quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Vida Religiosa: meditações, reflexões e luzes evangélicas para a Contemporaneidade.



Nos sinais dos tempos atuais, a Vida Religiosa continua sendo um dos mais particulares, radicais e proféticos modos de vida na Igreja e sociedade. Sua singularidade e importância não está somente por se diferenciar tanto da vida laical como da clerical (CONCÍLIO VATICANO II, 2007, p. 228 ), mas por comungar e dialogar com estes dois modos de vida e manifestar, de modo especial e na sua radicalidade de seguimento, a expressão atualizada e renovada do Rosto de Cristo para os nossos tempos. E para contribuir, aprofundar e degustar sobre a experiência misericordiosa e rica de esperança no itinerário da Vida Religiosa, faz-se oitos considerações, a partir do Evangelho de Lucas (5, 1-11), que podem iluminar-nos e inspirar-nos- Religiosos(as) Consagrados(as)- a contemplar nosso percurso de vida com gratidão, alegria, esperança e entusiasmo evangélico. Também observamos algumas ideias e interrogações que nos ajudarão a aprofundar e vivenciar a riqueza de ser religioso na contemporaneidade carente de misericórdia.

1)   A realidade do chamado à Vida Religiosa.

“Certa vez em que a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus, à margem do lago de Genesaré, viu dois pequenos barcos à margem do lago os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes.”

Se o Concílio Vaticano II nos convidou a retomar as origens do carisma congregacional ou institucional (CONCILIO VATICANO II, 2007, p. 302), essa origem precisa também fazer eco na nossa história particular, nas nossas bases histórico-existenciais. Essa conexão entre vida pessoal e experiência congregacional é necessária para percebermos que há uma continuidade, conversão e renovação na nossa trajetória de vida. Isso nos é importante para relembrarmos com alegria o fator motivador e decisivo do nosso modo de viver atual: o chamado de Deus. Não foi vós que me escolhestes, mais fui eu que te escolhi disse Jesus (Jo.15,16). Esse chamado não é outra coisa do que a expressão de quem nos conhecer profundamente e nos ama verdadeiramente. Podemos observar que há mais de 2000 anos Deus continua chamando pessoas para segui-Lo, como fez conosco e isso não é por mérito nosso, mas pela sua misericórdia que é eterna (Sl 136).  
O chamado de Deus, na nossa vida, não aconteceu no deserto ou na solidão da vida, mas numa experiência concreta, em um local concreto: em uma comunidade que caminhava com Cristo. A nossa experiência de fé parte de um contexto em que existiam um povo: “a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus”. Isso é tão certo que o chamado de Deus, a nós, não é intermediado só por uma pessoa, mas por várias que aos poucos vão lançado a semente da sua misericórdia no nosso coração e nos sinalizando a vontade de Deus. E isso aconteceu porque nos abrimos para essa experiência. Cabe agora duas interrogações: temos guardado no nosso coração, bem vivo internamente, a experiência do chamado de Jesus na nossa vida? Atualizamos concretamente, todo dia, esse chamado e resposta a Deus? Santo Afonso Maria de Ligório costumava rezar no seu interior todo santo dia: começo hoje! (SÉGALEN, 1996, p.25). Essa é a primeira luz que não pode sair do nosso coração.
Se foi em um local, contexto e realidade específica que fomos chamados, e nos encantamos com tal experiência, isso não aconteceu por acaso, mas porque o barco da nossa vida estava dando uma estacionada, desembarcando para lavarmos as redes da vida que até então estava sem sentido profundo, sem caminho seguro, ou a espera de algo maior. Daí, como o chamado não é nosso, mas de Deus e também de seu Filho Jesus, foi este que “viu dois pequenos barcos à margem do lago”. Foi Jesus que nos viu. Portanto, podemos perceber novamente a ação primária e misericordiosa de Deus, que nos viu, nos amou por primeiro e foi ao nosso encontro de diversas formas e por diversas pessoas, como ele mesmo fez com seus discípulos. Outra questão se faz importante na Vida Religiosa: estamos deixando-nos ver (totalmente) e se encontrar por Jesus?

2)   A centralidade do Cristo e o distanciamento necessário da dinâmicas do mundo, na Vida Religiosa.

“Subindo num dos barcos, o de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra”

Se temos a certeza de fé, rezada e vivenciada, isso implica uma pergunta de fundo que fizeram todos os profetas e apóstolos: o Senhor nos chamou para que? A resposta de Deus é tão simples e tão difícil que podemos nos surpreender. Eles nos chamou para sermos Um com Ele, como Ele e o Pai são Um (Jo.17,22). E esse é o passo fundamental de toda a Vida Religiosa. Não há misericórdia maior do que estar unido com Cristo, com quem nos ama por primeiro e acima de tudo. Outros dois questionamentos se fazem necessários para nós: Estamos desejando, buscando, e tentando concretizar, nos nossos projetos e ações, ser Um, radicalmente, com Cristo? Os nossos trabalhos, pastorais, missão, instrumentos de evangelização, estão nos mantendo unidos a Ele?
Essa experiência é tão importante, que todo o nosso caminho histórico-humano-espiritual depende dessa união com Ele, pois Ele mesmo nos disse: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo.15, 4). Nesse sentido precisamos orientar o barco da nossa vida, pois assim como Jesus subiu “num dos barcos, o de Simeão”, Ele quer fazer a mesma coisa com o nosso barco. Na verdade essa é a coisa que Deus mais quer. Todo o intento de Deus - deste o tempo dos primeiros povos na literatura-espiritual-poética adâmica até ressurreição do seu Filho, seguindo até hoje (com a mediação, aparições e intercessão de Nossa Senhora; a vida, persistência e testemunho dos Santos, Mártires, Beatos e Servos de Deus) - é para manter a comunhão conosco, porque nos ama.
Não foi por outra coisa que nós entramos na Vida Religiosa, se não por uma abertura à vontade de Deus. Para tanto, é preciso termos como opção fundamental o Cristo. Se na Vida Religiosa nós estamos com crise de identidade, isso é pela descentralização que fazemos da pessoas humana e divina de Jesus na nossa vida. Pela fraqueza humana e falta de fé, pelo fechamento à obra de Deus. Portanto é importante outra duas questões: Jesus Cristo está sendo a motivação fundamental, central e primeira na nossa vida, na nossa ação evangélica, nos nossos estudos e trabalhos? As outras motivações, as secundárias e assim por diante, estão sendo vivenciadas e realizadas para completar a motivação primeira e fundamental?  Quando deixamos outras coisas tomarem o lugar de Cristo então, aos poucos vamos nos separando, desligando e se afastando da identidade, vida e missão religiosa.
Para tal fim o próprio Jesus orienta a pessoa que Ele ama, pois ele mesmo, “pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra”, isto é, que mantivesse uma distância razoável do jeito de pensar e viver dos demais modos de vida, e principalmente, dos que não caminham com Cristo. É importante destacarmos que os primeiros homens e mulheres (Monges, virgens,..) que se inspiraram para a criação da Vida Religiosa, levaram esse afastamento ao pé da letra e foram para o deserto. Apesar de tal radicalidade ter surtido efeitos positivos, porém, não foi um corte da realidade que Nosso Senhor nos pediu, não foi um virar as costas para a nossa realidade histórica, para o mundo, como se este não existisse ou fosse algo de condenável, como a tradição medieval pensou. Na verdade o que Jesus pediu, ou melhor dizendo, nos pede é um afastamento razoável, para adentrarmos no seu mistério e provarmos de sua misericórdia. É um abandonar a mentalidade do mundo humano egocêntrico, autossuficiente, independente, não solidário, não generoso, injusto e fechado ao cuidado com o gênero humano e todos os seres que compõe o nosso sistema planetário, para deixar-se guiar pela mentalidade de Jesus, pela inspiração concedida por Deus na pessoa de Jesus.
A entrada nas casas religiosas e o processo de formação é para termos esse afastamento a fim de que Ele nos fale, nos ensine e nos oriente ao que fazer na caminhada. Não se trata somente de um afastamento espacial-geográfico, pois podemos deixar os locais onde estávamos (muitas vezes incompatíveis com a opção de vida religiosa), sem deixar dentro de nós o modo antigo, ou as outras formas de vida que não nos ajudar a se encontrar e se identificar com Cristo radicalmente. Portanto, esse distanciamento interior e até certo ponto espacial é o que Cristo nos pede. O distanciamento de modos de vida que não promovem a felicidade humana, mas destrói a cada dia o nosso semelhante e explora initerruptamente as criaturas do nosso meio planetário. Então uma pergunta se faz presente: estamos nos distanciando de modos de pensar e viver que não competem a nós enquanto religiosos (as)? Olhemos a nossa consciência, pois, segundo falou Santo Afonso: ela é o sacrário de Deus, onde podemos encontrar a VERDADE MAIS PROFUNDA E ILUMINADA DO CORAÇÃO HUMANO.  É importante destacar que quando mais assumimos a nossa vocação religiosa, mais nos tornamos humanos, mais nos aprofundamos na experiência do amor agápico: amor incondicional, amor que busca e luta pela vida, dignidade e felicidade do outro.

3)   Uma escuta atenta e comunhão com Deus na Vida Religiosa.

           “depois, sentando-se ensinava do barco às multidões”

Se a experiência com Jesus nos leva há uma abertura para o seu chamado, ela exige de nós um afastamento razoável do estilo de vida e mentalidade do mundo. Isso significa que precisamos partir de outro ponto de vista que não seja o do ter, do prazer e do poder egoísta. Pois tais mentalidades são estimuladas, promovidas e disseminadas na cultural e na conjuntura contemporânea.
Podemos observar, então, que o chamado divino cristocêntrico é para nos envolver mais profundamente, mais de perto e realizar a comunhão com Jesus. E se não tentarmos nos esvaziar das coisas que nos afastam de Deus, ficará difícil fazer comunhão com Ele. Esse esvaziamento exemplificado pelo próprio Cristo (Fl 2,7) é fundamental para ouvir a vós de Deus, como fez o profeta Samuel (Sm 3,10). Assim como Jesus “ensinava do barco às multidões”, do mesmo modo Ele quer nos ensinar a Vontade do Pai misericordioso, para bem vivermos enquanto religiosos (as).
A Palavra de Deus, Além da Eucaristia, torna-se, então, um dos principais veículos de comunicação com o Pai e com o seu projeto misericordioso. Enquanto humanos imersos no amor, mentalidade e práxis profunda de Deus. Porém, não se trata de um ato de leitura somente, mas de interiorização. É um esforço continuo para guardar a Palavra de Deus no coração. Dois são os meios mais comuns para isso: a meditação e contemplação. Para realizarmos tal intento, é preciso condições favoráveis. No nosso itinerário religioso podemos nos questionar: estamos rezando a Palavra de Deus? Estamos criando condições para nos encontrar com Jesus? Estamos nos abrindo para acolher Deus que age na nossa vida nas luzes e trevas que vivenciamos? Essa experiência com Jesus é mais do que um formalismo. É um encontro com alguém que nos conhece e nos ama mais do que tudo. Portanto, deve estar preenchida pelo afeto e amor verdadeiro e sincero. Santo Afonso exemplifica que o encontro com Deus é semelhante há um encontro com alguém que deixou um Reino, um país, só para estar e falar conosco, e que anseia nos ver dia e noite (LIGÓRIO, 2014, p.84-85). Portanto, trata-se de uma intimidade profunda. Muitos religiosos caem na vida e se extraviam como ovelhas perdidas, porque perderam essa noção profunda de intimidade com a Palavra de Deus e com sua Pessoa misericordiosa, na oração e no cotidiano. Há também outros meios para fazermos comunhão com Deus. Porém depende de nossa persistência e abertura constante para não perdermos essa unidade e comunhão.

4)   Desprendimento de si: uma abertura para a profundidade do seguimento de Deus na Vida Religiosa.

“Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Faze-te ao largo; lançai vossas redes para pescar’. Simão respondeu: ‘Mestre, trabalhamos a noite inteiro sem nada apanhar; mas, porque mandas lançareis as redes’”.

Ter Jesus no barco da nossa vida e escutar a sua voz, que toca a nossa mente e o coração, requer que deixemos de lado uma tentação que acontece quando estamos progredindo, dando os primeiros passos no seguimento de Cristo, ou até quando nos tornamos propriamente religiosos (as): é a tentação de querer guiar a vida por si próprio, ou simplesmente, querer ter Jesus conosco, porém, como passageiro, ou objeto dos nossos interesses. Quando isso acontece fazemos muito, nos esforçamos e nos preocupamos cansativamente, porém, não encontramos tanto resultados. Esse é um risco que muitos religiosos correm, pois muitos vezes achamos que estamos sempre certos, e chegamos até a cair no erro de se achar portadores da salvação, ou, radicalmente, chegamos até a se tornar monopolizadores da Verdade.
Essa experiência pode acontecer desde a formação introdutória para a Vida Religiosa, pois normalmente se entra no seminário, com algumas ideias já mais ou menos formadas de como será o seguimento, porém, no caminhar da carruagem Deus vai exigindo mais de nós e nos mostrando o caminho que devemos percorrer. Ele nos diz: “‘Faze-te ao largo”, ou seja, avance por aquele lado. Assim Ele continua: “lançai vossas redes para pescar”, ou seja, segui por esse caminho, superai esse obstáculo, desprendei disso ou daquilo para continuar navegando. Então quanto mais nos fechamos e resistimos com nossas opiniões já prontas e acabadas, com nossa visão pequena e as vezes mesquinha de seguimento, mais sentimos dificuldade e sofremos para seguir. É como Pedro disse: “Mestre, trabalhamos a noite inteiro sem nada apanhar”.
Ora, enquanto religiosos precisamos nos abrir por alguns caminhos inusitados e que muitas vezes depende mais da confiança em Deus, do que da nossa própria segurança. Muitas vezes a comunidade religiosa passa por transformações e o Espírito diz é por aqui, porém, quando alguns membros emperram a caminhada, então, a caminhada religiosa entra em crise. Na verdade toda a crise é fruto da falta de comunhão com o espírito de Deus, quando boa parcela dos seus membros estão perdendo a direção do Espírito ou estão resistindo a tal ação divina, porque estão apegados há alguma coisa, ideia, ou pessoa, que não liberta-os para o movimento do Espírito.
Nessas circunstâncias é preciso muita oração, discernimento, e abertura para o bem comum. E isso se dá tanto no âmbito pessoal como no âmbito comunitário, pois o Espírito é um só, e Ele se manifesta em todos como no pentecoste (At.2,1-11). Nesse sentido é preciso obedecer as investidas do Espírito, aniquilar o egocentrismo que gira em nós e dizermos como Pedro: “mas, porque mandas lançareis as redes’”, ou melhor dizendo, “em atenção a tua Palavra lançarei as redes”. Então podemos refletir: que coisas em nós estão dificultando a identidade e ação da Vida Religiosa no seguimento de Cristo? Diante das exigências do Espírito, que se apresenta na vida e no trabalho seja religioso, seja apostólico: onde estamos tendo mais dificuldade, ou o que nos prende, não nos deixa seguir, na opção de Vida que respondemos? É preciso uma confiança em Deus e muita coragem para manter a nossa comunhão com Jesus, pois cada dia, Ele nos surpreende com um novo caminho ou uma nova exigência.  

5)   A exigência do Reino na Vida Religiosa para além do individualismo e personalismo.

“Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam. Fizeram então sinais aos sócios do outro barco para virem em seu auxílio. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem”


            É possível percebermos que no itinerário da Vida Religiosa temos dificuldades e desafios, porém também temos muitos ganhos, crescimento e amadurecimento espiritual-humano. Mas boa parte depende da forma como nos doamos para realizar a vontade de Deus. Se fizemos isso conforme as exigências do Espírito, pois os discípulos “Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam”, isto é, a abertura e obediência para as moções do Espírito foram tão profundas e confiantes, que os frutos de tal seguimento foram maiores do que eles esperavam. Assim também pode acontecer conosco, quando estamos disponíveis, confiamos e seguimos.
Mas tal ação do Espírito exige que nós superemos as inclinações ao egoísmo em nós, aquilo que a contemporaneidade chama de Individualismo. E a resposta para tais entraves é iluminada pela Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco em que ele afirma: “[...] hoje somos todos chamados a esta ‘saída’ missionária. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar essa chamada: sair da própria comodidade [...]” (FRANCISCO, 2013, p. 20). Só acontece o frutífero sinal de Cristo se sairmos de nós mesmo e entramos numa outra dinâmicas: a dinâmica da comunidade que se deixa iluminar por Deus, a dinâmica do Reino. Possuir uma personalidade própria não é negar o Evangelho, porém é preciso superar o nosso caminhar pessoal, pois, quando dizemos “sim” para Deus, não se trata somente de um “sim” pessoal, mas que engloba um projeto que vai além de nossas forças. Por isso, que os apóstolos “Fizeram então sinais aos sócios do outro barco para virem em seu auxílio. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem”. Portanto, o projeto do Reino na Vida Religiosa é comunitário, e vai além do que pensamos ou queremos decidir com a comunidade. Podemos então nos perguntar: estamos identificando o projeto da nossa comunidade de fé como algo também nosso? Estamos contribuindo para tal projeto? Estamos nos abrindo para as novidades que nos aparecem?

6) O reconhecimento das limitações, fragilidade e dependência humana na Vida Religiosa, na comunhão com Deus.

“À vista disso Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: ‘Afasta-te de mim, Senhor que sou pecador!’”


A experiência com Cristo deve nos levar a uma consciência de nós mesmos, de nossas limitações, pecados e fragilidades. Isso é reflexo dessa amizade que nos revela a verdade que é Deus e nossa total dependência Dele para concretude do Projeto.
A maturidade de que precisamos Dele para efetivação do projeto é a prova de verdadeira humildade. Para tanto essa maturidade também se realiza na comunidade onde cada membro se ver como ligados, feitos comunhão, entre si. Assim quanto mais reconhecemos essa verdade de nossa fragilidade e pecado diante de Deus, mais Deus se derrama de amor por nós e nos acolhe na sua misericórdia como aconteceu com o Filho pródigo (Lc.15, 11-32). Por isso São Paulo nos afirma que quanto mais fracos, ai é que somos fortes (2Cor.12, 9-10).
Reconhecer a fragilidade e olhar com misericórdia diante da fragilidade do irmão é o passo inicial para agirmos maduramente e a partir da nossa condição humana: dependentes da Graça de Deus, deixando Deus agir, confiando em Deus que conduz o nosso barco e o barco dos outros, mesmo que tais barcos estejam um pouco quebrados, desorganizados ou sujos. Ai está a beleza da vida religiosa: não buscamos a Deus pelo que de ruim existe em nós e nos outros, não buscamos a Deus porque somos mais ou melhores que os outros. Não buscamos a Deus porque só nós fazemos diferente ou somos melhores que os outros. Isso tudo é vão pensamento e modo de viver de acordo com o mundo.
Escolhemos essa vida porque cada dia mais reconhecemos que é Deus que nos quis, é Deus que nos chamou, é Deus que nos faz amadurecer e ser melhor, é Deus que age em todos (mesmo que estes criem resistências a Graça), é Deus que usa até do mais miserável de todos os homens para mostrar o seu grande poder, a sua bondade infinita. Mas isso só acontece no momento de Deus e não no nosso.   

7) A experiência do temor de Deus na Vida Religiosa.

“O espanto, com efeito, se apoderara dele e de todos os que estavam em sua companhia, por causas da pesca que haviam acabado de fazer; e também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão”


            O temor é outro elemento que pode aparecer no itinerário da Vida Religiosa, desde a entrada nas casas de formação. Maria e muitos outros Santos passaram pela mesma experiência. Até certo ponto o temos é construtivo na Vida Religiosa, desde que ele nos motive para justamente avançar para águas mais profundas e depositar a confiança em Deus. Isso implica uma questão de fé, de dar crédito a Deus. O temor pode também seguir uma orientação de respeito com o Sagrado e com a exigência da caminhada religiosa.
Daí poderíamos nos perguntar: a experiência de nossa fé está entrelaçada pelo temor a Deus, como confiança Nele e no temor como impulso para caminhar no seguimento de Cristo? O grande risco dos radicais é crer que tudo é ruim ou que tudo é bom. Mas a coisa mais difícil na discernir o que de fato é ruim e o que de fato é bom.  E perceber que o que era ruim antigamente hoje pode ser bom assim como o que era bom antes hoje pode ser prejudicial a nossa vida cristã.
A lógica ética é que o bem deve ser praticado e o mal evitado. Porém, essa não necessariamente é a lógica de Deus. É só olhar as palavras difíceis de serem entendidas por Jesus: é preciso morrer para nascer de novo; do pobre é o Reino do Céu; aquele que não perder a vida por mim, não entrará no Reino; eu vim para os doentes e pecadores. Se olharmos o modo como Deus salvou a humanidade vamos nos deparar com um escândalo ético: Deus nos salva, assumindo a nossa condição humana, Deus nos salva perdoando a nossa maldade ou pecado, Deus nos salva estando perto dos publicamente incorretos, Deus nos dá a vida eterna perdendo a sua vida, Deus nos salva se tornando um condenado, Deus nos abre a possibilidade de tudo (eternidade) perdendo tudo. Por isso que até o temor, visto aparentemente com algo da fraqueza humana nem sempre é um problema. Muitas vezes é a solução. E se torna eticamente correto.  

8) Identidade e missão na Vida Religiosa.

“Jesus, porém, disse a Simão: “Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens”. Então, reconduziu os barcos à terra e deixando tudo, eles o seguiam”


Por fim, todo esse processo de reflexão, meditação e observação por alguns pontos de inspiração evangélica devem nos conduzir para a nossa identidade religiosa, enquanto radicalidade, profundidade e maturidade no seguimento de Cristo. Essa experiência rezada e vivida no cotidiano da vida tem a finalidade de tornar-nos na Vida Religiosa, “pescadores de homens” para e na realidade em que nos encontramos. Daí o movimento é de distanciamento do anti-reino para profundidade evangélica, a fim de realizar a missão profética como religiosos (as) no mundo contemporâneo, sendo uma expressão da misericórdia de Deus e conduzindo todos para o fim eterno: a união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

DAS BARBÁRIES PARA A CIVILIDADE NA HISTÓRIA DAS NAÇÕES EM GIAMBATTISTA VICO: LUZES PARA REFLEXÃO SOBRE DOIS MOMENTOS DE TENSÃO NO BRASIL.


Comunicação apresentada no XI colóquio vaziano "Democracia e Sociedade: Conquistas e Desafios. Entre os dia 24 e 25 de maio. (comunicação em processo de publicação)
Isaias mendes Barbosa[1]
isaiasredentorista@hotmail.com
RESUMO: A presente comunicação objetiva tratar das barbáries no processo de constituição e civilização humana, na história das nações, segundo o pensamento de Giambattista Vico (1696-1774), na sua mais brilhante obra: a Ciência Nova (1744). Por conseguinte, essa exposição será relacionada com dois pontos históricos de tensão humana no Brasil, a saber, a ditadura militar e a contemporaneidade. Ora, a concepção do “percurso das nações”, enquanto “Ciência da Vida Civil” ou Ciência Humana, é marca inovadora e característica do filósofo napolitano no seu projeto de nova ciência distinta daquela tratada na tradição, isto é, a ciência (metafísica) do mundo natural. Tal história ideal das nações passa por um processo de humanização em três idades que podem se entrelaçar historicamente: a idade dos deuses, a idade dos heróis e a idade dos homens. Porém, cada momento histórico de autoconstituição do ser humano, – pelos seus costumes, línguas, direitos, leis, governos, culturas e mentalidades – passa por duas barbáries (a barbárie dos sentidos, a barbárie da retornada) e o risco iminente de uma terceira barbárie, a da reflexão. Todavia, cada estado de barbárie não é estaque em si, mas aberto, sob a luz da providência divina, como possibilidade para a civilidade, conservação e preservação humana nos seus princípios fundamentais, sem os quais ela não pode subsistir. Assim as três barbáries estão em relação estreita com a civilidade e os princípios metafísicos de existência humanitária, política e civil. Isso nos serve de inspiração para a nossa sucinta e breve reflexão sobre a história e situação social – política do Brasil, entre 1964 e 1974, assim como na situação de crise que passa o país. Tendo como base metodológica uma reflexão analítica e exposição sobre a temática referida, apresentamos as seguintes considerações: i) as três barbáries na Ciência Nova de Giambattista Vico; ii) os três princípios universais e necessários para a civilidade humana; iii) colocações crítico-reflexiva sobra a ditadura Militar e a atual  crise política (um estado de exceção?) a partir da ideia viquiana de barbárie e civilidade. A pesquisa conclui que as três barbáries se definem geralmente como ausência ou negação de civilidade, do mundo criado pela humanidade, o mundo Civil. Elas são um desvio ou negação dos costumes ou princípios metafísicos do humano – religião, matrimónio e sepultura –, e dos demais princípios que se deduzem a partir deles. Porém, cada barbárie é marcada por um processo, ou possibilidade (de retorno) de humanização. A partir disso, refletimos sobre as situações de barbáries que se deram na Ditadura Militar, com certa relação àquela apresentada no pensamento viquiano. Por conseguinte, refletindo sobre alguns fatos e acontecimentos da nossa conjuntura brasileira, destacamos que um certo tipo de barbárie perdura no nosso país, por diversas vias, de modo velado ou descrito como força do ocaso, no âmbito social e político brasileiro. Por fim, em vista das ultimas decisões, ora antiética (Impeachment de Dilma Rousseff), ora inconstitucional (prisão do ex-presidente Lula), dentre outras, destacamos o risco de uma barbárie indicada por Vico: a barbárie da reflexão. Quando o homem utiliza-se da racionalidade e intelecto para fazer mal à humanidade. Quando não há uma sensibilidade para com a sociedade e o bem comum, mas a paulatina desumanização e destruição de civilização humana.    
PALAVRAS – CHAVE: Percurso das nações; Metafísica civil; Barbáries; Reflexão; Brasil.
Introdução
          O projeto viquiano de pensar e descrever a história humana enquanto Ciência é uma das propostas mais geniais deste pensador que estava à frente de seu tempo. Tal projeto é uma resposta para o problema da ciência (metafísica) do mundo natural que, segundo Vico, tenta, sem êxito, apresentar os princípios universais e necessários de onde se fundamenta a realidade do cosmo. A propedêutica da proposta viquiana, sobre o mundo humano, está na afirmação de que a única realidade conhecida para o ser humano é aquela que ele mesmo cria, isto é, o mundo humano, o mundo das nações. Daí podemos observar uma história ideal de todos os povos, uma ciência do “mundo civil”. Porém, o curso das nações começa na origem de todos os povos, na distinção entre dois tipos de história: a história sagrada e a história profana. É pela negação daquela que o homem decai na sua humanidade e, no meio da selva, sem nenhuma lei, racionalidade, divindade, que o governe, se torna bárbaro (1º ponto).
          O contato com o mundo natural e a providência divina faz esses bárbaros terem uma ideia de Deus e adentrar na primeira idade, a saber, a dos deuses. Daí começa um processo de criação de si, de humanização que se faz pelos três princípios da civilidade: a religião, o matrimónio e a sepultura (2º ponto). O processo de civilidade segue mais duas idades: a dos heróis e a dos homens. Porém, pode acontecer que tal processo seja interrompido, quando, retorna no tempo as características da primeira barbárie. Assim acontece a barbárie retornada, enquanto que uma suposta terceira barbárie (da reflexão) é intuída como o grande risco de negação e destruição humana, num tempo posterior, em que a sociedade está no seu estado humano e civil equilibrado. Ora, tal base filosófica nos é útil para refletir sobre a barbárie que se deu no Brasil no período da Ditatura Militar e na atual crise que passamos, pois suspeitamos que contemporaneamente corremos o risco de uma terceira barbárie que se relaciona diretamente com o atual estado de exceção (3º ponto).
I) as três barbáries na Ciência Nova de Giambattista Vico
O findar do século XVII e o início do século XVIII é um período transitivo de mudanças paradigmáticas no universo da educação, da cultura, da religião e da política napolitana. Essa viragem cultural tem como preocupação os diversos saberes da época e da vida civil, o destaque está na novidade de um método cartesiano – física cartesiana –(VICO, 1998, p.102), que predomina como condição de saber verdadeiro, e a exaltação das ciências geométricas e instrumentais em detrimento dos saberes relacionados aos studios humanitatis: a história, a retórica, as letras, a literatura e a poesia. É nesse universo conflitivo que Giambattista Vico (1668 – 1744) desenvolve, de modo revolucionário, o projeto de uma nova Ciência. Não aquela ciência que segue o método matemático para descrever a realidade humana, não mais aquela ciência do mundo natural, a quem só Deus conhece porque é o autor que a fez (VICO, 2005, p.172), mas a ciência das nações, a ciência do mundo civil, pois esta foi feita pela própria humanidade, por força da Providência divina. Na obra Ciência Nova (1744) Vico trata de um saber enciclopédico e metafísico sobre a humanidade, desde sua originalidade necessária, comum e útil. Sua proposta de Ciência da Vida Civil considera todos os saberes da tradição literária antiga, renascentista e moderna, desprezados em sua época, que são úteis, enquanto material de pesquisa, para conhecer o único mundo construído pelo arbítrio e fazer humano, o mundo civil.
Tais saberes descrevem as nações nos seus costumes, nas suas línguas, nos seus governos originários e gestativos. No resgate dessa literatura, pela abordagem filosófica e filológica, Vico descreve a história ideal das nações, desde seus princípios metafísicos do mundo civil. Porém, para categorizar tal ciência histórica, o autor defende que o percurso das nações passa por um ciclo histórico elítico, conforme a “divisão das três idades que os Egípcios diziam terem transcorrido antes do seu mundo, a dos deuses, a dos heróis e a dos homens” (VICO, 2005, p.667). A primeira idade é precedida, na história pelo povo que recusou a tradição adâmica – do povo hebreu – e negando a religião de seus pais, e os princípios de humanidade, se debandaram num errar ferino. Daí surge o estado pré-humano distinto daquele presente na história sagrada:
[...] para as nações de todo o restante do mundo a questão devia passar-se de outra maneira. Porquanto a raça de Cão e Jafeth devem ter-se dispersado pela grande selva desta terra, num errar ferino de duzentos anos; e assim, vagabundas e solitárias, devem ter produzido os filhos, com uma ferina educação, desnudada de todo o costume humano e privadas de toda a fala humana e, por quanto num estado de animais selvagens. (VICO, 2005, p.65)
Ora, esse primeiro momento prévio, de negação da história sagrada, trata do estado primitivo humano, a saber, o da primeira barbárie. Esse estado é o momento propedêutico da primeira idade a que percorreram todas as nações (gentis). Os bárbaros eram os “primeiros homens, estúpidos, insensatos e horríveis bestiagas” (VICO, 2005, p.211), denominados de bárbaros, pois estavam ausentes de qualquer pensamento racional, sem nenhum temor a qualquer divindade ou aos seus pais. Nesse sentido a barbárie primeira se reporta àqueles primeiros homens de natureza cruel, povos não domesticados pelas leis, que viviam de uma natureza ferina, pois “devem ter andado num errar bestial, porque, ao fugirem das feras (que deviam abundar sobejamente na grande selva da terra) e ao perseguirem as mulheres esquivas e relutantes [...], deviam encontrar-se dispersos por toda a terra” (VICO, 2005, p.160). São aqueles que:
[...] sem qualquer temor de deuses, de pais ou mestres, que esfria o excesso exuberante da idade da idade juvenil-, devem ter aumentado desmesuradamente as carnes e os ossos, crescido vigorosamente robusto e, assim, terem se tornado gigantes. Esta é a ferina educação, e num grau mais feroz daquela em que [...], César e Tácito fundam a causa da gigantesca estatura dos antigos Germanos, como foi a dos Godos. (VICO, 2005, p.206)
Vico sustenta que esta primeira barbárie configura o percurso inicial humano gentílico para que o homem adentrasse nas selvas da terra e resistisse ás forças da natureza. O contato com a natureza, o medo dos fenômenos naturais, levaram tais bestiagas a possuírem “um pavoroso pensamento de uma qualquer divindade” (VICO, 2005, p.180). É a partir de então que os primeiros homens, no seu estado barbárico, iniciam os primeiros passos para sua humanidade. Nesse processo, segundo Vico, o homem passou por um ciclo de natureza, costumes, direitos, estados, línguas e jurisprudência, caraterístico das três idades, a saber: a dos deuses, a dos heróis e a dos homens. Quando se encerram as três idades, a história humana retoma, porém, ao seu início, ou seja, retoma ao seu curso (ricorso), quando os homens voltam para o seu estado bestial. Todavia, no percurso ideal das nações pode acontecer uma segunda barbárie, quando a humanidade chega a retroceder ao seu estado de natureza primitivo e inumano.
Trata-se, portanto, de um retrocesso na história, uma negação das leis fundamentais, seus princípios universais e necessários, que geram, regem e mantem a humanidade civilizada. Vico sustenta que na história humana tal barbárie aconteceu na Idade Média, no declínio do Império Romano. Essa segunda barbárie é chamada de regressada, porque descreve a retomada de alguns elementos da primeira barbárie, porém, no contexto já civilizatório, socializado, formado com suas leis, estados, governos e culturas. Se a barbárie primitiva se situa na fundação da humanidade (ainda no seu estado de irracionalidade, imerso nas paixões, preenchida pelas faculdades pré-reflexivas, com uma qualquer ideia de divindade, e com atos bestiais), na barbárie retornada esses elementos se manifestam novamente:
Regressaram certas espécies de juízos divinos, que foram denominados “purgações canónicas”; demonstramos, acima, que uma espécie de tais juízos, nos tempos bárbaros primeiros, foram os duelos, que, porém, não foram reconhecidos pelos cânones sagrados. Regressaram os latrocínios heroicos; dos quais vimos acima que, tal como os heróis se tinha atribuído a honra de serem chamados “ladrões”, assim foi título de senhoria aquele, que de “corsários”. Regressaram as represarias heroicas, que observamos acima terem durado aos tempos de Bártolo. E porque as guerras dos tempos bárbaros últimos foram como aquelas dos primeiros, todas religiosas, tal como vimos há pouco, regressaram as escravaturas heroicas, que duraram muito tempo entre essas mesmas nações cristãs. (VICO, 2005, p.795)
Assim se sucedeu em Roma, após ter sido assolada pelos bárbaros. Foi o declínio dos princípios metafísicos civilizatório do povo romano. A negação ou deturpação da lei, o voltar para imersão dos sentidos, das paixões bestiais. Daí, na história romana, após a segunda barbárie, aconteceu um novo ciclo, de acordo com a sucessão das três idades, dos três estágios de línguas, de culturas, de educação, de política e governos. Disso resulta o retorno de vários elementos presentes na primeira barbárie, como certas espécies de juízo divino, os latrocínios, as represarias, a tirania das leis e a violência, dentre outras coisas no processo de declínio humano. E desse modo houve o retorno dos feudos divinos, que na primeira barbárie foi a selva que Hercules ateou fogo para o cultivado. Do mesmo modo se deu com os feudos de Roma. Porque sucedeu por toda a parte “as violências, as rapinas, os assassínios, pela suprema ferocidade e arrogância daqueles séculos barbaríssimo; [...] não existindo outro meio eficaz de refrear os homens, desobrigados quer de todas as leis humanas, quer da divina” (VICO, 2005, p.796). Deste retorno, observamos a retomada inicial do curso das coisas humanas e civis conforme os três Estados, a saber, aristocrático, democrático e monárquico.
No entanto, após esse tipo de barbárie, Vico apresentar os riscos de uma terceira barbárie, que decorre do afastamento dos seus princípios fundantes e fundamentais da humanidade. Nesse sentido, ele apresenta a terceira barbárie como sendo pior que a segunda, isto é: a barbárie da reflexão. Trata-se não somente da negação dos princípios da humanidade, no âmbito da educação, da cultura, da ética e da política que rege a civilidade, mas da própria negação das faculdades de base do entendimento humano, pré-reflexivo: o engenho, a imaginação e a fantasia. Além disso, podemos sustentar que trata-se de um excesso de racionalidade que nega a própria existência humana.
[...] uma vez que tais povos, à maneira dos animais, se tinham acostumado a não pensar em mais nada se não nos seus próprios interesses particulares, e cada um tinha atingido o cume das comodidades, ou para melhor dizer, do orgulho, á maneira das feras que, ao serem minimamente contrariadas, se ressentem e se enfurecem, e assim [...], por tudo com obstinada facções e desesperadas guerras civil, passam a fazer das cidades selvas e das selvas covis de homens; e desse modo, ao longo de vários séculos de barbárie, vão-se enferrujar as grosseiras subtilezas dos engenhos maliciosos, que tinham feito deles feras mais imanes com a barbárie da reflexão. (VICO, 2005, p.842)
A intuição desta terceira barbárie é marcada pela frivolidade e pelo descuido em relação aos saberes, culturas e práticas fundamentais à humanidade. Se a barbárie da reflexão ocorrer, os seres humanos desumanizados se tornarão basicamente selvagens, vivendo sob a aparência amável, porém imersos na má fé e ação desumana. Daí, deste estado perigoso, as nações terminarão sucumbindo, vítimas da sua própria debilidade e corrupção. Acontecerão, assim, guerras terríveis contra os inimigos internos e externos. Por sua vez, a civilização decairia e os homens se espalhariam, as cidades cairiam, e sobre as suas ruínas cresceria novamente a floresta. Desse modo, um ciclo se completaria na história e daria início a outro novo.  
II) os três princípios universais e necessários para a Civilidade Humana
Ao tratar do percurso das nações enquanto ciência do mundo civil, Vico apresenta na Ciência Nova (1744) os princípios metafísicos pelos quais a humanidade no seu estado originário, deixou o estado bestial, portanto, barbárico, para se formar, ou se constituir enquanto humana, sociável, civil. O material cronológico das nações está na primeira parte de sua obra. É a partir deste material, com uma abordagem filosófica e filológica, que Vico destaca os princípios pelos quais todas as nações tiveram sua origem, desenvolvimento e formação. Estes princípios são conhecidos por fazerem parte do fazer humano, do seu arbítrio, e de uma realidade nunca antes refletida como ciência: o mundo das nações. Essa realidade, esse saber metafísico-civil promovido indiretamente pela providência divina, portanto, teologia civil, se demonstra como a única possível de ser conhecida, pois é fruto direto da práxis humana:
Agora, uma vez que este mundo de nações foi feito pelos homens, vejamos em que coisas perpetuamente concordam e ainda concordam todos os homens, porque tais coisas poderão fornecer-nos os princípios universais e eternos, tal como devem ser de toda a ciência, sobre os quais surgiram todas as nações e todas se conservam. (VICO, 2005, p172)
Esses princípios fazem parte dos costumes que as nações tiveram em comum, desde a formação das coisas, dos hábitos, da cultura, da educação, das línguas, das leis, dos governos humanos na sua Antiguidade. Esses elementos culturais comuns, e do arbítrio humano, são os instrumentos utilizados para encontrar os princípios da vida civil. Nessa reflexão Vico apresenta os três princípios geradores das nações:
Observamos que todas as nações, [...] se bem que fundadas separadamente, afastadas entre si por imensos espaços de lugares e tempos, conservam estes três costumes humanos: que todas têm alguma religião, todas contraem matrimónio solene, todas sepultam os seus mortos; nem entre as nações, mesmo as selvagens e cruéis, se celebram acções humanas com mais requintadas cerimonias e mais consagradas solenidades do que religiões, matrimónios e sepulturas. (VICO, 2005, p.172-173)
Esses três princípios concordam com a décima terceira máxima, ou dignidade, que considera ideias uniformes de povos desconhecidos como princípio comum de verdade. Portanto, sendo estes os três princípios das nações, eles são os três princípios da Ciência Nova de Vico, e eles devem ser conservados por todas as nações para manter-se como povo humano e como natureza sociável. Do contrário, a negação de tais princípios levaria o ser humano ao seu estado barbárico. Em relação à religião, é importante observar que se trata de uma experiência pré-humana em pelo contato com a natureza o homem teve uma ideia inicial de algo superior, pelo qual ele rearticulou toda a sua existência. A presença da religião na história das nações é confirmada do seguinte modo:
Porque todas as nações crêem numa divindade providente, pelo que se puderam encontrar quatro, e não mais religiões primárias ao longo de todo o decurso dos tempos e por toda a vastidão deste mundo civil: uma dos Hebreus e, portanto, outra dos Cristãos, que acreditaram na divindade de uma mente infinita e livre; a terceira dos gentios, que acreditaram na de vários deuses, imaginados compostos de corpo e de mente livre, pelo que, quando pretendem significar a divindade que rege e conserva o mundo, dizem deos immortales; a quarta e última, dos Maometanos. (VICO, 2005, p.174)
            Em relação ao matrimónio Vico o apresenta como princípio fundante e conservador da sociedade. Segundo a opinião de que haja uniões conjugais sem solenidades de matrimónio Vico sustenta que tal ato na antiguidade foi “censurado por todos os povos, pois, todas celebram religiosamente os matrimónios e por eles definem” (VICO, 2005, p.175). Assim, tais concubinatos são naturalmente repugnados em todas as nações, além de que não foram praticados por alguns senão na sua ultima corrupção, como pelos Persas (VICO, 2005, p.176). O matrimónio se constitui pelo caráter relacional e geração humana, de onde se formou as primeiras comunidades e posteriormente a sociedade civil e política. Por último Vico apresenta à sepultura. Esta faz parte dos costumes de todos os povos. Para fundamenta-la como princípio, Vico faz a seguinte consideração:
Imagine-se um estado ferino em que os cadáveres humanos permaneçam insepultos sobre a terra, a servir de engodo aos corvos e cães; pois deve estar certamente de acordo com este costume bestial não só aquele de ficarem os campos incultos, mas também as cidades desabitadas, e o dos homens, à maneira dos porcos, irem comer as bolotas, apanhadas por entre a podridão dos seus parentes mortos. (VICO, 2005, p.176).
            Disso se fundamenta a necessidade de todos os povos de ter como princípio universal a sepultura, como procedimento da vida humana, do onde se observou os espaços do sepultamento, a memória dos pais, a estabilidade nas propriedades, e etc. Outra colocação referente a este princípio é a questão da imortalidade da alma, que permaneceria errante em torno de seus corpos insepultos. Portanto, na Ciência Nova esses são os três princípios que se fundamentam todas as nações, nos seus costumes e que todas, sem nenhum contato entre si, procederam, por ordem da providência divina, e deixaram o estado bestial. Esses princípios são fundamentais na constituição e conservação de todos os povos, sendo que eles se articulam entre si de tal modo de um influenciar o outro e o próprio percurso das nações, desde seus primeiros momentos de humanidade.
Daí se justifica as três barbáries explanadas por Vico, pois, no âmbito geral, cada barbárie é uma negação da civilidade, sendo que na primeira observamos a negação da racionalidade, da crença numa divindade, uma ausência de lei e sociabilidade; enquanto que a segunda se classifica como uma negação das leis, normas e culturas do status quo em processo de civilização; e a última se intui como a deturpação dos mecanismos ou princípios da manutenção social comum, por uma racionalidade perversa e negação das faculdades sensitivas da mente humana. No que toca à relação entre barbárie e civilidade, é perceptível que a humanidade se rebaixa ao seu estado barbárico quando negam os princípios fundamentais e fundantes de todos os povos. Deste modo Vico justifica e comprova cada princípio. Desses princípios metafísicos Vico apresenta outros princípios que contribuem para que a humanidade subsista, se auto constitua e se mantenha enquanto tal.
III) colocações crítico-reflexivas sobre a Ditadura Militar e a atual crise política a partir da ideia viquiana de Barbárie e Civilidade
Após essa exposição sobre as três barbáries na história das nações, que se classifica como negação dos princípios fundamentais, e dos subsequentes, geradores de humanização, civilização, direito e equidade civil. Agora vamos refletir sobre a situação política no Brasil entre 1964 e 1974. São dez anos demarcados por uma repressão política militar, ações tirânicas que podem ser classificadas como barbárica ou com características semelhantes as barbáries apresentadas no pensamento viquiano. O período da Ditadura é característico de força repressiva e violenta contra os que lutavam pela liberdade, igualdade e equidade de vida, de bens econômicos e bens comuns. Isto é, uma tirania violenta aos setores populacionais que fora denominados ou acusados de “comunistas”. Ora, no período de 1961 acontece o “episódio da renúncia de Jânio Quadro aos nove meses de mandato presidencial, a legalidade foi quebrada e o estamento militar tentou se assenhorar do poder” (MIRANDA, 2008, p.15). A partir de então temos os passos do Golpe no Brasil.
É na ascensão política e hegemonia dos militares pelo poder, que se iniciou na história do Brasil uma repreensão, opressão, violência, tortura e assassinato aos povos brasileiros (políticos), pobres, trabalhadores e militantes. Na obra dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, a responsabilidade do Estado (1999), observamos a crueldade com que os líderes políticos e militares encarceraram, torturaram, prenderam e até mataram aqueles que não seguiam o status quo.
Os filhos do solo, nas páginas do livro de Nilmario e Carlos, levantam-se do chão e, clamando por justiça que lhes foi negada, apontam pelas responsabilidades de quantos, durante cerca de vinte anos, prenderam ilicitamente, torturaram e mataram, escudados numa impunidade permitida pela interpretação oficial da Lei de Anistia [...]. A leitura dos 364 casos Dos filhos deste solo aponta, sem dúvida – diante da imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, em nada valendo a Lei de Anistia, [...]. (MIRANDA, 2008, p.14)
As explanações desses casos de atrocidade humana destacam a realidade brasileira sobre a égide de dominação de uma camada populacional elitista e tirana, sobre um povo que fora censurado e torturado. Neste aspecto observamos que o militarismo promoveu o Golpe de Abril de 1964 e a Ditadura (LEITÃO, 2013, p.15). A deturpação da lei e manipulação da mesma para garantir a imposição antidemocrática marca esse período barbárico. A falaciosa justificativa era de que na referida época havia “no Brasil uma guerra de fato e de direito e, nessas circunstâncias, não existiriam regras, cabendo aos agentes da repressão atirar primeiro para matar. Era ‘matar ou morrer’” (MIRANDA, 2008, p.23). Nesse viés:
A ditadura eliminou garantias individuais e coletivas, cassou mandatos e direitos, censurou e proibiu, instituiu punições drásticas para seus opositores, mas nunca poderia ter conferido a seus agentes policiais e militares o poder de sequestrar, torturar, matar e promover desaparecimentos forçados (MIRANDA, 2008, p.23).
Tais ações ditatoriais são exemplos de corrupção das leis, uma destruição dos direitos civis e humanos (LEITÃO, 2013, p.161) que na lógica viquiana seria uma negação dos princípios fundamentais da humanidade. Esse tipo de barbárie se aproxima daquelas apresentadas por Vico na história das nações, pois englobam: a tirania das leis de humanidade, a proibição de escrito sobre qualquer ação desumana dos militares, a atrocidade para com membros militantes ou críticos da sociedade civil, isto é, a destruição do gênero humano, e o ceifamento de membros do tecido familiar. A violação dos direitos humanos, isto é, da lei que resguarda a dignidade humana, apresenta elementos característicos de uma barbárie retornada, pois tais ações efetuadas na Ditadura rompem com a estrutura social vigente e implanta um voltar ao liberalismo tirânico sem moral, portanto, ao retorno do estado bestial de violência e morte humana.  
A barbárie que se realizou na Ditadura do Brasil se constituiu com atrocidades multifacetárias e criativas, que são indicadas pelos laudos médicos dos corpos que foram encontrados. Isso foi razão para um desnudamento da falsidade sobre os acidentes ou mortes divulgadas pela mídia e meios de comunicação. “Ao invés de ‘suicídios’ e mortes por atropelamento’, assassinatos sob torturas cruéis. Ao invés de ‘fugas da prisão’, desaparecimento forçados. Ao invés de ‘tiroteios’, quase todos simulados, execuções à queima roupa” (MIRANDA, 2008, p.23). Assim, exemplificamos essa barbárie com as atrocidades que praticaram ao dominicano Frei Tito:
Frei Tito foi torturado durante 40 dias pela equipe do delegado Sérgio Fleury. [...] Torturado durante dois dias, pendurado no pau-de-arara, recebendo choques elétricos na cabeça, nos órgãos genitais, pés, mãos, ouvidos, com socos, pauladas, “telefones”, palmatórias, “corredor polonês”, “cadeira-do-dragão”, queimaduras com cigarros, tudo acompanhado de ameaças e insultos. A certa altura, o capitão Albernaz ordenou-lhe que abrisse a boca para receber a hóstia sagrada, introduzindo-lhe um fio elétrico que lhe queimou a boca [...] (MIRANDA, 2008, p.184).
A Ditadura passou e o Brasil institucionalmente se democratizou, porém, a força abusiva policial-militar, e o sistema político gerador de corrupção e violência não acabaram, apenas perderam as forças e até certo ponto ficaram no anonimato social. Porém, partir de 2015 o Brasil sofreu alteração na sua conjuntura. A crise política, com seu sistema corrupto veio a tona, o setor policial recebeu força e autonomia no governo Dilma para atuar nos casos de corrupção e desvio públicos. Todavia seu objetivo ético não foi realizado, os setores empresariais, institucionais, econômicos e políticos que estavam envolvidos na corrupção, não foram jugados, mas poupados. Enquanto que certo setor militante de esquerda (PT) se tornou alvo de uma rede de lideranças corruptas e fascistas que estavam no poder e nas várias esferas do governo. Nesse contexto de crise política, corrupção e fortificação policial, aconteceu, em 2016 o Impeachment da até então presidente Dilma Rousseff, acusada de cometer crime de irresponsabilidade.
A partir de então entrou em curso uma onda fascista, de tradição ditatorial barbárica, que implantou um “Golpe”. Este tem certa relação com Golpe de 1964. O recente “Golpe” de Estado jurídico midiático parlamentar está negando o Estado de Direito. Agora temos um Golpe que entrou em curso e já seguiu com suas intervenções na vida populacional (principalmente dos mais pobres) e nos movimentos político militantes de esquerda. Vemos seus efeitos nas reformas da educação, nos cortes econômicos de assistência social pública, na reforma trabalhista, no aumento de impostos nos produtos de consumo populacional, no aumento de desemprego, na execução de Marielle Franco Anderson Pedro Gomes, e na injusta prisão do ex-presidente Lula. Tais fatos nos leva a questionar se não estamos diante do risco de uma terceira barbárie (da reflexão), mais sofisticada e vestida disfarçadamente de justiça social e condenação da corrupção personificada. O risco de um Estado de exceção não pode ser descartado no nosso país.
Conclusão
Em suma é perceptível que as três barbáries, no projeto viquiano, são marcadas por suas particularidades, sendo que enquanto na primeira há o predomínio da não civilidade, pois os homens estão em um estado pré-reflexivo, isto é, voltado sobre a força dos sentidos, da ausência de conatos e de qualquer moralidade interna, na segunda barbárie há uma negação das leis, uma espécie de declínio nas normas civilizatórias, um voltar-se sobre as paixões do corpo e uma prática desumana subversiva aos princípios de humanidade, que faz declinar qualquer império. Neste universo se observa que o homem se torna o lobo de si mesmo.
Todavia, a suspeita da terceira barbárie se encontra num estado mais evoluído, quando todos os princípios de humanização e regulação social, como os costumes, as leis, a língua, os governos, a política, a educação são orientados ou instrumentalizados contra a própria humanidade. Assim seria a subversão humana mediada juridicamente pelas leis de regência e conservação social. O destaque de tal barbárie é a racionalidade que se volta contra a sua própria geração humana, pois está pautada nos interesses particulares subversivos, nas formas mais evoluídas de dominação, opressão e destruição humana. Rastros destas três barbáries são encontrados no Brasil, no período da Ditadura Militar.
Além disso, observamos uma intuição de uma terceira barbárie na contemporânea crise política que se passa no Brasil. Sua configuração é mediada pela lei, como imagem de justiça e legalidade constitucional, porém, os fatos e a forma de intervenção política nos quatro poderes, a omissão e suavidade da justiça para com os ricos e poderosos em detrimento da maior camada populacional pobres, só destaca cada vez mais o Estado de Exceção onde se nega o Estado de Direito e a urgente necessidade de apoio das esferas mais debilitadas de nosso país como a educação, a saúde, a moradia e o desemprego. O risco de intensificação da disparidade entre ricos e pobres pode intuitivamente justificado como o resultado dessa barbárie da reflexão que descarta a democracia, o bem comum e o grito dos mais pobres nas capitais, cidades, ruas, praças e periferias de nosso país.
Referências bibliográficas
ARNS, D. P. E. (org). Brasil: nunca mais. Vozes: Petrópolis, 2014.

LEITÃO, R. C.1968 – O grito de uma geração. Eduepb: Campina Grande, 2013.

MIRANDA, N. Dos filhos deste solo: mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, a responsabilidade do Estado. Boitempo Editorial/Editora Fundação Perseu: São Paulo, 2008.
VICO, G. Autobiografía de Giambattista Vico [1725-1728]. Trad. Esp. Moisés González García y Josep Martínez Bisbal. Madrird: Siglo XXI de España, 1998.

_____. Ciência Nova [1744]. Trad. port. Jorge Vaz de Carvalho. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.


[1]  Graduado em Filosofia na Universidade Estadual do Ceará (UECE), discente do curso de Teologia na Faculdade Jesuíta Filosofia e Teologia (FAJE). 

A greve dos caminhoneiros


A greve dos caminhoneiros tem movimentado as mídias e meios de comunicação no país, além disso tem afetado diretamente os sistemas de transporte e distribuição de mercadoria terrestre e aéreas no nosso país. Ora, atualmente estamos tendo uma intervenção de um setor que só recentemente é conhecido publicamente e que por muitos está sendo louvado. Não podemos negar os efeitos positivos dessa intervenção: como forçar o sistema econômico de combustível diesel a baixar o seu exorbitante preço. Isso é até bom para boa parte da população que utiliza de tal combustível para realizar suas atividades profissionais e cotidianas. Porém fica uma questão que não pode ficar esquecida. Por que esta greve (tão amplamente divulgada) está tendo um efeito efetivo e louvável por muitos, enquanto que outras greves (nas universidades, no sistema trabalhista, no setor de transporte, na saúde) não tiveram o mesmo valor, os mesmos elogios e as mesmas preocupações em relação aos detentores do poder e também ao público?
Há várias hipóteses que não podem ser descartadas, mas gostaria de apresentar objetivamente algumas: 1) a greve dos caminhoneiros afeta fortemente a economia do país. São transportadoras de produtos (de várias naturezas) que requerem uma demanda de consumo ou até certo ponto uma utilização imediata. Engraçado que o primeiro e principal problema é o econômico; 2) a pauta de exigência grevista não é a mudança de um sistema econômico, não é um fora Temer com toda a sua cambada de ladrões. É que “ –Seja reduzida a carga tributária incidente sobre operações com óleo diesel a 0 (zero), sendo elas as alíquotas da contribuição para os Programas de Integração Social e de Formação do Património do Servidor Público – PIS/PASEP – e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS – incidentes sobre a receita bruta de venda no mercado interno de óleo diesel a ser utilizado pelo transportador autônimo de cargas. – E torne isentas da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico – CIDE – instituída pela lei nº 10.336, de 19 de dezembro de 2001, incidente sobre a receita bruta de venda no mercado interno de óleo diesel a ser utilizado pelo transportador autônomo de cargas”.
Em poucas palavras: a exigência principal é tornar o óleo diesel isento de imposto. Não é aumento de salário, não é problema na remuneração profissional, não é conflito na contratação e no acordo profissional. Não é por uma educação mais digna, não é pelo aumento de emprego, não é por uma sociedade igualitária, não é por questões de precariedade pública hospitalar. 3) a intervenção gera um prejuízo econômico aos setores empresariais. As outras greves atingiam em cheio a população, mas não os setores empresariais mais ricos. Em outras palavras: fazer greve na escola e universidade interfere na educação populacional e na exigência do cuidado dos pais ou responsáveis para com seus filhos. Mas não interfere na vida do empresário de alta categoria. Este tem filho na Escola particular.  A greve dos correios não atinge efetivamente a distribuição dos bens de consumo alimentícios e de alto custo. A greve no sistema de saúde (pública) só atinge diretamente as pessoas que estão em risco de vida. Com destaque: os pobres. Não atinge, como deveria, quem está produzindo capital. Eis algumas pontuações que diferenciam essa greve das demais. 4) a greve apresenta uma estagnação no sistema econômico, a diminuição do consumo populacional, o travamento na dinâmica de vida empresarial e profissional.
Há até suspeitas de que as pautas apresentadas pelos caminhoneiros tem influência de certo setor empresarial do que realmente uma reinvindicação propriamente crítica e consciência da categoria de caminhoneiros. Portanto, sem tirar certo mérito desse evento histórico, podemos já constatar que a importância dessa greve indica a hierarquia dos valores, onde o econômico e o mercado estão em primeiro lugar, enquanto que os valores pertinentes ao setor humanitário e da vida (que deveria ser o primeiro) do povo, estão em último degrau dessa hierarquia. Num Brasil desigual, as lutas e greves muitas vezes se apresentam como fragmentadas. E com certa divisão de classes.
A situação atual exigiria uma unificação dos diversos setores de greve, porém, o que vemos é uma injustiça para com os setores grevistas de classe inferior, que são tachados de vândalos, terroristas, vagabundos e etc, enquanto outros setores nada fazem ou nada participam nessa luta. Soma-se a isso a letargia populacional dos que acham que nada têm haver com isso, dos que simplesmente são indiferentes e dos que esperam a salvação vir de outro e não deles mesmos. Um olhar egoísta, uma insensibilidade para com o outro e uma falta de solidariedade paira no Brasil (na classe mais alta?), vemos também aqueles que praticam obras de caridade para aliviarem suas consciências, enquanto seus corações permanecem os mesmos, e nos seus sonhos só participam alguns privilegiados. Essa visão de mundo, esse sistema mercadológico, torna o nosso país mais caduco e desigual. Ai a democracia só chegou para quem tem mais condição econômica, privilégios e acordos políticos, enquanto que os setores mais fragilizados (onde estão os pobres, miseráveis, abandonados e excluídos) ainda esperam, com grande resistência, uma libertação que nunca acabará sua chama, pois não se esquecem do bem mais sublime e mais sagrado da vida humana: o verdadeiro Amor. O resultado positivo dessa greve deve ser louvável, assim como um copo d’água em tempo de seca é motivo de animo, mas isso deveria ser apenas o micro começo de uma busca de saciedade humana pelo oceano que acabaria com a sede de todos. Isso eu chamo de democracia, dignidade e direitos humanos iguais.