com a construção de um mundo melhor. É disto mesmo que se trata, pois o pensamento social da Igreja é primariamente positivo e construtivo, orienta uma transformadora e, neste sentido, não deixa de ser um sinal de esperança que brota do coração amoroso de Jesus Cristo. (Ibidem, p. 152)

Dessa motivação desponta prática concretas de evangelização. E nesse sentido a mensagem cristã se volta para uma escolha especial que faz parte da história dos profetas como do povo de Deus: a escuta do seu povo e a promoção dos mais excluídos. “Cada Cristão e cada comunidade são chamadas a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade” (Ibidem, p. 154). Não estar atento as realidade e situação dos mais excluídos, fingir não escutar o seu clamor que se manifesta de diversas maneiras é estar fora da vontade de Deus e de seu projeto salvífico. Essa dedicação e preferência pelos últimos da sociedade recebe o nome de solidariedade. Esta “significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (Ibidem, p. 156). Neste aspecto se destaca a busca por justiça e misericórdia para com os pobres, abandonados e excluídos, para que eles façam parte do Reino de Deus na História e na vida. Essa radicalidade preferencial pelos pobres “é mais uma categoria teológica que cultural, [...] ou filosófica.  Deus ‘manifesta a sua misericórdia antes de mais’ a eles. Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuírem ‘os mesmos sentimentos que Cristo Jesus’” (Ibidem, p. 163). Deste modo:

Animados pelos seus Pastores, os cristãos são chamados, em todo o lugar e circunstância, a ouvir o clamor dos pobres, como bem se expressaram os Bispos do Brasil: “Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angustias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais- sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde- lesadas em seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos [...] à má repartição dos bens e da renda. [...] Não se fala apenas de garantir a comida ou um decoroso “sustento” para todos, mas “prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos”. Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente trabalho [...]. (Ibidem, p. 158)  
            
           Essa aproximação e opção preferencial pelos pobres se inspira no coração de Deus que na encarnação quis se identificar com os pobres e a estes privilegiou com as bem-aventuranças no monte. Essa aproximação profética implica um acompanhamento real e solidário, não só para empresta-lhes a voz profética em suas causas, mas para ser seus amigos, escutá-los, compreendê-los e acolher a misteriosa sabedoria que Deus comunica por eles. “Isso implica apreciar o[s] pobre[s] na sua bondade própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a fé. O amor autêntico é sempre contemplativo” (Ibidem, p. 164), permitindo servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque o outro é belo, independe da sua aparência, isto é, de uma amor gratuito. Somente com esse acolhimento é que caracteriza no profetismo numa autentica opção pelos pobres. Sem essa opção o Evangelho não pode ser compreendido e o anúncio profético perde a sua essência. O acolhimento dos pobres é mais do que programas de assistência social, mas uma busca pela sua dignidade humana e sagrada que é imagem e semelhança de Deus. Infelizmente muitos não atentam para uma das piores discriminações e exclusões que passam os pobres: a falta de cuidado espiritual.

[...] desejo afirmar, com mágoa, que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta de um caminho de crescimento e amadurecimento nafé. A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e prioritária. (Ibidem, p.165-166)
  
Na preferência evangélico-profética pelos pobres se destaca o clamor por justiça e misericórdia diante das situações de fragilidades, agressões, explorações e violência que atingem a humanidade, porém mais profundamente e drasticamente os pobres. Nesse sentido Francisco apresenta como problema gritante a economia que explora e gera desigualdade e a má distribuição de renda atual que mantem a pobreza. A resolução das causas da pobreza não pode esperar mais. “Os planos de assistência, que acorrem determinada emergência, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias” (Ibidem, p. 167), porém tais medidas não estão sendo realizadas para acabar com o problema da pobreza:

Em quanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é raiz dos males sociais. (Ibidem.)

          Infelizmente as palavras “ética”, “solidariedade mundial”, “distribuição dos bens”, “defesa dos postos de trabalhos”, “dignidade dos fracos” e “um Deus que exige um compromisso com a justiça” são tidas como males por esse sistema injusto e perverso. Por outro lado não falta pessoas que manipulam tais palavras em prol de interesses particulares e oportunistas, ou até para tornar o discurso mais convincente e aceitável, como acontece muitas vezes na política. Não se pode mais confiar na força cega e mão invisível desse mercado que quer ser o ídolo da sociedade, mas é fonte de escravidão e exclusão. O crescimento equilibrado de uma sociedade requer coisas maiores do que o crescimento econômico desigual. Uma economia que assegure o bem de todos os países se faz necessária.

         Daí se faz necessário o cuidado com os pobres, com suas fragilidades. Todos são chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra. E no modelo de vida que se promove atualmente não tem sentido investir nos lentos, fracos e miseráveis. Desprezar tais pessoas é abandonar o Cristo sofredor: “os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos” (Ibidem, p. 171) e os migrantes, dentre outros. Nesta situação de pobreza estar as pessoas que são objetos das diferentes formas de tráficos, as mulheres que padecem situação de exclusão, maus-tratos e violência, e também os nasciturnos- os que irão nascer- a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que bem querem, como tirar-lhes a vida e promover leis para que ninguém possa impedir isso. Por outro lado, tais atos praticados contra a vida humana, não desresponsabiliza a todos, e principalmente os líderes de um pais, de cuidar das mulheres que fizeram aborto por diversas situações mais duras.

Por fim, Francisco apresenta quatro princípios de desenvolvimento da convivência social como caminho de Justiça, paz e fraternidade. Tais princípios são utilíssimos para o profetismo contemporâneo. O primeiro: “o tempo é superior ao espaço”. A imediaticidade faz com que se queira resolver tudo no hoje e no agora. Se busca mais espaços de poder em vez de tempo e processos. A parábola do joio e do trigo é um exemplo desse princípio. Muitas vezes se pretende abarcar as coisas de modo imediato e resolutamente. Essa tentativa de ter as coisas prontas, faz as pessoas quererem resolver tudo como loucas e a curto prazo. Tal atitude não responde corretamente as situações mais difíceis e delicadas, onde tem que se ter paciência e tempo para serem vistas e resolvidas. “Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços.  O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem retorno” (Ibidem, p. 179).

O segundo princípio é “a unidade prevalece sobre o conflito”. Há duas posturas que podem se tomar diante do conflito: fingir que não existe ou imergir nele até ficar aprisionado. Porém, a postura mais adequada é reconhecer o conflito, acolhê-lo e transformá-lo em processos novos de paz. Não é sincretismo entre diferentes e nem negação de um com o outro, mas construção de um plano superior, uma nova caminhada que conserva as potencialidades das duas polaridades. É a unidade na diversidade. O sinal dessa unidade é a reconciliação, que gera paz. “A paz é possível, porque o Senhor venceu o mundo e sua permanente conflitualidade, ‘pacificando pelo sangue da sua cruz’” (Ibidem, p. 182). É o percurso da conversão de coração e a reconciliação para se fazer avançar para caminhos renovados e de unidade. 

O terceiro é “a realidade é mais importante do que a ideia. Isto supõe evitar várias formas de ocultar a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projetos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-históricos” (Ibidem, p. 183). Esse terceiro critério está relacionado com a encarnação da Palavra e seu cumprimento. Ele impõe a prática da Palavra e realiza obras de caridade e justiças que brotam da Palavra. 

O quarto: “O todo é superior à parte”. Nesse âmbito é preciso considerar que o todo sem as partes se torna uma abstração globalizante, inebriados, algo que não alcança o processo. Por outro lado as partes sem o todo reduz as coisas nas obcecadas visões medíocres e estreitas, limitadas e particulares. O caminho é acolher as raízes da particularidades, da história, e se mover para perspectivas mais amplas. “O modelo é o poliedro, que reflete a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua originalidade”. Tais princípios orientam para a dinâmica do profetismo na observância do processo, da comunhão, do Reino, para a plenitude dos tempos.

       g)      Denúncia profética: degradação humana e degradação ecológica.

Depois de se observar o aspecto do anúncio profético que comporta a Boa-Nova do Reino, isto é, Jesus e sua proposta de Redenção. A pós se considera a amplitude e privilégio desse anúncio na Contemporaneidade, não teria como falar igualmente de profetismo sem uma de suas características peculiares: a denúncia profética. Nesse sentido, na Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, é possível delinear algumas considerações suas acerca da práxis social e da casa comum humana planetária.

A explosão da revolução Industrial e tecnológica trousse para sociedade mudanças no modo de se relacionar socialmente, no modo de lidar com o mundo e de se utilizar da natureza. A exploração da natureza foi um desses grandes males históricos ambientais que e a sociedade teve, mas que atualmente precisam ser reparados, porque “[o ser humano] começa a correr o risco de destruí-la e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação” (Ibidem, p. 4). Essa degradação humana tem seu fundamento na própria forma da humanidade compreender a realidade que a cerca, porque ela “parece ‘não se dar conta de outros significados do seu ambiente natural, para além daqueles que servem somente para os fins de uso e consumo imediatos’” (Ibidem, p. 5). Essa estreiteza de visão, que perde o seu referencial espiritual transcendental e a noção ética e moral, está trazendo danos violentos ao mundo natural e para própria humanidade, porque “a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana (Ibidem, p. 7) que está passando por crises graves. Daí é preciso ter consciência das mas ações humanas, isto é, do pecado contra a criação, como referencia Francisco:

“Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para mudanças climáticas, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado”. Porque “um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus”. (Ibidem, p. 8-9)

Essa situação mostra como parte da humanidade se apresenta fechada em si mesma, presa a uma ideia de que não existe verdades indiscutíveis (como o valor sagrado da natureza), que a liberdade humana não tem limites e que a mesma não quer reconhecer uma instância maior, acima que lhe é superior. Os males do nosso meio ambiente estão estreitamente relacionados com os males da humanidade, daí ser fundamental encontrar soluções para a degradação ambiental a partir da própria humanidade, isto é, de seu modo de perceber seu gênero e o mundo, de seu modo de relacionar-se consigo mesma e com o mundo. Sem uma busca por mudanças do próprio homem, todas a medidas tomadas estariam enfrentando apenas os sintomas aparentes dessa degradação e não sua causa fundamental, a sua essência.  Como motivação para transformação dessa realidade humano-ecológica Francisco toma o exemplo de São Francisco de Assis, que na sua busca espiritual e ensinamento profético-evangélico-prático foi um reconciliador do homem consigo mesmo e com a natureza. “A pobreza e a austeridade de São Francisco não era simplesmente um ascetismo exterior, mas algo mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio” (Ibidem, p. 12). Essa é uma característica profética contrária ao status quo na sua época, que serve de inspiração para a Contemporaneidade. A denúncia de tal situação se faz necessária porque:

Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse de outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou a confiança cega nas soluções técnicas. (Ibidem, p. 14)

Apesar dessa desmotivação no campo das mudanças favoráveis para o bem comum, “uma parte da sociedade está entrando em uma etapa de maior conscientização. Nota-se um crescente sensibilidade relativamente ao meio ambiente e ao cuidado da natureza” (Ibidem, p. 18).   Isso deve motivar o profetismo para que não se submeta aos interesses contrários à proposta evangélica e a dignidade humana. Para tanto se faz necessário observar que os dois últimos século foram marcados por profundas mudanças, na humanidade o no planeta, caracterizando o tempo atual como o tempo da rapidez, ansiedade e impaciência.  Porém a velocidade com que se evoluiu está além do processo evolutivo natural biológico. “Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que hoje lhe impõem as ações humanas contrasta com a lentidão natural da evolução biológica” (Ibidem, p. 17). Daí se observar que tais mudanças não contribuíram para o bem comum e para o desenvolvimento humano sustentável e integral, acarretando na deterioração do planeta e da qualidade de vida humana. Nesta perspectiva Francisco traça sete tópicos que são males da ação humana na Contemporaneidade.
O primeiro mau é a “Poluição e mudanças climáticas”. São diversas e variadas as formas de poluição que atingem a sociedade. Elas produzem efeitos desastrosos em diversos setores da vida humana como, na saúde, na nos meios de transporte, na alimentação, na cultura dos povos, nos bens naturais e nos diversos seres da criação divina. O sistema tecnológico ligado a economia pretende ser uma única solução para tais problemas, porém, ele é “incapaz de ver o mistério das múltiplas relações que existem entre as coisas e, por isso, às vezes resolve um problema criando outro” (Ibidem, p. 19). Anualmente se produzem diversos poluentes, como os resíduos tóxicos biodegradáveis (resíduos domésticos, comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrônicos, industriais, resíduos tóxico e radioativo). A poluição nos últimos anos está tão intensa que a “terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” (Ibidem.). Muitas vezes as autoridades responsáveis só tomam medidas resolutivas quando as pessoas já estão com problemas irreversíveis, na saúde e no modo precário de vida. E o sistema econômico e político determinante não encontrou soluções plausíveis para o mal que ela está gerando:
[...] o sistema industrial, no ciclo de produção e consumo, não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos e detritos. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando e reciclando-os. (Ibidem, p. 20)
            Essa poluição não é somente na terra, mas atinge o céu, isto é, atinge o sistema climático. Contemponareamente falando, o mundo está passando por um aquecimento climático. Seus efeitos são desastrosos, como a alta concentração de gases de efeito estufa na camada de ozônio que impedem os raios solares de se diluírem no espaço. O acumulo desses gases prejudica o ciclo natural do ecossistema, dos recursos naturais (Rios, açudes, solo...), e da biodiversidade do planeta. Isso afeta a própria vida humana, e principalmente os mais pobres, que vivem e sobrevivem do trabalho agrícola, da pesca e outros recursos florestais, nesses lugares onde há bens naturais. Para evitar tais males no planeta, é preciso “tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater esse aquecimento” (Ibidem, p. 21), porque suas causas estão na atividade humana que não respeita o ecossistema e a dinâmica processual da natureza:
Muitos daqueles que detêm mais recursos e por econômico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas muitos sintomas indicam que tais efeitos poderão ser cada vez piores, se continuamos com os modelos atuais de produção e consumo. (Ibidem, p. 24)
            Daí se faz urgente deslumbrar e criar um novo modelo de consumo e produção, nova fontes de energia que não agridam tanto o sistema planetário. É necessário desenvolver recursos sustentáveis e renováveis que não coloque a perder o ecossistema e os recursos naturais que se tem. Ao mesmo tempo que se produzir tais recursos, os mesmos devem estar a serviço do todos, do bem comum.
“A questão da água” é outro ponto que precisa ser observado e denunciados para que se promova o bem comum. Este ponto não está aquém do anterior, mas configura parte do “esgotamentos dos recursos naturais” (Ibidem, p. 25). Nos países desenvolvidos é bem claro observar um nível de vida, consumo e desperdício fora do comum, isto é, que ultrapassa os limites da exploração do planeta. É nessa perspectiva que a água ganha sua importância porque ela é indispensável para sustentar a vida dos seres humanos, aquáticos e outros seres. Anteriormente no planeta se tinha bastante água potável, mas agora, em muitos lugares a procura excede a oferta, com graves consequências a curto prazo. Um exemplo dessa precariedade está na África, onde vários setores da população não têm acesso a água potável.  Em parecida situação estão os pobres dos diversos países que possuem doenças relacionadas “com a água, incluindo as causadas por micro-organismos e substâncias químicas. A diarreia e a cólera, devido aos serviços de higiene e reservas de água inadequados, constituem um fator significativo de sofrimento e mortalidade infantil” (Ibidem, p. 26).
Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares cresce a tendência para se privatizar este recurso escasso, tornando-se uma mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o cesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina s sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, [...]. (Ibidem, p 26-27)
            Enquanto em alguns lugares do mundo há falta de água, em outros há o desperdício, mas esta ação não se restringe somente a países desenvolvidos economicamente, mas aos subdesenvolvidos. A persistência de tais práticas gerarão problemas para o futuro.  Daí se faz necessário uma conscientização esclarecida e reais sobre a gravidade de tais problemas. Não se trata de uma propaganda e divulgação de tais males, mas de uma mudança de mentalidade e comportamento. “Isto mostra que o problema da água é, em parte, uma questão educativa e cultural” (Ibidem, p. 27). A escassez da água pode provocar um aumento dos custos de alimentos, dentre outros produtos. E o controle de água por parte de grandes empresas pode se transformar em principais fontes de conflitos sociais.
            Como terceira problemática está a “perca de biodiversidade”. Com a exploração da terra, das florestas e faunas do mundo, com as formas imediatistas de consumo e produção comercial, os recursos naturais e a biodiversidade está sendo devastada e se acabando. “Anualmente desparecem milhares de espécies vegetais, animais, que já não podemos conhecer, que os nosso filhos não poderão ver, perdidas para sempre” (Ibidem, p. 28). A forma de lidar com a natureza e seus seres está extrapolando a lei natural. Independentemente do valor de consumo e exploração, os seres diversos e praticamente infinitos que estão na casa comum são portadores de uma dignidade em si mesma, pois provieram de Deus e assim como o ser humano possui uma função importante e fundamental neste mundo:
É verdade que o ser humano deve intervir quando um geossistema cai em estado crítico, mas hoje o nível de intervenção humana em uma realidade tão complexa como a natureza é tal, que a atividade humana torna-se onipresente, com todos os riscos que isto implica. (Ibidem, p. 29)
            Quarto ponto: “Deterioração da qualidade de vida humana e degradação social”. A busca desenfreada pelo lucro e desejo desmedido de consumir geram mais danos para a sociedade do que benefícios. É possível que nessa dinâmica de devastação ambiental a humanidade seja testemunhas silenciosas de gravíssimas desigualdades social, quando quem está na frente dessas intervenções queira obter benefícios significativos, fazendo o restante da humanidade parar os altíssimos custos da degradação ambiental. “Os ecossistemas das florestas tropicais possuem uma diversidade de enorme complexidade, [...], mas, quando estas florestas são queimadas ou derrubadas para desenvolver cultivos, em poucos anos perdem-se inúmeras espécies” (Ibidem, p. 32). Além das florestas, a flora silvestre, os oceanos, os rios, os lagos, manguezais, também sofrem com a devastação da ação humana:
Tudo isso nos ajuda a compreender como qualquer ação sobre a natureza pode ter consequências que não advertimos à primeira vista e como certas formas de exploração de recursos se obtêm à custa de uma degradação que acaba por chegar até o fundo dos oceanos. (Ibidem, p. 34)  
            Como foi dito no início dessa pontuação a degradação do ambiente planetário não está aquém da degradação humana, mas configura parte da mesma em uma dupla direção: da humanidade para a natureza e da natureza para humanidade. É neste segundo aspecto que não é possível “deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do descarte sobre a vida das pessoas” (Ibidem, p. 35). Com a devastação do sistema natural, as obras humanas se tornam mais imperantes e dominantes. Tai obras se tornam um caos para saúde humana, nos seus diversos âmbitos, por exemplo, com os problemas da poluição química, visual e acústica, com o tráfego louco do transporte, dentre outras coisas. Neste sentido é possível observar que:
Muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaço verde suficiente. Não é conveniente para os habitantes desse planeta viver cada vez mais encoberto de cimento, asfalto, vidro e metais, privado do contato físico com a natureza. (Ibidem, p. 35)
            Enquanto em algumas áreas se preservam um espaço arborizado ou de preservação ecológica, tais espaços se tornam disponível apenas para alguns, enquanto que nas áreas mais precárias e difíceis, nada é feito. Tai áreas são, na maioria das vezes, onde vivem os descartados da sociedade. A exclusão social, a desigualdade, a fragmentação social, o aumento da violência, e o aparecimento de novas formas de agressividade, o narcotráfico, o consumo de drogas e a perda da identidade pessoal são alguns sinais de que o crescimento econômico e tecnológico não significou um progresso integral, portanto, humanitário. O mundo virtual até certo ponto não está favorecendo a capacidade de viver com sabedoria e manter relações fraternas reais. O mundo virtual apesar de possibilitar a comunicação e compartilhamento de conhecimentos e afetos, até certo ponto impede o ser humano de ter um contato direto com o outro, com a vida, com suas angustias, alegrias e tristezas.
            O quinto ponto, “Desigualdade planetária”, envolve os dois polos da reflexão, a saber, a degradação do ambiente humano e do ambiente planetário. É nesse processo dinâmico destrutivo que grita a maioria da população planetária: os pobres. “Tanto a experiência comum da vida cotidiana como a investigação científica demonstram que os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres” (Ibidem, p. 38). Apesar de no meio político eles serem mencionados, muitas vezes eles parecem ser colocados como uma questão que se acrescenta ao debate e projeto político, e não como efeito de um sistema estrutural limitado, desigual e de exclusão.
Uma das causas desse descaso é a distância, dos que estão à frente do governo e gestão política, da realidade sócio-local dos pobres. Neste sentido o projetos e busca de melhorias para o povo acaba sendo refletido a partir da comodidade de uma qualidade de vida que não está nas condições da maioria da população mundial. Essa forma de abordagem e falta de consciência da realidade dos pobres favorece uma letargia da consciência e indiferença para outras realidades. Alguns tentam resolver o problema propondo uma redução da natalidade, porém tal medida não é compatível com as causas reais da desigualdade e pobreza: o consumismo exagerado e seletivo de alguns. Junto a essas ações que degradam a vida e o meio ambiente está as multinacionais que nos países subdesenvolvidos exploram todos os recursos e geralmente “quando cessam suas atividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local” (Ibidem, p. 42) e etc. Para diminuir essa disparidade e desigualdade entre ricos e pobres é preciso que os países ricos “contribuam para resolver esta dívida, limitando significativamente o consumo de energia não renovável e fornecendo recursos aos países mais necessitados para promover políticas e programas de desenvolvimento sustentável” (Ibidem, p. 43).
“A fraqueza das reações” é o sexto tópico. Diante das ações humanas que agridem e exploram a natureza e até seu gênero, o tempo exigem medidas mais fortes para combater o caminho pelo qual se direciona as nações. Assim afirma o Papa, “Nunca maltratamos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos [...]. O problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que apontem caminhos” (Ibidem, p. 44). Infelizmente o sistema político atual está fraco, porque submisso a duas forças de poder: a tecnologia e a economia. “Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipula a informação para não ver afetados os seus projetos” (Ibidem, p. 45). Diante dessas forças motivados e efetivas da degradação humana e ambiental, qualquer tentativa de organizações sociais para alterar as coisas será vista como ações de sonhadores românticos ou obstáculos para serem superados. Por isso, “hoje, ‘qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa perante os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta’” (Ibidem, p. 46)
Enfim, no último ponto “Diversidade de opiniões”, Francisco afirma que alguns defendem o mito do progresso social  e ecológico a partir da evolução tecnológica sem considera a situação atual em que a humanidade vive e sem observar a ética nesse percurso. No extremo o posto estar os que querem que não se intervenham mais no planeta e nem se promova mais sua a presença no mundo.  Contrários a tais pontos de vista Francisco considera buscar possíveis senários para o futuro:
Sobre muitas questões concretas, a Igreja não tem motivo para propor um palavra definitiva e entende que deve escutar e promover o debate honesto entre os cientistas, respeitando a diversidade de opiniões. Basta, porém, olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum. A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída [...]. (Ibidem, p. 49)

       h)     Sintomas e causas da degradação humano-ecológica.

Ao expor algumas questões sobre a realidade humana e ecológica na Contemporaneidade, suas problemáticas e situações gritantes que clamar para uma resolução, agora se faz necessária observar de modo mais amplo e categórico alguns sintomas e causas que proporcionam tais problemas na degradação humano-ecológica. Para isso se apresenta em questão o terceiro capítulo da Laudato Si’, a saber, a raiz humana da crise ecológica. É desse itinerário reflexivo que Francisco se detém sobre a questão do paradigma tecnocrático e o lugar que nele ocupa o ser humano e sua ação no mundo. Ora, não é possível deixa de valorizar que os últimos dois séculos são ricos de progresso em diversos âmbitos. É justo que a humanidade se alegre “com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes, porque ‘a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu” (Ibidem, p. 83-84). E tais progressos foram propícios para melhorar a qualidade de vida humana, porém não é possível negar que toda essa potencialidade concebeu ao humanidade um poder tremendo:

Ou melhor: dão, àqueles que detêm o conhecimento e, sobretudo, o poder econômico para desfrutá-lo, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está fazendo. (Ibidem, p. 85)

           Toda essa aquisição de poder tenta se justificada por maior segurança, potencialidade, utilidade, bem-estar e outras coisas, como se tal força tecnológica e econômica fosse a promotora do bem e da verdade humana. Neste sentido o desenvolvimento e potencialidade que há nas mãos da humanidade, e de modo mais concreto, nas mãos dos grandes poderes econômicos, sociais e políticos que se tem, precisam se submetido à uma ética sólida, uma cultura e espiritualidade que lhes der limite e um lúcido domínio sobre si. A raiz histórica de tais problemas é que o “crescimento [tecnológico] não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência” (Ibidem, p. 86). Junto disso está a falta de limite do ser humano em utilizar-se de suas potencialidades. Essa ausência de senso ético chegou na sua concretude quando se deixou de respeitar a natureza e de fazê-la frutificar na sua dinâmica própria potencial, isto é: quando se deixou de receber nas mãos o que a realidade natural oferecia. Neste sentido, o problema contemporâneo se apresenta no novo modo de ver e usufruir da natureza:

Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tente a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixam de se dar amigavelmente, tornando-se controversas. Daqui se passa facilmente à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que entusiasmou os economistas, os teóricos da economia e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, o que leva a “espremê-lo” até ao limite e para além do mesmo. (Ibidem, p. 87-88)

            O desenvolvimento tecnológico se tornou mais do que um instrumento de bem viver social. Ele se tornou um objeto de poder e condicionamento cultural em massa, alterando e condicionando o modo de pensar e viver da sociedade. Tal paradigma tecnicista é utilizado como linha de determinados grupos de poder que, no sistema econômico e técnico determinante, pretende manter o status quo. Essa força de poder que se impõe sobre a vida social também se impõe sobre a natureza e é contrária a qualquer cultura e estilo de vida que não queira se submeter ou se tornar dependente dela:

Com efeito, a técnica tem a tendência de fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea, e “o homem que é o seu protagonista sabe que, em última análise, não se trata de utilidade nem de bem-estar, mas de domínio; domínio no sentido extremo da palavra”. Por isso, “procura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da existência humana”. Reduzem-se assim a capacidade de decisão, a liberdade mais genuína e o espaço para a criatividade alternativa dos indivíduos. (Ibidem, p. 89)

            É diante do paradigma tecnocrático e em vista de tal perspectiva que a economia e a política, atualmente, está se regendo. Essa submissão e preocupação produtiva se realiza em função do lucro. Por esse motivo o mercado de finanças continuam a todo vapor, sem medir as consequências catastróficas que a técnica produz para o estilo de vida social contemporâneo. É nessa dinâmica que a política e a economia investem em especializações técnicas, porém tais ações e investimentos comportam uma redução na forma de ver e responder a realidade no seu conjunto. “A fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado” (Ibidem, p. 91). Isso impede de se resolver problemas mais complexos e que exigem uma visão mais ampla sobre a realidade.  Não se pretende dizer que a técnica em si é um mal para humanidade, mas que sua forma de atuação na Contemporaneidade precisa estar direcionada para outros caminhos que não sejam a degradação do meio ambiente e da vida humana, em especial, os mais pobres. Por isso deveria se ter socialmente “um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” (Ibidem, p. 92):

O que está acontecendo põe-nos perante a urgência de avançar em uma corajosa revolução cultural. A ciência e a tecnologia não são neutras, mas podem, desde o início até ao fim de um processo, envolver diferentes intenções e possibilidades que se podem configurar de várias maneiras. Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade de outra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalômano. (Ibidem, p. 95)

            Ora, a crise que se tem contemporaneamente no mundo natural e no universo da cultura atual, devido ao paradigma tecnocrático e o influxo do sistema económico e mercadológica, denuncia suas raízes mais profundas. A crise ecológica e do estilo normativo de vida tem suas raízes no ser humano. Daí fundamentalmente é importante falar de uma crise antropológica contemporânea com suas consequências globais. “O antropocentrismo moderno acabou, paradoxalmente, por colocar a razão técnica acima da realidade, porque este ser humano ‘já não sente a natureza como norma válida nem como um refúgio vivente” (Ibidem, p. 95). É nesse percurso que a humanidade está se desviando de seu original e próprio lugar na terra e do valor originário da terra, da natureza, do meio ambiente. Tal consciência requer um respeito pela estrutura natural e moral com que a humanidade foi criada e pelo seu meio, pois tudo isso foi obra de Deus.  Neste sentido de desvio ético, moral, social e, por conseguinte, ecológico é que está instaurado a crise antropológica atual:

A falta de preocupação por medir os danos à natureza e o impacto ambiental das decisões é apenas o reflexo evidente do desinteresse em reconhecer [a si, como parte responsável da realidade e] a mensagem que a natureza traz inscrita nas suas próprias estruturas. Quando, na própria realidade, não se reconhece a importância de um pobre, de um embrião humano, de uma pessoa com deficiência- só para dar alguns exemplos-, dificilmente se saberá escutar os gritos da própria natureza. (Ibidem, p. 96)  

        Daí ser fundamental uma nova relação com a natureza que respeite sua dinâmica própria de modo interrelacional, autentico e dignificante. Todavia uma mudança de ação com a natureza não está dissociada de uma nova relação humana. “Se a crise ecológica é uma expressão ou manifestação externa da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, não [se]pode[...] iludir[...] de sanar a [...] relação com a natureza e o meio ambiente, sem curar todas as relações humanas fundamentais” (Ibidem, p. 98). Em decorrência da crise ecológica, cultural e antropológica Francisco faz três pontuações que se relacionam com a questão exposta.

A primeira se reporta ao relativismo prático. Este se caracteriza como mais perigoso do que o assentamento fundamentalista doutrinal. Porque nesse relativismo o que se torna relevante para os indivíduos é somente tudo aquilo que serve aos interesses particulares e imediatos. Sendo que o que não entra nessa lógica é descartado.  É nessa perspectiva que se desenvolve uma cultura que impele uma pessoa a aproveitar-se da outra e trata-la como mero objeto e não como sujeito digno de diálogo e relação construtiva. É nessa lógica que se patenteia todos os tipos de exploração, como a degradação ambiental, o tráfico de drogas e pessoas, a criminalização organizada e outros tipos exploração e exclusão social, “porque, quando é a cultura que se corrompe deixando de reconhecer qualquer verdade objetiva ou quaisquer princípios universais válidos, as leis só se poderão entender como imposições arbitrárias e obstáculos a evitar” (Ibidem, p. 101). 

A segunda pontuação coloca como processo de integração entre ecologia e a inclusão social, o trabalho. Mas não se trata de uma concepção tradicional e reduzida de trabalho como atividade profissional. Não se fala “apenas do trabalho manual ou do trabalho da terra, mas de qualquer atividade que implique alguma transformação do existente, desde a elaboração de um balanço social até ao projeto de um processo tecnológico” (Ibidem, p. 102). O homem “é o centro e o fim de toda a vida econômico-social. Apesar disso, quando no ser humano se deteriora a capacidade de contemplar e respeitar, criam-se as condições para se desfigurar o sentido do trabalho” (Ibidem, p. 103). A evolução tecnológica não deveria suprimir o trabalho humano, mas auxiliá-lo. O trabalho é uma necessidade para o sentido da vida nessa terra e para maturação humana. E neste sentido até o auxílio em dinheiro para os pobres deveria ser algo provisório, enquanto eles não tivessem condições de trabalho. Enfim, o desenvolvimento tecnológico acabou estimulando a redução de trabalhadores e o desempregos humano. Essa pratica é perniciosa para o ser humano. Neste sentido o trabalho para todos e a integração ao mercado deve ser um direito de todos e não privilégios de alguns.

Por fim, Francisco trata da inovação biológica a partir da pesquisa. É sabido que o homem pode se servir do mundo vegeta e animal para sua vida, porém essa possibilidade de intervenção não pode extrapolar seus limites e desrespeitar as potencialidades criativas da natureza na sua lógica determinante. Ora, “toda e qualquer intervenção em uma área determinada do ecossistema não pode prescindir da consideração das suas consequências noutras áreas” (Ibidem, p. 107). Não se pode haver uma negação da contribuição que as variadas disciplinas e pesquisas biológicas têm para humanidade, porém tais pesquisas e práticas não podem ter uma indiscriminada manipulação da biodiversidade que existe no planeta. Em suma, qualquer atividade técnica e de pesquisa biológica precisa ter um fundamento ético para não gerar problemas para o desenvolvimento e dignidade integral humana e dos demais seres.

        i)        Linhas proféticas de ação.

Depois de explanar algumas questões referente a Contemporaneidade na sua problemática humano-sócio-global, Francisco apresenta algumas linhas de ação que podem proporcionar um caminho renovado e esperançoso no profetismo para a futuro humano da casa comum, o planeta. Para isso ele destaca como norte de esperança: o diálogo. Este se ramifica em cinco modalidades a saber, 1) o diálogo sobre o meio ambiente na política internacional; 2) o diálogo para novas políticas nacionais e locais; 3) diálogo e transparência nos processos decisórios; 4) política e economia em diálogo para a plenitude humana; e 5) as religiões no diálogo com as ciências.

            Na primeira modalidade é vista a questão de se ter uma visão de mundo mais global, concebendo “o planeta como pátria e a humanidade como povo que habita uma casa comum” (Ibidem, p. 133). Tal visão tem um pretensão prática-social de pensar em reconstruir um único mundo, um projeto comum, que beneficie a todos e não somente aos países desenvolvidos. Neste sentido:

[...] torna-se indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver uma forma de energia renováveis e pouco poluidoras, fomentar uma maior eficiência energética, promover uma gestão mais adequada dos recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso à água potável. (Ibidem, p. 134)

            Tais medidas se fazem urgentes, pois o sistema tecnológico, baseado nos combustíveis fosseis altamente poluentes está gerando uma deterioração do meio ambiente e da vida dos diversos seres que existem no mundo, dentre estes, o ser humano. Tal modelo técnico-energético-químico precisa ser substituído por outras fontes de energias renováveis. Isso acarretaria prejuízos para os países que se utilizam fortemente desses recursos de produção sócio-cultural-técnica, porém esse é o caminho que tais países devem se submeter para salvação da casa comum. Ademais eles devem ser os principais motivadores de tais mudanças, pois são os principais responsáveis pelos presentes danos em nível global. Daí é preciso realizar mudanças significativos para o bem desta geração:

Neste sentido, pode-se dizer que, enquanto a humanidade do período pós-industrial talvez fique recordada como uma das mais irresponsáveis da história, espera-se que a humanidade dos inícios do século XXI possa ser lembrada por ter assumido com generosidade as suas graves responsabilidades. (Ibidem, p. 135)

            É claro que já se tem feito esforços nesse sentido com os movimentos ecológicos e as organizações sociais civis. “Dentre elas, há que recordar a Cúpula da Terra, celebrada em 1992, no Rio de Janeiro” (Ibidem, p. 135), onde se proclamou a preocupação centrada no ser humano, no processo de desenvolvimento sustentável. Teve-se também a “Convenção de Basileia sobre os resíduos perigosos, com um sistema de notificação, níveis estipulados e controles, e também a Convenção vinculante sobre o comércio internacional das espécies da fauna e da flora selvagem” (Ibidem, p. 136), dentre outras, porém tais ações não são suficientes para sanar o problema atual. É preciso medidas que efetive o cuidado com a casa comum, diminua as intervenções drásticas no planeta e se solidarize com os países mais afetados:

Para os países pobres, as prioridades devem ser a erradicação da miséria e o desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o nível escandaloso de consumo de alguns setores privilegiados da população e contrastar melhor a corrupção. Sem dúvida, devem também desenvolver formas menos poluentes de produção de energia, mas para isso precisam contar com a ajuda dos países que cresceram muito à custa da atual poluição do planeta. (Ibidem, p. 139)

            Se na primeira modalidade se observa uma questão global, isto é, entre países, nesta segunda a reflexão entra no âmbito nacional e local. Neste âmbito o Estado tem a função e responsabilidade de planificar, coordenar, vigiar e sancionar dentro do seu território. Diante do paradigma tecnológico, o “fator que atua como moderador efetivo é o direito, que estabelece as regras para as condutas permitidas à luz do bem comum.” (Ibidem, p. 143). Todavia, não se pode negar que em muitos países, as medidas de desenvolvimento humano saudáveis e integral não são realizadas como deveriam, pois “O poder político tem muita dificuldade em assumir este dever em um projeto de nação” (Ibidem, p. 143). Porém:

Dado que o direito por vezes se mostra insuficiente devido à corrupção, requer-se uma decisão política sob pressão da população. A sociedade, através de organismos não governamentais e associações intermédias, deve forçar os governos a desenvolver normativas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os cidadãos não controlam o poder político- nacional, regional e municipal-, também não é possível combater os danos ambientais. (Ibidem, p. 144)

         Porém, tais mudanças na gestão política de um país, em prol do desenvolvimento humanitário e social, não podem ser de cunho imediatista e a curto prazo, isto é, conforme o período de governo de determinados líderes. É preciso tomar em questão o processo de mudanças que deve ser continuado sobre o olhar da população. Neste sentido o aparato tecnológico nos diversos ramos de atividade humana precisam estar a serviço de uma qualidade de vida do ser humano e do meio ambiente de modo integral e sustentável.

         A terceira modalidade apresenta a necessidade de um diálogo e transparência nos processos decisórios. O estudo sobre o impacto dos projeto sobre a vida civil não deveria ser inferior à elaboração dos projetos de interesse produtivo, plano ou programa.  Tais projetos deveriam estar distante de qualquer pressão económica e política. Eles deveriam “aparecer unido à análise das condições de trabalho e dos possíveis efeitos na saúde física e mental das pessoas, na economia local, na segurança. Assim os resultados econômicos poder-se-[ia][...] prever de forma mais realista” (Ibidem, p. 147). Os debates sobre tais projetos devem ter a participação de todos, e devem “ter lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (Ibidem, p. 148). Neste sentido algumas questões seriam necessárias para tal avaliação dos projetos:

Em qualquer discursão sobre empreendimento, deve-se-ia pôr uma série de perguntas, para poder discernir se o mesmo levará a um desenvolvimento verdadeiramente integral: Para que fim? Por qual motivo? Onde? Quando? De que maneira? A quem ajuda? Quais são os riscos? A que preço? Quem paga as despesas e como fará? (Ibidem, p. 149)

           A quarta modalidade implica na não submissão da política à economia e desta ao paradigma tecnocrático. Mas pelo contrário, essas três formas de poder deveriam estar a serviço do bem comum e da vida, em especial, da vida humana. Deste modo os bancos que estão a serviço do dinheiro deveriam passar por mudanças na sua estrutura e modo de serviço. O mercado que extrapola o valor de lucro sobre o produto e explora os bens naturais geram um desequilíbrio social em prol da econômica. Mas invés de equilibrar e distribuir equitativamente a economia ele a torna mais desigual e danifica muitas econômicas regionais:

Em suma, o que não se enfrenta com energia é o problema da economia real, aquela que torna possível, por exemplo, que se diversifique e melhore a produção, que as empresas funcionem adequadamente, que as pequenas e médias empresas se desenvolvam e criem postos de trabalho. (Ibidem, p. 152)

              O lucro não deve ser a máquina propulsora dos investimentos, mas o bem comum, a dignidade humana, a vida social e cultural de um povo, por isso é que se precisa diminuir o passo do motor consumista e produtivista tecnocrático-capitalista e criar um novo modelo de desenvolvimento. Para que se tenha novos modelos de progresso, é preciso “‘converter o modelo de desenvolvimento global’, e isto implica refletir responsavelmente ‘sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações’” (Ibidem, p. 155). No senário atual se precisa “de uma política que pense com visão ampla e leve em frente uma reformulação integral, abrangendo em um diálogo interdisciplinar os vários aspectos da crise” (Ibidem, p. 157).  Ela não deve se submeter as empresas de grande poder aquisitivo e nem ao sistema econômico, mas encontrar caminhos de subsidiariedade local, regional e do país.
  
Por fim, a última modalidade apresenta a necessidade de diálogo entre as religiões e as ciências. Se na contemporaneidade as ciências atingiram níveis elevados de aperfeiçoamento técnico e caminhos novos de conhecimento prático, isso não fez elas explicarem completamente a vida, a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. É deste modo que as religiões assumem seu valor e importância ainda hoje, porque elas tem sua força histórica e espiritual que podem oferecer significativo caminho para as pessoas na Contemporaneidade.

Seria ingenuidade acreditar que os princípios éticos pelos quais se deve reger a sociedade são puramente abstratos, isto é, não provem de uma contexto religioso e de uma linguagem religiosa. Do mesmo modo, tais princípios se perpetuam inovadamente, ainda hoje, por diversas linguagem, dentre as quais ganha sua importância, a religiosa. Pois tais princípios tonam possível a convivência social.  E nesse sentido Francisco faz “apelo aos crentes, para que sejam coerentes com sua própria fé e não a contradigam com suas ações; será necessário insistir para que se abra novamente a graça de Deus e se nutram profundamente das próprias convicções sobre o amor, a justiça e a paz” (Ibidem, p. 160). Em suma ele cita:

A maior parte dos habitantes do planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões o estabelecer diálogo entre si, visando ao cuidado da natureza, à defesa dos pobres, à construção de uma rede de respeito e de fraternidade. De igual modo é indispensável um diálogo entre as próprias ciências [...]. (Ibidem, p. 161)

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