quinta-feira, 31 de março de 2016

Senhor, que é o homem para que dele vos lembre e o trate com carinho?

Para uma profunda experiência com Deus não há pergunta mais desconcertante, verdadeira e intrigante do que esta que o salmista faz: "Senhor, nosso Deus, o que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?"(Sl8). Essa experiência de fé e vida é fascinante, pois descobrimos na humanidade o que realmente ela é: o mais belo ser, pouco a baixo de Deus, coroado de gloria e esplendor. 

Se observarmos a hierarquia dos seres criados por Deus, a humanidade realmente é o ser mais sublime e poderoso, pois existe dentro de nós um potencial para coisas  grandes e assustadoramente maravilhosas:  mais ou menos há 4 mil anos de vida humana e 3 mil de consciência histórica, a humanidade evoluiu de modo esplendido. Tal tempo fez com que ela saísse  da terra e voasse, por meio de diversos instrumentos, pelo céu planetário. O mundo nunca na vida se tornou tão pequeno e palpável aos olhos e desejos humanos. Fizemos coisas semelhante a Deus, como é próprio de nossa natureza esplendida.

Nos situando no tempo e no mundo, podemos perceber que Deus nos fez pouco a baixo de Si. Isso é uma dádiva divina, joia preciosa aos olhos de Deus. Nós somos belos porque fomos feitos por Deus, porém tal beleza só pode ser bem experimentada se não nos deixarmos levar ou inebriar por tão grande potencialidade, possibilidades e grandezas. Mas saber corretamente nos conduzir na vida. Se temos grandes possibilidades e poder isso é uma verdade, porém esse nosso potencial não se torna tão valioso e belo sem um elemento essencial, a fonte de toda a nossa beleza e grandeza, ou seja, o núcleo vital de nossa força, existência, felicidade .

A verdadeira força que há em nós, o verdadeiro tesouro humano está dentro de nós, está no canto mais frágil e sensível de nossa existência: no coração. E só podemos encontra-lo, para pulsar e ordenar  nosso potencial, quando nós encontramos e experimentamos a Deus. Essa foi a experiência de Moisés no deserto. Ele teve que tirar ou despir as sandálias, as vaidades, o desejo de grandezas, o poder inescrupuloso, para se aproximar de Deus: porque o local onde Deus se encontra é sagrado e não pode encontrá-Lo quem não se abandona ou não caminha com o coração. Pois só um coração frágil, sensível e compassivo pode se aproximar da sarça (coração de Deus) que, inflamado de Amor, não se consome. Eis a fonte de todo o poder: o Amor de Deus em nós.

O coração de Deus é nossa vida plena e nossa razão de viver, de caminhamos por este mundo e sermos grandes de fato e sabermos conduzir nosso esplêndido potencial. Na experiência com Deus cabe a nós rasgar o coração e não as roupas, deixar Deus se aproximar e fazer o que seu coração quer:possuir a nós. O amor de Deus, ou seja, seu Filho Jesus, faz o que bem quer e acertadamente, como aconteceu nos atos dos apóstolos (3,11-26): a força do Amor de Deus, expressada no nome e na pessoa de Jesus, curou o paralítico. O problema dos judeus e os nossos riscos de perdição, confusão, sofrimento e morte estão em nós rejeitamos ou negarmos o Santo, o Justo e o Primeiro profeta:Jesus. 

Recusar na nossa vida a experiência com Deus é  agir por ignorância diante do Amor de Deus. Tal negação impede que as coisas sejam restauradas e renovadas para serem plenas. Possuímos uma grande dignidade como filhos de Deus, obra mais amada da criação. Más tal dignidade pode virar pó quando não comungamos (Lc24,35-48), o seu peixe, com Deus ou quando recusamos tal amor. O convite de Jesus permanece como Ele fez aos discípulos. O chamando para tocar nas suas chagas, na sua carne continua para percebermos que Ele está vivo na nossa história, cuidando de nossa vida e nos trazendo a verdadeira paz. Deus continua querendo entrar na nossa vida como fez com Jerusalém que O negou. Pois como profetas, missionários e discípulos somos todos chamados a anunciar a conversão e perdão dos pecados para todos, sendo que Deus não deixou de amar e desejar a sua mais bela obra:a humanidade.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Jardineiro(a)s do Amor: o cuidado com o nosso jardim!


O contato, a relação, a contemplação, isto é, a experiência com a Natureza sempre é algo enriquecedor e purificador para nós e principalmente para quem vive na dinâmica das cidades metropolitanas! Quem vive nestes espaços sentem na pele desafios, tensões e agitações constantes: o barulho frenético dos carros, o estresse do transito, o corre-corre do trabalho, a cobrança do patrão, o cuidado com a casa, com os filhos, com o esposo ou a esposa, as compras por fazer, as contas pra pagar- hahahaa!!- tudo isso é uma inquietude só. Quem vive assim tem muita criatividade e jogo de cintura para dar de conta de tanta coisa em tão pouco tempo. São os heróis do cotidiano da vida.
Porém, todos, e principalmente os que já experimentaram o contato com a Natureza, ão de concordar que quando se fala em descanso, ou férias: um cantinho mais distante de tais cidades, um local mais próximo à Natureza, às cachoeiras, ou rios e lagos, com ar fresco, com o cantarolar dos pássaros, com a beleza das flores e das matas, tudo isso é sempre algo gratificante, enriquecedor e purificador para a nossa vida.   Quem aproveita desse ambiente retorna para casa mais aliviado, e mais disposto para enfrentar a vida.
Essa experiência é rica, porém, pode ser mais profunda ainda, pois se olharmos para esse ambiente, contemplamos uma beleza natural. E nós nos sentimos tão bem, porque fazemos parte dessa beleza. Nos preenchemos com ela, ou seja, fazemos “comunhão”, pois recebemos aquilo que a Natureza tem a nos ofertar: a sua beleza, a sua vida. Isso acontece porque fazemos parte desse “belo jardim”. Jardim que não vejo como autor outro criador a não ser Deus, pois é de suas mãos e de sua bondade que provem tanta beleza no mundo, que foi concedida para nós. Enxergar isso é fundamental na nossa vida, porque todo o jardim do mundo natural possui em si mesmo a beleza do seu Criador, a sua imagem.
E nós em si somos essa beleza. É Isso o que somos: imagem do Grande Jardineiro. E seremos mais belos e mais plenos ainda se buscarmos o que Ele “é” e fizermos o que Ele faz. No jardim da Natureza nenhuma planta fica tão bela e radiante se não for cuidada por quem a conhece. Do mesmo modo somos nós. Não seremos tão belos e radiantes se não nos deixarmos cuidar por Deus, O Grande jardineiro. As plantas seguem o seu curso natural, elas também fazem seu esforço interno para deixar de ser semente, para crescer e se tornar uma bela planta. Nós precisamos fazer o nosso esforço interno também para sermos humanos e belos em Deus e no nosso meio, na convivência cotidiana. As plantas são tão mais belas e ricas quando se deixa colori, ou completar, por outras plantas. Uma coisa é uma rosa, outra coisa mais bela ainda é um buquê de rosas. Nós também, como seres mais preciosos desse belo jardim, precisamos nos completar, nos tornar mais belos quando deixamos o nosso semelhante enriquecer e completar a nossa vida. Portanto, precisamos estar em comunhão com Deus, conosco mesmo, com o próximo e com a Natureza.
E só conseguimos isso, mais facilmente, e não sem dificuldades, quando identificamos e seguimos o Belo jardineiro Jesus, que é revelação da humanidade e do amor do Grande Jardineiro, Deus. E conhecer e seguir a Jesus é mais do que ler sobre ele ou fazer um ato de caridade. É intimidade e continuidade. Portanto, não tem como seguir esse caminho de comunhão e continuidade sem conhecer quem é, na sua profundidade, esse Belo jardineiro, expressão de Deus. Uma possível pista, que muito me agrada, para essa identidade sobre Deus é esta: “Deus é Amor Transbordante, Livre e Incondicional”. E uma característica bastante significativa deste Belo jardineiro e seu Filho é “O Cuidado”! A partir de então podemos encontrar um caminho enriquecedor para nós, na nossa relação com Deus e com Jesus.  
Deixar Deus e seu Filho cuidar de nós.
O cuidado é algo essencial deste Grande jardineiro. Mas para que isso aconteça requer que nos deixemos ser cuidados por Ele. Deixar Deus cuidar de nós é se abrir a algo que está além de nossas forças e de nossa capacidade. É perceber que existe algo primeiro que nós, Deus, que nos trousse a existência. Ele plantou a semente da vida no chão da nossa família para que viéssemos a existir. Foi o primeiro ato de amor, de cuidado de Deus. Fez nascer e fez crescer. Fez o jardim do mundo para manter nossa vida aqui na terra, por um tempo.
O Grande jardineiro cuidou para que enquanto estivéssemos aqui não faltasse nada para crescermos e amadurecermos. Ele nada cobrou e nem cobra. Fez isso livremente. Esses são os primeiros sinais de que Deus cuida de nós e que precisamos deixar Ele cuidar da gente se quisermos ser profundamente felizes. Ele está conosco olhando nossos passos, pois é como uma Mãe que não deixa de se preocupar com seus filhos. Deus, no Belo Jardineiro, bate a porta do nosso coração para entrar. Ele fez o necessário para vivermos, mas Ele quer mais. Quer estar junto, quer cuidar, quer orientar caminhos. Ele nos quer, pois nos Ama livremente e incondicionalmente. Porém, Ele não desrespeita a nossa liberdade e nunca vai desrespeita-la. Eis que estou à porta e bato, se abrires entrarei e farei comunhão contigo.
Muita gente ama a Deus. Isso é fato. Porém, aqui entra em questão nossas grandes limitações e grandes dores. Deus nos quer por completo, mas nem sempre nos damos por completo. Às vezes só uma parte, a que sobra do dia. Não falo aqui de estar na Igreja, pois Deus está lá, no templo, porém, não se restringe a isso: Deus está no meio de nós! Batendo e esperando a gente abrir a porta.
Só é preciso nos abrir. Deixar ser cuidado por Ele, se Deixar amar. E Confiar no Belo Jardineiro. Partilhar com Ele a nossa vida, nossa história. E quando não tiver nada para falar, fiquemos em silêncio! Deixemos Deus falar. Deixe Ele entrar e cuidar de nós. Ele vai silenciosamente nos conduzindo. Experimente e provaras a maravilha que é ser cuidado por Deus. 
Nessa entrega há em nós algumas limitações. Quando estamos bem, O amamos, porém, quando Deus começa a fazer os primeiros cortes para que a gente cresça e der frutos, quando ele quer que sintamos o seu amor e verdadeiramente amemos na vida, ai começamos a reclamar e resmungar: Por que tenho que respeitar e acolher a pessoa do outro: o pobre, o mendigo, a prostituta, o ladrão, o bêbado, o enfermo, o drogado, alguns da minha família, os desconhecidos, as pessoas imperfeitas?! Por que tenho que Amar e rezar pelo próximo, amar e rezar pelos meus amigos e inimigos?! Por que tenho que ter paciência?! Por que tenho que ser fraterno?! Por que tenho que perdoar sempre?! Por que tenho que servir?!  Eis nossas limitações. Eis nosso fechamento. É um pouco do nosso egoísmo gritando. Nossa sementinha não quer morrer para ser uma bela flor. E gerar vida.   
Deus nos Ama, mas se O queremos não estamos ausentes de sentir suas dores por amor. Pois amar também dói. Nós O amamos, mas na hora das perdas, não queremos aceitar. Quando nosso Grande jardineiro tira uma de suas rosas, pessoas, do nosso meio, para enfeitar a sua casa de beleza, nós não queremos aceitar. Nós O amamos, mas na hora das provações não queremos ser testados, e muito menos confiar em Deus. Nós O amamos, mas, quando vem chegando o final da estadia neste mundo, brigamos desesperadamente para não irmos. Nosso desafio é superar esses “nãos” para acolher a Deus. E acolher tudo aquilo que Ele nos dar, ou seja, tudo aquilo que é inevitável na nossa vida e tudo aquilo que mantem o nosso amor bem unido ao amor de Deus.   
Cuidar de nós mesmos.
Deixar-se cuidar por Deus não quer dizer que devemos deixar de cuidar de nós mesmos. Pelo contrário, Quanto mais conhecemos a Deus, mais aprendemos verdadeiramente a cuidar de nós mesmos. É importante não confundir as coisas, pois corremos o risco de dois extremos. E a tendência atualmente, pelo mercado que 24 horas estimula o consumo, é o extremismo do cuidado de si. Tanto o cuidado excessivo de si como a falta de cuidado precisam ser evitadas.
Tem pessoas que gastam boa parte, e não é pouca, de sua vida, cuidando de si. Todos os dias na academia. Perfumes em excessos, roupas nem se fala. Alimentação a risca. São os excessos que podem tornar as pessoas doentes. Quando nesse aspecto cuidamos em excesso do corpo, desnecessariamente, os sinais disso se apresentam quando usamos mais coisas do que precisamos, e esquecemos ou deixamos de nos sensibilizar pelos outros, ou pelas coisas que acontece com o outro. Exemplo: Eu cuido tanto de mim que não percebi ou não me importei quando os outros precisavam de mim, ou quando vi o rombo da conta dos meus gastos pessoais, no final do mês ou ano.
Já por outro lado há a falta de cuidado consigo. O desprezo de si. Exemplo: Não me importo se estou de boa aparência. Se me alimento razoavelmente bem, se como além da conta, ou se não como nada. Se não tenho roupas que me deixem bem. Toda roupa dá certo. Aqui observamos a falta de amor de si. O equilíbrio é o melhor caminho e uma busca constante.
O cuidado consigo é importante, e mais importante ainda é o cuidado interior. Aquilo que alimenta a nossa vida, os nossos sonhos, a nossa fé, a nossa espiritualidade. Os meios de comunicação não ajudam. E somos bombardeados por tanta coisa, mas são poucas as que nos trazem a paz, a alegria, a felicidade interior.
Precisamos observar o que realmente é bom, agradável, saudável e produtivo aos nossos olhos, aos nossos ouvidos, ao nosso paladar, ao nosso corpo. Pois são poucas as coisas que nos trazem paz, felicidade, alegria, fé madura, amor, vida. Somos tentados por todos os lados e precisamos cuidar de nosso interior se não as coisas de fora vem e nos arruínam por dentro, tiram a nossa dignidade, a nossa paz e vida saldável. A nossa verdadeira felicidade.
Para comumente ilustrar vamos considerar aquilo que faz parte de nossa base existencial, que é maravilhoso e muito sensível, mas que precisa de cuidado para termos uma vida madura: nossa sexualidade.  No popular e na mídia, nos meios de comunicação, muito se fala de sexo e relações sexuais, porém, pouco, ou quase nada, se fala sobre esse assunto de uma forma madura e séria. Pelo contrário, há estímulos para vivermos a nossa sexualidade com quem, quando e aonde quisermos.
Não há uma preocupação para que encontremos nossa orientação e identidade sexual própria. E isso pode prejudicar o nosso interior. Pois quando não há restrição para cada opção e identidade de vida, as coisas mais absurdas acontecem. Não preciso falar muito. Já é bem visível isso, nos assédios sexuais, nos estupros e na pedofilia. Isso são sinais de falta de limite, orientação e identidade sexual. Portanto, é importante observar se de fato essas coisas promovidas estão nos ajudando a se identificar humanamente e sexualmente falando, e se isso está nos gerando paz, felicidade e harmonia na vida, ou se isso está interferindo e confundido mais ainda a nossa cabeça e nossas relações afetivo-sexual.
Quando fechamos os nossos sentidos para as coisas que nos fazem mal, quando evitamos tais coisas ruins descobrimos algo mais assustador e surpreendente: descobrimos que dentro de nós movem duas forças. Uma boa e uma má. Uma que nos faz bem, nos dá felicidade, bons desejos, tranquilidade, paz, amor e alegria. E outras que nos inquietam, nos gera tensão, maus desejos, inquietude, maldades, raiva, vingança e dores. Ai todos nós observamos que o jardim da nossa interioridade tem tanto água viva e doce, quanto lodo e sujeira. É desse jardim que precisamos cuidar. Fazer do estrume e da água brotar a bela rosa. Por isso é preciso cuidar.
A primeira coisa que precisamos é destruir a plantação carniceira. Limpar a área para encontrar o chão onde pisamos. São as verdades reais. A luz de Deus pode nos ajudar a enxergar o que precisa ser limpo e o que já está limpo, pois temos um chão sujo, mas também temos um chão deixado pelo Belo jardineiro, propício para o nosso jardim. É preciso ir com paciência e calma. O jardim interior é o mais difícil e o mais demorado para ser limpado, e pode durar a vida toda, mas é nesse jardim que podemos colher as mais belas rosas do mundo. É bom impedir que o nosso interior fique sujo com coisas de fora. Pois se formos limpar dentro e depois colocamos sujeira é mesmo que nada. Depois vamos ter que limpar tudo de novo. E teremos mais trabalho.
Então vamos limpando. Identificando o que é pernicioso e que não nos enriquece com o que é fértil para nascer nossa bela planta interior, vida, verdadeira felicidade, paz, esperanças, entusiasmos. Uma dica importante: Aproximemos de Deus e percebamos o que Ele é e o que ele faz, a partir dai podemos saber o que tirar e o que deixar no nosso jardim. Não esperemos o terreno ficar limpo para ir aguando e plantando. Vamos fazendo as duas coisas. Tiramos o ruim e colocamos o bom. Tira e põe.
E assim vamos deixando o Belo jardineiro fazer o seu trabalho e lhe mostrando o que precisa ser cortado, melhorado, retirado, para que nós cresçamos saudáveis e produzamos mais frutos, bons frutos. Continuemos, não não vamos parar, não vamos desistir, não vai ser fácil, mas persistamos. Que aos poucos vamos ter um belo jardim: em que Jesus poderá habitar e cuidar de modo inigualável. Outra dica: Confiemos em Deus e abramos o jardim para que a graça de Deus venha, pois É SOMENTE A SUA GRAÇA QUE IRÁ NOS AJUDAR.  O jardim sempre vai precisar de reparos e melhoras: Deixemos O jardineiro lá. Não o tiremos. Deus nos ama e quer ficar em nós. Ele sabe cuidar de nós. Confiemos e sejamos felizes. 
Cuidar do nosso semelhante.
Na medida em que cuidamos de nós mesmos, cuidar do outro se torna outra necessidade. Atualmente é só o que vemos: pessoas precisando de cuidado. Idosos, Crianças, Adultos, são muitas. Se seu jardim está sendo bem cuidado, o jardim do outro também precisa. O Belo jardineiro já está lá, mas Ele nos chama também para ajudar. Se você foi agraciada(o) pelo Belo jardineiro a forma de agradá-LO é também cuidando do jardim do outro. Pois Deus é Amor transbordante. Ele se derrama para todos. Não tem como provar do amor de Deus e ficar fechado em si.
Então vamos cuidando do jardim do outro. Será uma grande misericórdia. E uma grande alegria. Nossa tendência é cortar por nós mesmos as plantas do outro. É arrancar com raiz e tudo o mato pernicioso do outro. Não é assim que se faz. A gente começa a cuidar deixando cair nossas belas pétalas de amor, carinho, zelo, cuidado, paciência, paz, respeito... no jardim do outro. Podemos até dizer o que o outro precisa melhorar. Mas impor, forçar, não é da dinâmica de Deus e nem deve ser a nossa.
As pétalas servirão de adubo e será fértil para que a vida nova nasça. Façamos como Deus fez: comecemos amando e cuidando por amor. Vamos dando o necessário para gerar vida e maturidade. Não mostremos que somos uma bela rosa, não precisamos de nos exaltar. Mostremos que fomos frágeis, que tivemos que morrer, quando era semente, e que o Belo jardineiro nos ajudou e quer fazer também o mesmo com elas. Digamos a verdade e com sinceridade: que o que somos e temos é obra do Belo e do Grande Jardineiro, pela força e trabalho dos Dois. E o que fazemos, aprendemos Deles.
Ajudemos as rosas, pessoas, que estão ao nosso redor e ficaremos mais belos ainda. Nunca desistamos delas. A nossa tendência é nos aproximarmos das rosas e ser espinhados por elas. Sentimos dor então não queremos mais ir. Não façamos isso. Vamos e cuidemos, façamos o que outras belas rosas e o Belo Jardineiro fizeram conosco. Pois nascemos para tornar o jardim da vida mais lindo e belo, e não para vivermos sozinhos no deserto.
Quando sofremos os primeiros espinhos ficamos magoados e não perdoamos. Mas ai eis um grande problema. Deixamos o veneno ficar dentro de nós, quando não perdoamos. E ai ele vai nos fazer mal. Ficará uma ferida e suja. Enquanto não perdoamos essa ferida não irá cicatrizar. Tem pessoas que passam a vida toda infectadas, cheias de feridas internas, isso as leva a morte e não a vida, a prisão e não liberdade. E isso pode prejudicar a sua beleza e felicidade e muito mais a ação do Belo Jardineiro. É difícil, mas perdoemos e vamos nos salvar e salvar as outras rosas. Vamos seguindo os passos do Bom jardineiro. Sejamos belos jardineiros do Amor.
   
Cuidar do mundo.
Um dos grandes jardins que nos foi dado é o mundo. A nossa bela Natureza, este planeta. É urgente o cuidado com o mundo, pois ele está também bem sujo e em estado de lamaçal. Não precisamos ir muito longe: andemos meio quilometro depois de nossas casas e encontraremos sujeira, lixo, poluição e muito mais.
O excesso de consumo é visível aos nossos olhos. Tem muita coisa jogada fora, porque foram feitas para não durar muito. São descartáveis. E o novo nunca é provado por completo e muito menos valorizado. Três meses e um novo celular aparece. Quatro meses e esse mesmo celular está fora de moda e já apresenta falhas. Roupas sem durabilidade e comida cheias de produtos químicos. Nosso jardim mundo está se tornando um jardim descartável. Se continuar assim não durará muito.
Precisamos cuidar do nosso mundo para os nossos filhos, netos, bisnetos e infinitas gerações tal como as estrelas no céu. É necessário, limpar os rios, produzir menos lixo, consumir o necessário para estar bem e ter uma vida digna e saudável. Vamos valorizar cada rosa que existe no nosso jardim e cada pessoa, cada coisa importante, feitas por Deus. Valorizar cada árvore, cada água, cada rio. Vamos cuidar. É da Natureza que tiramos nosso pão e nossa subsistência, nossa cultura e nossa forma de viver aqui na terra. Não vamos desprezar esse nosso belo jardim, pois se ele morrer, nós, neste mundo, morreremos. Somos parte dele. Tenhamos misericórdia.

Para cuidar desse nosso jardim mundo vamos seguir os passos do Belo Jardineiro: produziu mais vida com a sua vida. Multiplicou o pão. Vamos multiplicar a vida da Natureza e sua diversidade. O bom jardineiro fez a Natureza para nos servir, nos ajudar, e não para que nós a destruíssemos desmedidamente como está acontecendo. O bom jardineiro fez o tempo para cada coisa. Vamos respeitar o tempo da Natureza se restabelecer e produzir mais vida. O bom jardineiro é a Luz do mundo. Precisamos ser Luz, para o mundo natural e humano. Vamos cuidar, proteger, guardar, preservar, conceder a dignidade ao jardim mundo. Como observamos deixemos ser cuidados por Deus, cuidemos de nós, do outro e do mundo, pois disso depende nossa verdadeira felicidade, nossa verdadeira beleza e nossa verdadeira plenitude gozada aqui na terra e plenificada na eternidade.  

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ConSagrado, Sagrado ser: pistas existenciais da vida.

Apresenta-se aqui algumas considerações sobre a vida consagrada, interrogações e um norte para a vida humana.
Uma das boas interrogações que podemos ter na nossa vida é: quem somos nós? Isso mesmo. A biologia pode dizer que somos um composto de moléculas; a sociologia nos afirma que somos um ser social, um ser de cultura; A psicologia nos afirma que somos um ser de ‘mente’.  Todas elas podem nos ajudar a conhecer-nos, porém, nenhuma delas encerra esse assunto. E a interrogação continua: o que eu sou? A resposta mais sublime que encontrei, e que é nossa primeira pista é que somos um “mistério”! Ou um “milagre”!  
Um mistério não se decifra totalmente, não se conhece por completo, não se compreende totalmente, tal como nós somos. Se olharmos profundamente para nós, para dentro, para o profundo do nosso interior, para a nossa história de vida e suas marcas profundas, perceberemos que podemos descobrimos algo novo dentro de nós, algos desconhecido até então.
Podemos ficar surpresos com o que vamos encontrar: alegrias, surpresas, paixões, raivas, desprezo, carinho, carência, esperança, felicidades, enfim, uma infinidade de coisas sobre nós. Se deslumbrarmos o nosso dia e a forma como agimos e reagimos no cotidiano da vida, descobriremos coisas novas e surpreendentes. É como percorrer o universo e encontrar as estrelas que brilham no céu. É algo grandioso, assustador, encantador, infinito. É espetacular! É um “mistério”.
Se é intrigante sermos um mistério, mais ainda será se descobrimos de onde viemos. Esta é uma surpreendente descoberta, nossa segunda pista: Se somos mistérios, só podemos ter vindo de um “Grande Mistério”, que costumo acreditar ser Deus. Não há maior Mistério que esse. Ninguém ver Deus face a face andando pela rua, ninguém consegue conhecer a Deus na sua plenitude, ninguém jamais entendeu todos os projetos de Deus na sua completude e nem conseguiu provar sua inexistência. Pelo contrário, quanto mais na contemporaneidade se questiona sobre a origem e o fim da vida , quanto mais se procura saber quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos, que é um mistério tal como nós, mais nos esbarramos no inevitável, no “Grande Mistério”: Deus. Não tem resposta mais precisa, mais preciosa, mais sublime, mais completa, sobre a nossa origem, o local de onde fomos gestados originalmente e como o milagre da vida acontece do que: em Deus. Viemos de Deus, pois somos um mistério, tal como Deus, ou seja, somos a sua imagem e semelha: um milagre, um mistério.
Com essas pistas podemos nos conhecermos profundamente e conhecer esse mistério que nos rodeia. Se somos de Deus, a sua imagem, então inevitavelmente o nosso “ser”, o conhecimento de nós mesmos, a nossa essência, a nossa origem e o nosso caminho depende de olharmos para Deus, e nos encontrar com Ele para se encontrar conosco.  Assim só descobriremos quem somos, profundamente, se estivermos com quem nos fez, a sua imagem e semelhança. Só descobriremos a nossa vida, o sentido da nossa existência, se estivermos com o Sagrado Mistério.
Hoje mais do que nunca as pessoas têm sede do “Sagrado”, elas buscam saciar essa fome do seu ser, da sua essência, nas coisas, nos prazeres e divertimentos que a sociedade propõe, nos altos cargos sociais e nos grandes poderes. Elas querem “ser”, encontrar-se consigo mesmo, e para afirmar seu “ser”, buscam “ter” e buscam “poder”.
A maioria das pessoas não quer um trabalho que as coloque no nível aparentemente inferior das pessoas consideradas importantes, pois isso seria para elas como diminuir ou desvalorizar seu “ser”. Elas não querem roupas simples ou consideradas de menor valor social, pois isso a colocaria no sistema social como “pessoa pobre”, ou considerada menos ofensivamente, “pessoa simples”. Ninguém quer trocar cargos de destaques, que valorizam a sua “pessoa”, ou seu “ser”, por cargos aparentemente inferiores. Fazer isso para elas é como se elas estivessem perdendo ou diminuindo seu valor, seu ser. O significado de Si. Toda a nossa sociedade contribuí para essa visão.
  Elas procuram se firmar, e acreditam que isso ajuda a “elevar seu ser”. Porém, na maioria dos casos, essa busca não é profunda e essencial, pois não atinge profundamente a essência humana, e nem as deixa livres verdadeiramente. Elas buscam sua auto-realização, porém, na maioria das vezes essa busca não preenche o nosso vazio. Essa busca no cotidiano da vida é necessária, porém não encerram o profundo da nossa existência. Corremos o risco de buscar a nossa profunda realização nas coisas que são necessárias para manter e proporcionar um pouco de satisfação na nossa vida, (trabalho, casa, comida, amigos, festas), mas que não nos satisfazem plenamente.
Se essas coisas nos satisfizessem plenamente não existiriam pessoas, tristes, pessoas raiventas, pessoas estressadas, pessoas cansadas, pessoas sem alegria, pessoas doentes, pessoas carentes. Todas trabalham, todas possuem casas, todas têm amigos. Então porque mesmo assim muitas delas não se sentem profundamente felizes? Porque muitas delas sentem um vazio interiormente? ...O nosso grande problema é que buscamos a nossa real e profunda felicidade nas coisas pequenas, nas coisas passageiras, pois acreditamos que as coisas desse mundo nos fazem feliz, porém verdadeiramente isso só acontece de modo parcial.
A maioria das pessoas buscam seu “ser” nas coisas que passam, nas coisas que são imagens de Deus. E nesse ponto elas erram feio. Pois não há outro local para se encontrar consigo mesmo, com a essência humana, e com todas as coisas determinantes deste mundo, a não ser em Deus. Pois é em Deus que todas as coisas ganham verdadeiro sentido, em Deus as coisas e inclusive o homem, possui o seu verdadeiro ser, pleno e milagroso. O nosso problema é que trocamos doze (Deus) por meia dúzia (seres imagens de Deus). Precisamos fazer o caminho inverso. Buscarmos e amarmos primeiramente a Deus para, estando com Deus, conhecendo a nós essencialmente, buscarmos e amarmos as obras de Deus. É o grande desafio da humanidade e sempre o será, se quisermos ser verdadeiramente felizes, ou bem aventurados.
Daí é de fundamental importância encontrarmo-nos com Deus, com o “Sagrado”, pois só nos encontrando com o Sagrado é que seremos nós mesmos e descobriremos a nossa real felicidade. A grande luta nossa é buscar a Deus, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma com toda a nossa força.
Mas para isso precisamos estar abertos para Ele. Chama-lo de coração e deixar Ele participar de “Toda a nossa vida”, acreditar que Ele vai agir em nós, que Ele nos mostrará o Caminho e a Verdade. Então precisamos “ser totalmente consagrados”. Entregar a Ele nossa vida, nossa história, nossas preocupações, viver com Ele numa relação de intimidade.  É estar totalmente a amostra para Deus.
Se não for assim será difícil descobrirmos a nossa identidade fundamental e verdadeira alegria. A nossa verdadeira essência. Não se trata só de falar com palavras que queremos a Deus, mas fazer da própria vida, com suas alegrias e tristezas, esperanças e decepções, uma vida despida para Deus, estar nu e sempre diante de Deus, para que Ele possa nos ajudar. Se uma oferta viva para Deus, pois só podemos nos encontrar profundamente quando nos encontramos com Deus.  Em Deus o nosso ser é revelado e resplandece, pois nos encontramos com as raízes da nossa existência, o nosso primeiro amor.
 Há pessoas que se mostram parcialmente a Deus, ou seja, só parte da sua vida, a parte mais bonita. Há pessoas que não abrem de mão de suas coisas pessoais, de suas ideias pequenas, de sua visão interesseira, por nada. Aqui ninguém mexe. Eu não deixo, eu não perdoo, eu não largo. É um egoísmo e tanto. Elas são muito cheias de Si, mas não é um Si verdadeiro. É um si egoísta. Um Si prezo e não Livre, Um Si frustrado, pois quer Tudo, mas perde tudo. E por isso Deus não pode fazer muito por elas. Muitas falam com Deus, mas numa relação de troca. Deus me dá isso, eu faço aquilo. Outras querem fazer de Deus seu serviçal: Faça isso pra mim, agora, pra essa semana, eu preciso. Muitos não ficam nus e não deixam “Deus ser Deus”. Não se coloca o Oceano dentro de um copo de água. Assim podemos ser nos quando queremos que Deus se mova pela nossa vontade, e pior ainda, pela nossa mesquinhes.
Com essas limitações não tem como nos encontramos como realmente somos, com nossa verdadeira felicidade. E quanto mais procuramos a Deus em coisas menores do que Ele, quanto mais nos restringimos a elas, mais limitamos a presença e ação de Deus no nosso meio e mais ficamos confusos. É Assim com muita gente.
O passo para Deus requer abertura, requer entrega, requer confiança, requer busca constante, requer intimidade, requer conversão. Pois quanto mais nos aproximamos de Deus, quanto mais consagramos nossa vida a Ele, mais nos distanciamos do caminho mau feito.  Entramos no eixo. E isso não acontece sem perdas, e sem dor. Quanto mais estivermos grudados aos nossos egoísmos, as nossas vontades individualistas, aos desejos pequenos, fechados e mesquinhos, mais doloroso será a nossa libertação. Não desistamos de nos encontrar. A solução é ser con-Sagrado, para Com o Sagrado Ser. Deixamos Deus entrar nas arestas da nossa existência, Ele vai fazendo-nos descobrir a nós mesmos, o nosso ser. Deixar ser remodelado para encontrar-se com nossa felicidade plena. Se estivermos sempre com o Sagrado, com o Sagrado seremos “Ser” e encontraremos nossa real felicidade. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

DAS MULTIPLICIDADES DOS SERES UNOS

Isaias Mendes Barbosa

(17/02/2012) (GEFIM)


RESUMO

O presente artigo trata da causa primeira como criadora dos seres unos e de todas as realidades. Ela é a origem essencial de todos os seres, os que estão na eternidade, abaixo da eternidade e acima do tempo, e os que são corpóreos. Todos os seres, corpóreos e incorpóreos, compartilham do Ser Absoluto, que é a cauda primeira, porém estão unidos a ela por participação.  Daí existe uma hierarquia de seres e graus de a proximidade e distanciamento que definem a unidade e multiplicidade dos seres unos. Pela análise do Liber de Causis (Livro das Causas), de autoria desconhecida, pretende-se apresentar sucintas ideias acerca a)das multiplicidades dos seres unos. Contudo, a temática apresentou a existência hierárquica dos seres unos a partir da causa primeira (Uno) criadora e promotora da realidade incorpórea e corpórea. O efeito de sua ação se faz mais forte quanto mais distante está de seu Ser Puro. A distância, conforme o modo de ser de cada coisa, gera a multiplicidade dos seres unos, enquanto a proximidade identifica os seres primeiros um no outro.
Causa Primeira- Inteligência- Alma




DAS MULTIPLICIDADES DOS SERES UNOS

Conforme a tradução de Jan Gerard Joseph ter Reegen, do Liber de Causis, “A primeira das coisas criadas é o ser e antes dele não existe outra coisa criada.” (REEGEN, 2000, p.100). Assim, o que identifica uma das coisas no seu grau mais elevado é o seu ser. Ele está acima das demais coisas, como a sensibilidade, a alma e a inteligência, pois está no seu grau mais elevado. Ele deriva da causa primeira, que é indescritível e está além de toda compreensão direta da possibilidade de conhecimento. O ser faz um percurso de toda realidade que existe tanto na eternidade como abaixo dela. Ele é superior a todas as coisas e se faz presente nelas pelos diversos graus e disposição de cada coisa, conforme a disposição de proximidade ou afastamento da causa primeira. Neste sentido ele está distribuído em cada coisa a tal ponto de cada coisa ter o seu ser próprio[1].
A causa primeira é concebida como Ser Puro, que está antes da eternidade (Cf. Ibid., p.96).  Ela concebe o ser a todas as demais coisas que estão em nível inferior. Um dos primeiros ser criado é a Inteligência. Esta é a causa da Alma, pois é a partir da Inteligência como intermediaria que nasce a Alma. E por meio desta que surgem os demais seres temporais e mutáveis. 
Á cada coisa é concebida um ser de modo particular e de uma formaespecífica, conforme sua disposição de proximidade e distanciamento do ser puro, também definido como bondade, ou Uno.  Os seres unos são os que estão em estado máximo de proximidade com a causa primeira. Eles participam[2] fortemente do seu princípio gerador. Assim, de modo hierárquico, quanto mais próximo do Uno, os seres se tornam únicos, e universais, a tal ponto de serem um só, uma totalidade única. Mas quanto mais distantes do uno, mais diversidades e multiplicidades de seres vão se imprimindo[3] em quantidade maiores e universalidade menores.
Neste sentido, os seres unos, ou superiores, estão distribuídos na ordem hierárquica, acima da eternidade, com a eternidade, ou depois desta e acima do tempo. Assim afirma o LdC:
20. O ser que é antes da eternidade é a causa primeira, porque é a causa da eternidade. 21. Mas o ser que é com a eternidade é a inteligência, porque ela é um ser secundário de modo uniforme, em consequência disso nem sofre nem é destruído. 22. O ser que é depois da eternidade e acima do tempo, é a alma, porque ela é a mais baixa no horizonte da eternidade e acima do tempo. (REEGEN, 2000, p. 96)
                Daí, apartir do ser puro há uma criação dos demais seres unos. O primeiro ser criado é a inteligência. Ele é simples e um, porém também é múltiplo, pelo fato de ser composto de finito e infinito. As formas inteligíveis que ele compõe são universais, porém há uma distribuição hierárquica conforme as formas inteligíveis. Daí, de acordo com a proximidade e distanciamento da causa primeira, as formas inteligíveis são universais e simples, quando próxima do Uno, ou múltiplas e infinitas quando distantes do Uno. Dessa forma é que o ser da inteligência é diversificado. Essas modificações tornam as formas inteligíveis diferentes e diversificadas, provendo indivíduos infinitos em número. Porém, a diversificação das formas inteligíveis não implica na separação, pois elas estão no âmbito da eternidade[4]. Ou seja, elas são unidas de tal forma que não há corrupção, nem disjunção, pois são unidades dotadas de multiplicidades e a multiplicidade dotada de unidade, na eternidade.
O ser que está depois da eternidade e acima do tempo é a Alma. Esta está abaixo da Inteligência e é o efeito da mesma. A alma foi criada por intermédio da inteligência[5] (Cf. Ibid., p.116). Porém a inteligência não cria, mas gere, governa e mantem as coisas inferiores a ela, haja vista, a alma, dentre outros seres, que não necessariamente são unos. Da mesma forma de a proximidade e afastamento da do ser Puro, há a variação entre almas superiores e inferiores. Sabendo que as superiores estão mais unidas com a Causa primeira, pela inteligência, pois esta está no primeiro plano da criação. A alma tem uma universalidade semelhante à inteligência. O grau de diversidade e multiplicidade da alma é análogo ao da inteligência, porém o ser da alma tem uma atividade própria e essencial, característica do seu modo de ser e das perfeições recebidas da causa primeira pela causa segunda: a inteligência.  A variedade de almas se dá pelo estado do grau de distância e aproximação do ser puro, daí as almas superiores estão mais próxima do uno, enquanto que as almas inferiores estão mais distantes. As almas superiores transmitem as formas e perfeições da causa primeira, pela inteligência, para as almas inferiores, porém cada apreensão[6], ou impressão, recebida está limitada pelo modo de ser, pela forma e pela essencialidade de cada alma. A causa primeira cria o ser da alma assim como os diversos seres, daí, o motivo da alma ter um ser próprio e diferencial conforme o distanciamento da causa primeira. A operação da alma está de acordo com seu modo de ser e dependente[7] da inteligência (ser superior a ela), daí existe uma produção de seres a partir da inteligência que é o primeiro ser, porém não o ser absoluto, chamado de Uno.
As almas superiores seguem a inteligência, elas são completas, perfeitas e pouco inclinadas à queda e à separação. Dessa forma elas recebem a impressão da Inteligência. O que ela recebe é fixo e estável e seu movimento é uno, estável e contínuo. Já as almas inferiores, seguem os seres mais baixos, por esse motivo elas são inferiores as almas superiores. Tudo no mundo[8] é explicado pela alma que move os seres inferiores a ela, porém não é sua origem fundamental.
Ela tanto tem a operação de conhecer o que está acima dela, de um modo particular, próprio e essencial seu, como produzir o movimento das almas inferiores, além de se automovimentar, e dos demais seres. Dessa forma os seres que são unos, por estarem na eternidade e acima do tempo, assim o são por estarem perto da causa primeira e receberem uma força maior que os seres inferiores, contingentes, corruptíveis, particulares e infinitos em quantidade. A sua multiplicidade se dá pelo fato de em cada ser (Inteligência, Alma) receber uma diversidade de formas e perfeições da causa primeira. Assim quanto mais próximo os seres unos se encontram do Ser Puro, mais efeito dele recebe e mais se aproxima da unidade em menores quantidades, enquanto que quanto mais distante do Uno, mais vem à tona a multiplicidade que se apresenta nas diversidades das unidades, que quanto mais se multiplicam, mas se tornam particulares e mais se tornam infinita em número. A multiplicidade se dá pela relação de finitude e infinitude e pela distribuição hierárquica das formas inferiores e em menor grau dos seres unos.
Em suma, todos os seres são criados pela causa primeira chamada de ser puro, bondade e bem puro, dentre outras denominações. Ele cria as demais coisas e nelas contém algo do Ser Puro, porém esse algo é parcial e particular, conforme a forma e perfeição do modo de ser de cada coisa. Os seres criados são, pela hierarquia e graus de distância da causa primeira, a Inteligência, a Alma e os demais seres. A Inteligência é coextensiva com a eternidade, ela é um dos seres unos que está na eternidade. A baixo da eternidade e em grau inferior de causalidade, porém dependente da inteligência, como mediação do Ser Puro, está a Alma. Ela está acima do tempo, porém abaixo da eternidade. Ela é a força que produz as coisas sensíveis. Porém, tem um modo de ser próprio, assim como a Inteligência, e é por meio da alma, que chegamos aos demais seres inferiores que estão no tempo, ou abaixo do tempo.   Tanto na Inteligência como na Alma existe uma diversidade de formas e modos de perfeição. As formas mais universais e limitadas estão mais próximas do Uno, neste sentido estão mais próximas do efeito, enquanto que as menos universais, e menos perfeitas estão mais distantes. Dessa forma se dá a diversidade e multiplicidade de seres tanto da inteligência como da alma. Eles são unos porque estão mais próximos da causa primeira e são múltiplos pela variação em graus e formas que se apresentam em torno da causa primeira. O uno e o múltiplo não estão separados, pois não estão na condição temporal, mas tanto está acima do tempo (alma) como está na eternidade (inteligência). 


REFERÊNCIA

?. O livro das causas: liber de causis/ Tradução e Introdução de Jan Gerard Joseph ter Reegen, - Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. 172p.; ( Coleção Filosofia, 107)



[1] Esse ser próprio de cada coisa pode ser caracterizado como a essência de cada ser como se apresente na proposição XIV, número 124.
[2] A ideia de participação está no sentido que: no ser de cada coisa criada, pelo Ser Puro, contém algo que provem da causa primeira. Neste sentido há uma relação de participação, não de identidade, mas de compartilhamento de algo parcial que está em seu sentido infinito totalitário na causa suprema.
[3] No sentido de transmitir aquilo que está em sua essência para outro ser, só que o que é transmitido é originário da causa primeira. E o que se transmite, fez faz pelo modo essencial de cada ser e pela capacidade de cada ser a que é transmitido.
[4] Vale ressaltar que o ser da inteligência é coextensivo com a eternidade, daí o fato da inteligência compartilhar do mesmo espaço (não no sentido temporal) da eternidade.
[5] A princípio tem-se a impressão que as coisas (ou seres) que são criadas (os) dependem a princípio do ser primeiro (Inteligência) para existirem. Daí o fator da mediação da inteligência que liga os demais seres ao Ser Puro, porém, após a efetivação dos seres, ou seja, após sua produção, não existem mais dependênciatanto da causa anterior a cada ser, como da segunda causa para que cada ser se mantenha. Essa noção se dá pela tentativa de compreensão da relação entre as causas, sendo que a causa primeira mantém o seu efeito sobre o efeito da causa segunda, mesmo que a causa segunda se separe do seu afeito, como expressa a proposição I, número 4 e 5. 
[6] No sentido do que ela recebe, ou seja, as impressões que o seu ser recebe do seu ser causador.
[7] No sentido de que a alma é o efeito da Inteligência, produzida por intermédio da Inteligência. Mas, não se pode a Inteligência ser causa (origem existencial) da Alma.
[8] Aqui a definição de mundo está nas coisas criadas no tempo e abaixo dele.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Filosofia da Educação na História.


Isaias Mendes Barbosa


Com base nos escritos sobre filosofia antiga e medial do escritor Geovane Reale, dentre outros escritos e pesquisas filosófica, pretende-se na seguinte exposição apresentar algumas considerações acerca dos filósofos e escolas filosóficas que tratara acerca do conceito de Educação, a saber, Platão, os Sofistas, os Medievais, Kant, Hegel, Michel Foucalt e a escola de Frankfurt.

·         Sofistas

Esse termo foi tratado de certa forma preconceituosa na história da filosofia em referência aos sábios da arte do saber. Aderindo a tradição platónica, comumente esse termo foi designado referente àqueles que, fazendo o uso de raciocínios capcioso, busca, por um lado, enfraquecer e ofuscar o verdadeiro e, por outro, reforçar o falso, revestindo-o das aparências do verdadeiro. Platão, no livro Xenofonte,os designou como prostitutos do saber, que vendia o conhecimento a que lhe paga-se mais. O livro Os sofistas de Platão trata bem sobre esses filósofos e sobre a natureza do seu saber. Seus representantes são Protágoras, Górgias, dentre outros. Pode-se dizer que é a partir desses filósofos que surge a definição moderna de professor, ou educador, pois os sofistas eram sábios da arte do saber que percorria as redondezas da Grécia a fim trocar o conhecimento por dinheiro ou bens. Pode-se inferir que essa atividade, além que vai além de uma interpretação superficial, era um veículo de subsistência desses sábios, uma vez que eles não tinham outro modo de sobreviver se não vendendo o que possuía: a arte do saber. Essa arte do argumento persuasivo é o destaque que marca os sofistas enquanto retóricos. Sua finalidade era produzir argumentos ou inferências que convencesse o outro acerca de uma da doxa. Desse modo, que mais ofertava dinheiro ou bens para eles eram os que possuíam o argumento mais convincente. Esse tipo de arte argumentativa é também definida como argumento falacioso, pois não se refere a uma verdade, mas ao convencimento acerca de uma opinião.

·         Platão

Platão também conhecido como sofista, era o filósofo que criticava a posição filosófico-argumentativo dos Sofistas. Ele é o filósofo que trata sobre questões metafísicas acerca dos seres, da realidade ontológica, do cosmo, e a cidade. O livro da República e o Timeu é o livro que aborda sobre o sistema de sociedade civil pautada sob uma realidade ideal, do mundo supra-sensível. A partir dessa filosofia metafísica, Platão descreve uma cidade ideal onde cada cidadão é regido ou deve se exercer conforme sua natureza específica e conforme sua posição social. Desse modo, no campo do plausível, Platão descreve como se constituiu essa cidade, que um dia fora a antiga Atlântica, e como se deu a forma de orientação de cada membro. Nessa cidade ideal o filósofo é a pessoa mais capacitada para governar a cidade. Um dos discípulos de Platão foi Aristóteles, este desenvolveu sua filosofia com base na filosofia de seu mestre Platão.

·         Medievais

O principal representante referencial que temos dos medievais é Santo Tomas de Aquino. Este conhecendo alguns escritos de Aristóteles desenvolve uma nova compreensão do mundo interligado a um Deus como fundante de toda realidade, as visíveis e invisíveis. Em relação ao argumento e a educação medieval, pode-se dizer que as universidades abordavam em suas discussões acadêmicas de acordo com o método escolástico. No final do século VIII e início do século IX, o imperador Carlos Magno, mostra que o objetivo maior é a reforma da vida eclesiástica e em consequência disso o sistema de ensino, cria-se então a escola palatina, está visa a fusão e difusão de estudos, a reestruturação e a fundação de escolas catedraticas e paroquiais, de nível elementar. O conteúdo era o estudo clássicos das sete artes liberais, as disciplinas presentes era a gramática, retórica e a dialética, no ensino superior era a geometria, aritmética, astronomia e música. Com a modificação no sistema educacional surgem às escolas seculares, daí, o ensino passa a ter a necessidade de aprender a ler, escrever e calcular. As universidades surgem com um ensino mais superior, como esta aumenta a sua importância,os reis e a igreja disputavam seu controle, ela se torna o centro de fermentação intelectual,sua atividade docente é desenvolvida conforme o método da Escolástica, baseada no lésio e no disputátio.

·         Emmanuel Kant

Com Emmanuel Kant temos uma nova configuração tanto epistemológica como metodológica. Sua filosofia é característica de uma crítica radical ao pensamento metafísico, que se desenvolveu do período medieval. E a qualquer pensamento que defina a essência das coisas, que ele denomina de ‘coisa em si’.  A filosofia denominada de Criticismo kantiano é uma produção de um novo foco de observação na perspectiva do pensamento, afim de mudar de curso a reflexão filosófica e toda forma de conhecimento antigo. Antes no período medieval se tinha uma filosofia que firmava apreender a essência de todas as coisas, e chegava a uma verdade evidente do conhecimento. O ponto forte estava no argumento com base em inferências e na argumentação lógica nas disputas.
Com Emmanuel Kant essa filosofia antiga é quebrada e entra em novo relevo uma possibilidade de conhecimento que está atrelada as condições do conhecimento, ao indivíduo como ser que configura os dados da realidade e nesta desenvolve uma formatação que a caracteriza. Daí sua filosofia denominada de transcendental foca o sujeito como ser que a define por categorias do entendimento.
Para ele, a ciência verdadeira, ou seja, o conhecimento científico é aquele que parte de uma síntese a priori, do indivíduo como receptáculo, formador e ordenador da realidade externa que se apresenta a ele. Ou seja, a realidade exterior (a posteriori) é vazia de significados, são dados desordenados que não me indicam nada. O sujeito, por sua vez, é a força motriz (a priori) que apreende o fenômeno, a quilo que se apresenta a ele, e o define pelas categorias espaço e tempo, dentre outras que implica em um entendimento e um juízo.  Dessa forma toda filosofia que se preocupava com o objeto e tentava o definir a partir do mesmo, fez o caminho errado, pois tentar entender o objeto e sua parte essencial é o maior erro que se pode cometer, uma vez que a realidade em si não é captável ao homem pelo sentido da razão. Então, o avanço de Kant está em determinar o conhecimento a partir de categorias a priori do indivíduo. 
Para Kant o conhecimento se caracteriza em duas partes: o sensível e inteligível. O primeiro se refere as coisas que estão no exterior pela qual o homem capta. Esse processo é denominado de intuitivo, pois nele se tem uma apreensão de dados imediatos e não pensados. O segundo é denominado pela capacidade, representar, de ordenar e organizar as intuições apreendidas na experiência. Nele está as categorias a priori que determina pelas formas internas, no espaço e tempo, os conceito sobre o fenômeno e ao mesmo tempo o juízo sobre o mesmo.
Daí, vemos que o conhecimento referente ao sensível está no exterior do indivíduo, é sua realidade enquanto apresentação ao sujeito, essa realidade é denominada de a posteriori, enquanto que o conhecimento inteligível está relacionado ao indivíduo, enquanto ser que apreende o fenômeno e intelige sobre o mesmo. Este aspecto faz parte do a priori. Contudo o a priori se relaciona com o a posteriori. Pelo envolvimento entre os dois é que o homem pode definir sua realidade, ou implantar um juízo.
No homem existe a categoria espaço e tempo, que são modos pelo qual o capta sensivelmente as coisas. O conhecimento sensível conta de um juízo universal e necessário. Porém existe três tipos de juízo: analítico, sintético e sintético a priori. O analítico se dá pela premissa em que o predicado nada acrescenta ao sujeito, mas apenas explana o conteúdo que se encontra no mesmo, Já o juízo sintético se forma pela premissa que aumenta a característica do sujeito, concedendo-lhe algo que ele ainda não tinha, portanto esse juízo é denominado de sintético. O terceiro e mais importante é o juízo sintético a priori. Pois este se refere as categorias que estão no indivíduo e o ponto pelo qual o entendimento é ativado.
E é através do juízo sintético que é constatado o conhecimento científico. Portanto este é o mais importante para Kant e é por meio deste que a aritmética, a geometria, a matemática e a física chegou é pelo caminho de um conhecimento verdadeiro.
Com isso a filosofia de Kant tem como base fundamental três obras que caracterizam sinteticamente o seu pensamento: a Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica da Faculdade de Jugar (1790). Tais obras correspondem respectivamente às condições de possibilidade do conhecimento, a moral antropológica como práxis do indivíduo racionalista e, por fim, o juízo categórico que medeia às representações de mundo e a ação moral. Crítica, conhecimento, razão, juízo, e prática constituem os cinco termos que são fundamentais na filosofia kantiana.
Na sua obra Sobre a Pedagogia, resultado de um curso ministrado entre 1776/77, 1783/84, por Kant na Universidade de Königsberg, e publicado pelo seu discípulo Theodor Rint em 1803, um anos antes da morte de Kant, aborda princípios e conselhos práticos acerca da arte de educar. Neste sentido, o conceito de educação está entrelaçado com a concepção de moral kantiana. A obra é dividida em Introdução, Sobre a educação Física e Sobre a educação Prática. No sentido geral ela trata do sujeito moral como o elemento principal da educação, pois ele desde sua nutris necessita de cuidados e orientações para se chegar à condição de homem e cidadão: a moralidade. Contudo, o processo educacional não se efetiva no sujeito de modo fechado e pronto, mas faz parte de uma continuidade, progresso e construção da própria humanidade. O imperativo categórico passa a ser a base da moral educacional em Kant e seu ponto culminante é o reino dos fins do homem: a importância da dignidade e valoração do homem que caminha para sua perfeição como ser naturalmente possuidor de uma razão. 
A obra Sobre a Pedagogia de Emmanuel Kant faz parte de uma reflexão breve e sucinta acerca da arte de educar. O sistema filosófico kantiano está embasado como percurso fundamental e essencial na racionalidade. Daí com o conceito de educação não poderia ser diferente a abordagem do homem como ser que ressalta sua dignidade e sua valoração com base em um processo de desenvolvimento, perfeição e moralidade pela educação. Portanto, moralidade e educação fazem parte de um projeto que se interrelacionam e se articulam na promoção do homem para sua humanização.
Para uma compreensão geral da relação entre homem e educação em Sobre a Pedagogia é fundamental observar o homem em dois graus de desenvolvimento humano e um fim a que se fundamenta a sua natureza. O primeiro se encontra na Introdução da obra e diz respeito ao primeiro estágio do homem: o infantil. O segundo é o de juventude, ou adolescência. A finalidade que faz parte do desenvolvimento do homem como ser que tem a capacidade de se autodeterminar e inserir-se nas relações sociais de uma determinada sociedade como cidadão, é o de homem como tal, ou seja, o estágio autônomo de humanização.  

·         Georg Wilhelm Friedrich Hegel

Georg Wilhelm Friedrich Hegel é considerado um dos filósofos que constitui uma das filosofias mais completas e complexas que já existiu. A dialética é a base para se compreender seu sistema filosófico. Para ele o mundo como realidade é um desdobramento progressivo de uma espiritualidade racional chamada de espírito absoluto, ou razão, esta se exprime conscientemente na natureza do homem, em sua consciência. Sua obra filosófica introdutória é a Fenomenologia do Espírito. Ela aborda o progresso da consciência que segue seu processo de totalização. Segundo Hegel a sociedade segue esse processo dialético. Nesse sentido, as civilizações são consideradas as diversas manifestações desse espírito, sendo a Europeia a mais evoluída. 

·         Karl Marx

Os Manuscritos econômicos- filosóficos (1844), conhecidos também como Manuscritos de Paris, e o Capital, a sua obra mais completa, representam uma das expressões fundamentais do pensamento marxiano . Nele Marx abordar os momentos de sua crítica à economia política clássica, na qual Adam Smith e Ricardo são seus maiores representantes, e ao idealismo hegeliano, contrapondo este com as ideias materialistas Feuerbachiana. Tais obras apresentam as contradições do sistema econômico político burguês de sua época, ou seja, o sistema capitalista, que parte de pressupostos, não fundamentados nem explicados como a propriedade privada, o seu processo material e suas leis, a distinção entre trabalho e capital, capital e terra, lucro, mais-valia, teoria valor-trabalho, dentre outras categorias Desse modo, ele aborda também as consequências caóticas desse sistema que tanto mantem a propriedade privada, a divisão de classes, como promove o trabalho explorado e a alienação do homem. Suas obras não são propriamente em relação à educação, porém tem vários seguidores, como Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Leo Löwenthal, Erich Fromm,  de sua lógica critico marxista que aborda seu método dialético-histórico no viés educacional-político. Desse modo, pode-se dizer que a crítica fornecida ao sistema educacional nas universidades envolve as questões sociais e o sistema econômico de nossa sociedade. Assim, as estruturas condicionam o homem a alienação também no seu sistema de formação educacional.
A marca de destaque de abordagem das obras de Marx é a concepção no sistema de produção capitalista e de estranhamento tanto nas relações sociaisde produção como no próprio processo de produção, seja de sua atividade produtiva, de sua relação com a natureza e de sua espécie, ou seja, do seu ser genérico. Isso ocorre, nesse sentido, quando o homem, no trabalho e nas suas relações sociais de produção, está subordinado ao sistema capitalista, que retira dele o fruto de sua produção, o conhecimento e domínio da natureza na sua produção, e, consequentemente, o aliena a si mesmo. A alienação no trabalho acontece de tal modo que tanto na relação do homem com a natureza, do homem com seu trabalho e com sua espécie há uma dependência e estranhamento e ao mesmo tempo, a negação da própria natureza humana, pois o que move o seu agir não é mais sua autonomia, sua vontade autodeterminante e subjetiva, o seu caráter humano de criar-se e produzir-se conforme sua liberdade e potencialidade, mas as leis que regem o sistema em função da produção de capital. Desse modo, Marx identifica que o trabalho dentro do sistema capitalista condiciona o homem a alienação, no seu grau mais elevado, e o objetifica diante da máquina e o torna uma ferramenta, ou seja, uma mercadoria.  Abortando, assim, o seu processo de emancipação humana, de continuidade genérica de seu ser.

·         Escola de Frankfurt

A Escola de Frankfurt (1924), considera-se a quinta etapa atravessada pela filosofia alemã, depois de Kant e Hegel, em primeiro momento, de Karl Marx e Friedrich Engels, em seguida; posteriormente por Nietzsche, finalizando,no século XX, após a eclosão dos pensamentos existencialista de Heidegger, da fenomenologia de Husserl e da ontologia de Hartmann. A produção filosófica germânica permaneceu viva no Ocidente, com todo vigor, de 1850 a 1950, quando então não mais resistiu, depois de enfrentar duas Guerras Mundiais.
Ela segue a tradição socialista de caráter marxista, que se uniram no fim da década de 20. Estes intelectuais cultivavam a conhecida Teoria Crítica da Sociedade. Seus principais integrantes eram Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Leo Löwenthal, Erich Fromm, Jürgen Habermas, entre outros. Esta corrente foi a responsável pela disseminação de expressões como ‘indústria cultural’ e ‘cultura de massa’.
A Escola de Frankfurt foi criada por Félix Weil, financiador do grupo, Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse, que a princípio a administraram conjuntamente. Ernst Bloch e o psicólogo Erich Fromm acompanhavam à distância o despertar desta linha filosófica, que vem à luz justamente em um momento de agitação política e econômica vivido pela Alemanha, no auge da famosa República de Weimar. Seus membros seriam partícipes e observadores das principais mutações que convulsionariam a Europa durante a Primeira Guerra Mundial, seguida por outros movimentos subversivos, dos quais ninguém sairia impune.

Fonte de pesquisa

BARBOSA, Isaias Mendes.O CONCEITO DE ALIENAÇÃO EM KARL MARX. Artigo apresentado na XII SEMANA DE FILOSOFIA DA UECE e II ENCONTRO DE GRUPOS DE PESQUISA EM FILOSOFIA DA UECE - DE 30 DE SETEMBRO A 04 DE OUTUBRO.
BARBOSA, Isaias Mendes. CONCEITO DE CONSCIÊNCIA E CONHECIMENTO –DE- SI EM HEGEL.Artigo produzido e apresentado na disciplina de História da Filosofia IV.
BARBOSA, Isaias Mendes. SOBRE A PEDAGOGIA KANTIANA: A EDUCAÇÃO COMO FUNDAMENTO DA MORALIDADE NO HOMEM. Artigo apresentado no III SEMINÁRIO DEFILOSOFIA NO ENSINO FUNDAMENTAL E MEDIO DA UECE.
REALE, Giovanni. História da Filosofia: Do Humanismo a Kant. Paulinas, 1990, São Paulo.
REALE, Giovanni. Pré-socrático e Orfismo: História da Filosofia Grega e Romana. Vol.I. Edições Loyola, São Paulo, 1993.
REALE, Giovanni. Platão:História da Filosofia Grega e Romana. Vol.III. Edições Loyola, São Paulo, 2007.

SANTANA, Ana Lucia.Escola de Frankfurt. Artigo Disponível no site http://www.infoescola.com/filosofia/escola-de-frankfurt/. Acesso: 07 de outubro de 2013.

Uma articulação entre os textos de Marx e Gramsci

1   
A obra Sobre Textos Sobre Educação e Ensino de Karl Marx e Friedrich Engels constitui um conjunto de textos que, no calor do século XIX, tratam do sistema capitalista e suas implicações ao sistema educacional precedente.  Não se trata de um sistema filosófico sobre a educação e o ensino, mas pontos do pensamento crítico-histórico-materialista de Marx sobre o Ensinoe suas questões de vínculo cultural, social e político. De outro modo, a obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura de Antonio Gramsci apresenta um aparato sobre os intelectuais e suas relações político-sociais na modernidade. Ele trata também sobre os intelectuais no aspecto da cultura e da escola. Deste modo, a sua obra apresenta elementos de conexões e desconexões com a referida obra de Marx. Na presente pesquisa, com base no capítulo 42, da referida obra de Marx Sobre a educação, e no capítulo II (:a organização da cultura) da obra de Gramsci, pretendesse fazer um relação entre os dois pensadores modernos e as conexões de suas ideias.
As duas obras apresentam conexões precisas com três conceitos fundamentais: Cultura, Educação e Trabalho. Esses três conceitos giram em torno do pensamento de cada autor. Neste sentido tanto Marx como Gramsci destacam a relevância da Cultura (Ideológica?) e do Trabalhos sobre o modelo educacional na Modernidade.
Para os dois pensadores o sistema educacional precisa passar por mudanças. Na visão de Marx isso acontece pela mudança das condições sócias, quando o sujeito consciente de si e de sua práxis luta para mudar as estruturas opressoras ou alienantes da educação. Alienação é outro conceito que está implícito nos dois autores. Segundo Marx a divisão do trabalho reduziu a atividade do homem e, portanto, a limitou sua consciência social. Essa debilidade não só se realizou no campo psicológico, nas funções cognitivas humanas, mas no próprio domínio de sua atividade. O trabalho ficou dividido conforme o interesse do grupo social dominante. Enquanto que os intelectuais pensavam, ou seja, exercia o trabalho intelectual, os operários só trabalhavam, ou seja, exerciam o trabalho prático.Deste modo foi se dividindo em partes menores e se fragmentando o trabalho. Do mesmo modo, no pensamento gramsciano a civilização moderna fragmentou seu modelo educacional, com suas especializações e separação entre escola clássica e profissional, conforme o interesse de grupos sociais dominantes. Assim tanto no sistema trabalhista como na educação o processo de divisão e fragmentação se realizou.  Gramsci apresenta essas mudanças na educação com mais detalhes. Neste sentido o pensamento gramsciano pode ser considerado como uma maturidade sobre a educação do pensamento marxista.
Marx apresenta como solução, do processo de alienação e divisão do trabalho, a luta e conquista pelo trabalho que falta aos operários: o trabalho intelectual. Deste modo o Governo Estatal não pode intervir no ensino. Ou seja, O governo não pode dizer como as escolas devem agir, o que e como elas devem ensina.Esse fazer caberia propriamente para comunidade local. Ou seja, quem está na práxis educativa é que deveria refletir e teorizar sobre o melhor modo e o que ensinar. Gramsci segue linha parecida quando afirma que a crise educacional “deveria seguir esta linha: escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual”. Esse tipo de escola única apresenta a pretensão de Marx sobre o sistema educacional da época.
Segundo a Carta de Marx “Os proudhonianos afirmam que o ensino gratuito é um absurdo, porto que o estado deve pagar. É evidente que um ou outro terá de pagar, porem não é necessário que sejam os que menos podem fazê-lo.” A manutenção financeira das escolas pelo Estado é também afirmada por Gramsci quando ele afirma que “A escola unitária requer que o Estado possa assumir s despesas que hoje estão a cargo da família, no que toca à manutenção dos escolares”.
A Carta apresenta a proposta que combina o trabalho intelectual com o físico, os exercícios físicos com a formação politécnica. E a formação politécnica não deveria ser articulada pelo determinismo da divisão do trabalho, que impede o conhecimento profundo do ofício aos aprendizes. Educação e vida social, cultural e política são pontuações que no pensamento de Mar ganham grande relevância. Do mesmo modo se apresenta a proposta de Gramsci sobre o ensino na educação acadêmica:
A organização acadêmica deverá ser reorganizada e vivificada de alto a baixo. Territorialmente, possuirá urna centralização de competências e de especializações: centros nacionais que se agregarão às grandes instituições existentes,seções regionais e provinciais e círculos locais urbanos e rurais.(...) Unificar os vários tipos de organização cultural existentes: academias, institutos de cultura, círculos filológicos, etc., (...) — a atividades ligadas á vida coletiva, ao mundoda produção e do trabalho.(Cf. GRAMSCI, 1982, p. 126)
A crítica de Marx se dá as escolas elementares que não autoriza as “disciplinas que admitem uma interpretação departido ou de classe. Nas escolas só se deve ensinar gramática,ciências naturais... As regras gramaticais não mudam, seja umconservador clerical ou um livre pensador que as ensine.”. Essa crítica se realiza ao sistema precário e manipulador do ensino que está determinado pelo sistema político-econômico, pela cultura dominante e pelos intelectuais, ou capitalistas opressores. Essa problemática precisa ser superada. Gramsci apresenta sobre o sistema educacional elienante que a sua “marca social ê dada pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio, destinado a perpetuar nestes grupos uma determinada funçãotradicional, diretiva ou instrumental. Se se quer destruir estatrama, portanto, deve-se evitar a multiplicação e graduaçãodos tipos de escola profissional, criando-se, ao contrário, umtipo único de escola preparatória (elementar-média) que conduza o jovem até os umbrais da escolha profissional, formando-o entrementes como pessoa capaz de pensar, de estudar,de dirigir ou de controlar quem dirige”.
Portanto, assim como em Marx, para Gramsci a escola tem uma função política, social e cultural. Ela está ligada ao trabalho e os interesses de classes, que ele chama de intelectuais, que precisa ser superado. As pinceladas sobre a educação marxista segue os ditames político e o movimento dialético da história, assim como apresenta Gramsci. Para Marx mudar a estrutura é um percurso da ação prática do ser humano e a educação pode promover isso, desde que o trabalhador vá para luta e conquiste seus direitos. De modo semelhante, para Gramsci a educação, com a escola única e ativa é a promotora e formadora social.

2.      Fontes bibliográficas

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich.Textos sobre Educação e Ensino.Campinas, SP: Navegando, 2011.

GRAMSCI, Antonio.Os Intelectuaise a Organizaçãoda Cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 4.ª Edição.Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1982.