quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Uma articulação entre os textos de Marx e Gramsci

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A obra Sobre Textos Sobre Educação e Ensino de Karl Marx e Friedrich Engels constitui um conjunto de textos que, no calor do século XIX, tratam do sistema capitalista e suas implicações ao sistema educacional precedente.  Não se trata de um sistema filosófico sobre a educação e o ensino, mas pontos do pensamento crítico-histórico-materialista de Marx sobre o Ensinoe suas questões de vínculo cultural, social e político. De outro modo, a obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura de Antonio Gramsci apresenta um aparato sobre os intelectuais e suas relações político-sociais na modernidade. Ele trata também sobre os intelectuais no aspecto da cultura e da escola. Deste modo, a sua obra apresenta elementos de conexões e desconexões com a referida obra de Marx. Na presente pesquisa, com base no capítulo 42, da referida obra de Marx Sobre a educação, e no capítulo II (:a organização da cultura) da obra de Gramsci, pretendesse fazer um relação entre os dois pensadores modernos e as conexões de suas ideias.
As duas obras apresentam conexões precisas com três conceitos fundamentais: Cultura, Educação e Trabalho. Esses três conceitos giram em torno do pensamento de cada autor. Neste sentido tanto Marx como Gramsci destacam a relevância da Cultura (Ideológica?) e do Trabalhos sobre o modelo educacional na Modernidade.
Para os dois pensadores o sistema educacional precisa passar por mudanças. Na visão de Marx isso acontece pela mudança das condições sócias, quando o sujeito consciente de si e de sua práxis luta para mudar as estruturas opressoras ou alienantes da educação. Alienação é outro conceito que está implícito nos dois autores. Segundo Marx a divisão do trabalho reduziu a atividade do homem e, portanto, a limitou sua consciência social. Essa debilidade não só se realizou no campo psicológico, nas funções cognitivas humanas, mas no próprio domínio de sua atividade. O trabalho ficou dividido conforme o interesse do grupo social dominante. Enquanto que os intelectuais pensavam, ou seja, exercia o trabalho intelectual, os operários só trabalhavam, ou seja, exerciam o trabalho prático.Deste modo foi se dividindo em partes menores e se fragmentando o trabalho. Do mesmo modo, no pensamento gramsciano a civilização moderna fragmentou seu modelo educacional, com suas especializações e separação entre escola clássica e profissional, conforme o interesse de grupos sociais dominantes. Assim tanto no sistema trabalhista como na educação o processo de divisão e fragmentação se realizou.  Gramsci apresenta essas mudanças na educação com mais detalhes. Neste sentido o pensamento gramsciano pode ser considerado como uma maturidade sobre a educação do pensamento marxista.
Marx apresenta como solução, do processo de alienação e divisão do trabalho, a luta e conquista pelo trabalho que falta aos operários: o trabalho intelectual. Deste modo o Governo Estatal não pode intervir no ensino. Ou seja, O governo não pode dizer como as escolas devem agir, o que e como elas devem ensina.Esse fazer caberia propriamente para comunidade local. Ou seja, quem está na práxis educativa é que deveria refletir e teorizar sobre o melhor modo e o que ensinar. Gramsci segue linha parecida quando afirma que a crise educacional “deveria seguir esta linha: escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual”. Esse tipo de escola única apresenta a pretensão de Marx sobre o sistema educacional da época.
Segundo a Carta de Marx “Os proudhonianos afirmam que o ensino gratuito é um absurdo, porto que o estado deve pagar. É evidente que um ou outro terá de pagar, porem não é necessário que sejam os que menos podem fazê-lo.” A manutenção financeira das escolas pelo Estado é também afirmada por Gramsci quando ele afirma que “A escola unitária requer que o Estado possa assumir s despesas que hoje estão a cargo da família, no que toca à manutenção dos escolares”.
A Carta apresenta a proposta que combina o trabalho intelectual com o físico, os exercícios físicos com a formação politécnica. E a formação politécnica não deveria ser articulada pelo determinismo da divisão do trabalho, que impede o conhecimento profundo do ofício aos aprendizes. Educação e vida social, cultural e política são pontuações que no pensamento de Mar ganham grande relevância. Do mesmo modo se apresenta a proposta de Gramsci sobre o ensino na educação acadêmica:
A organização acadêmica deverá ser reorganizada e vivificada de alto a baixo. Territorialmente, possuirá urna centralização de competências e de especializações: centros nacionais que se agregarão às grandes instituições existentes,seções regionais e provinciais e círculos locais urbanos e rurais.(...) Unificar os vários tipos de organização cultural existentes: academias, institutos de cultura, círculos filológicos, etc., (...) — a atividades ligadas á vida coletiva, ao mundoda produção e do trabalho.(Cf. GRAMSCI, 1982, p. 126)
A crítica de Marx se dá as escolas elementares que não autoriza as “disciplinas que admitem uma interpretação departido ou de classe. Nas escolas só se deve ensinar gramática,ciências naturais... As regras gramaticais não mudam, seja umconservador clerical ou um livre pensador que as ensine.”. Essa crítica se realiza ao sistema precário e manipulador do ensino que está determinado pelo sistema político-econômico, pela cultura dominante e pelos intelectuais, ou capitalistas opressores. Essa problemática precisa ser superada. Gramsci apresenta sobre o sistema educacional elienante que a sua “marca social ê dada pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio, destinado a perpetuar nestes grupos uma determinada funçãotradicional, diretiva ou instrumental. Se se quer destruir estatrama, portanto, deve-se evitar a multiplicação e graduaçãodos tipos de escola profissional, criando-se, ao contrário, umtipo único de escola preparatória (elementar-média) que conduza o jovem até os umbrais da escolha profissional, formando-o entrementes como pessoa capaz de pensar, de estudar,de dirigir ou de controlar quem dirige”.
Portanto, assim como em Marx, para Gramsci a escola tem uma função política, social e cultural. Ela está ligada ao trabalho e os interesses de classes, que ele chama de intelectuais, que precisa ser superado. As pinceladas sobre a educação marxista segue os ditames político e o movimento dialético da história, assim como apresenta Gramsci. Para Marx mudar a estrutura é um percurso da ação prática do ser humano e a educação pode promover isso, desde que o trabalhador vá para luta e conquiste seus direitos. De modo semelhante, para Gramsci a educação, com a escola única e ativa é a promotora e formadora social.

2.      Fontes bibliográficas

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich.Textos sobre Educação e Ensino.Campinas, SP: Navegando, 2011.

GRAMSCI, Antonio.Os Intelectuaise a Organizaçãoda Cultura. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 4.ª Edição.Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro, 1982.

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