quinta-feira, 13 de junho de 2019

Mudanças, problemas, reformas e necessidade de lutar no Brasil que nos resta!

As mudanças realizadas pelo Presidente Jair Bolsonaro e sistema governamental, político-econômico, vêm interferindo drasticamente nas diversas esferas da vida cultural, profissional, social e política brasileira. As intervenções possuem uma justificação: uma mudança de presidência, governo e gestão político-social, uma “REFORMA” que é dita “necessária” para o “bem” do País “Verde e Amarelo” e das finanças públicas; para a libertação de um ideológico Brasil “Vermelho”. As medidas governamentais e políticas estão acontecendo: na reforma (cortes) da educação, no aumento dos impostos, na reforma trabalhista, na redução de benefícios econômicos de assistência social, no enfraquecimento dos movimentos sociais de luta indígena, feminista, LGBT e ecológica, dentre outros.
Os efeitos são danosos para a vida humana (dos mais pobres?), o nosso ecossistema brasileiro e seus biomas. Essas medidas interventivas possuem como “causa não dita” a manutenção de um Sistema insustentável de cinco dimensões que imperam hoje: (i) capitalista, industrial, mercantil exploratório; (ii) neocapitalista; (iii) do capital natural; (iv) de economia verde; (v) do ecossocialismo; (vi) do ecodesenvolvimento. A manutenção desse Sistema predominantemente lucrativo (empresarial, bancário e multinacional) insaciável está condicionando a implantação de Reformas. Mas gostaríamos de destacar a “Reforma” de emergente preocupação: a “reforma no sistema previdenciário”. Esta é realizada com a finalidade de se captar mais lucros e manter uma economia de Mercado acedente de uma minoria detentora de poder e capital. 
O caráter discursivo extremamente técnico e calculista sobre as mudanças necessária para a Previdência torna esta de difícil entendimento para a maioria da população. Boa parcela da população entende apenas o que está sendo “vendido” pela propaganda oficial e pelo noticiário: “A Reforma igualará ricos e pobres”, Ledo engano! Essa Reforma da Previdência será “sustentável e igualitária” apenas para o “Mercado financeiro”. E isso estar tentando ser realizado à custa do sacrifício da maioria da população brasileira: a classe trabalhadora, dentre outras. Há mentiras (de que a Reforma vai corrigir distorções, combater privilégios e tirar o país da crise econômica), há uma implantação do medo (se ela não sair, o país vai quebrar, transformar-se-á num caos), há manipulação mediática para obrigar a população a aceitar tal proposta no Congresso.
Nesse aspecto o Filósofo e Sociólogo Noam Chomsky (1928) nos ajuda a compreender esse processo de manipulação das massas. Ele escreveu sobre “as 10 Estratégias de Manipulação de Massas”. Delineando as dez estratégias, vamos refletir sobre a manipulação das massas – realizada pelo atual presidente e sua equipe apoiadora – a fim de implantar a “Reforma da Previdência”, dentre outras reformas que estão por vir. Isso está em risco de acontecer para a infelicidade da população brasileira, se esta não fizer algo, não mudar o curso desta e outras medidas interventivas: prejudiciais para a camada vulnerável e pobre do nosso país.
  A primeira estratégia é a da “Distração” que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, distrações e informações insignificantes. Na sociedade brasileira não houve um debate populacional, não houve espaços de diálogos, rodas de conversas e análise reflexiva acerca da Previdência, das propostas de Reforma. A PEC 06/2019 não está sobre o conhecimento da população, esta não sabe com propriedade o que significa a “Reforma” que se pretende implantar, o público não sabe os efeitos dessa proposta na sua vida. As informações midiáticas sobre “ideologia”, “contra o comunismo”, “contra a comunidade LGBT”, “a Escola sem Partido” e a “juventude que não se interesse pela política”, são meios que nos desviam da questão central: a mudança interventiva que sacrifica os mais pobres, penaliza as mulheres e os trabalhadores rurais, que pune as pessoas com deficiência.
A segunda estratégia é “Criar problemas, ou deixar que eles aconteçam, para depois oferecer soluções”. É o chamado “problema-reação-solução”. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos. O caso Marielle, os 200 tiros emitidos pela polícia contra o músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo (no Rio) e o novo decreto sobre o porte de arma são sinais concordantes com esta estratégia. A violência junto com o armamento são elementos principais para se criar problemas e se implantar uma Ditadura Militar que altere as leis conforme o Status Quo. Recentemente tivemos o corte no setor da educação. O ministro da educação disse: “nesta terça-feira (7), que se a reforma da Previdência for aprovada, pode voltar a liberar o dinheiro do orçamento de universidades federais”.
A terceira estratégia é “de Gradação”. Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Em curto prazo tivemos mudanças na “Reforma”. Algumas coisas foram tiradas – com muito custo da oposição – para minimizar seu efeito catastrófico na vida das pessoas. Porém, a decisão de manter a “Reforma” e captar lucros à custa do sacrifício do Trabalhador continua uma constante. Vale destacar: a “reforma já começou com os cortes que tivemos nos programas assistenciais que nos foram tirados”.
A quarta estratégia é “do Deferido”: apresentar a proposta reformista como sendo “dolorosa”, mas “necessária” para o bem do futuro. A justificação dessa imposição sacrificante é guardar recursos para que em 20 anos as despesas do Brasil tenham sido economizadas em 4,5 trilhões. É um sacrifício doloroso e necessário para um futuro promissor.
A quinta estratégia é “dirigir-se ao publico como crianças de baixa idade”. No dia 09 de maior Bolsonaro e o Ministro Abrão Weintraub usam chocolate para explicar os cortes nas Universidades. Isso e tratar o público social como crianças. No dia 30 de abril Bolsonaro chega a tratar os estudantes universitários negativamente como infantis: “A gente não vai cortar recurso por cortar. A ideia é investir na educação básica. Ouso dizer até que um número considerável não sabe sequer a tabuada. Sete vezes oito? Não vai sabe responder”. Os termos que Bolsonaro utiliza para com os estudantes de Universidade ou qualquer outra pessoa que estava nas manifestações são: "massa de manobra" e “inocente úteis”.
A sexta estratégia é “Utilizar o aspecto emocional”. Isso causa um curto circuito na análise racional e ao sentido crítico dos indivíduos. No dia 6 de setembro Bolsonaro é esfaqueado enquanto fazia a sua campanha em Juiz de Fora.  Isso lhe concedeu quantidade suficiente de voto para ser eleito presidente. Não foi uma reflexão crítica que lhe concebeu assumir a presidência, mas o aspecto emotivo. Uma semelhança falsa com Jesus crucificado injustamente. O debate nas redes nacionais entre Bolsonaro e seus adversários políticos não aconteceu. O testemunho de Michelle Bolsonaro sobre seu esposo (pessoa boa e generosa) tira de foco a principal questão: ele tem condições intelectuais e racionais para assumir o governo? Ele sabe o que fala quando afirma que a “Reforma” é um bem para a população?... O discurso veemente contra os chamados “inimigos vermelhos” desvirtuam a real questão: qual o benefício justo que a população trabalhadora terá com a “Reforma da Previdência”?, “para quem é esta reforma”?...
A sétima estratégia é “Manter o público na ignorância e na mediocridade”. É fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível. Em 26 de abril Bolsonaro diz que “o ministro da Educação, Abraham Weintraub, estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas)". Os cursos de grande reflexão crítica e política estão sendo suprimidos aos poucos. Isso é promover a falta de criticidade nas pessoas. Não é tão burra a afirmação de Bolsonaro sobre a juventude estudantil: “queremos uma garotada sem interesse na política”.
A oitava: “Estimular o público a ser complacente na mediocridade”. Fazer o público pensar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto. Em 9 de outubro Bolsonaro coloca seu adversário Fernando Haddad como criador do “Kit gay”. A informação influenciou a mentalidade das pessoas para não votarem em Haddad porque, segundo o Bolsonaro, Haddad estava promovendo a homossexualidade das crianças no sistema educativo. No dia 28 de abril o presidente publica o vídeo de uma aluna confrontando uma professora de gramática. Ele apoia a aluna e afirma: "Professor tem que ensinar e não doutrinar". O projeto Escola Sem Partido é uma coibição da diversidade de opiniões. Após Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil não foram nulas as manifestações de violência verbal, psíquica e até física contra pessoas que eram pobres, negras e homoafetivas.    
A nona estratégia é “Reforçar a autoculpabilidade”. Essa estratégia faz o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução! Os partidos e grupos sociais mais revolucionários no país estão passando por um processo de enfraquecimento. Em pronunciamento no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro culpou os governos do PT pela crise na Venezuela. O novo decreto de porte e utilização de armas será um ótimo motivo para acusar o próprio povo brasileiro de agressor e assassino.
Por último, a décima estratégia é “Conhecer melhor os indivíduos melhor do que eles se conhecem”. As estratégias que o atual presidente utilizou – para ser eleito e para dividir ainda mais o nosso país – foi usufruir no seu discurso de ideias que faziam parte do Senso Comum. Do que tal população estava suscetível para apoiar a sua candidatura e, por que não, seus projetos. Um povo afetivo precisa de razões afetivas (pena, misericórdia, simpatia, auto-identificação) para seguir tal pessoa. Assim está acontecendo com parte das massas no seu governo. O discurso de “fora PT” e “Comunismo” foi muito utilizado no seu governo até hoje. Parte da massa o apoiou por ele se posicionar contra os partidos de esquerda. Boa parte da população apoiou e apoia o governo de Bolsonaro por este oferecer ao povo “segurança” com os militares e armas. Agora todo o trabalho está em tentar persuadir o povo de que a Reforma da Previdência é uma coisa boa. Portanto, cremos que alguma semelhança com as medidas já tomadas pelo presidente e seus apoiadores, contra o povo trabalhador e os movimentos sociais e revolucionários, não é mera retórica, mas tentativa de manipulação de massa.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

MARIA LIBERTADORA: TRAÇOS MARIANOS NOS EVANGELHOS E SUA CONTRIBUIÇÃO TEOLÓGICA PARA A IGREJA LATINO-AMERICANA.



Introdução
É comum na piedade e devoção popular encontrar em Maria a figura exemplar de mãe, doce e compassiva, próxima de Deus e dos santos, tão alta em dignidade, piedade e intercessão, que recorremos a ela para nos ajudar nas nossas causas. Tal devoção cultual e veneração mariana estar em contraponto ou conflito com o desprezo ou desvalorização de certa camada protestante (evangélica e neopentecostal) pela mesma.
Porém, para além do devocionário popular, dos excessos de divinização mariana e de certa tradição maximalista acerca do valor de Maria na Igreja e na vida dos fiéis devotos, vamos nos deter, até certo ponto, sobre um novo rosto de Maria que emergiu na América Latina (da década de 60 em diante), influenciado pelos escritos bíblicos e pela realidade de injustiça, miséria e sofrimento da maioria do povo latino americano: os pobres. A nova concepção que se gestou de Maria no nosso continente (nos Estudos Bíblicos, nas Comunidades Eclesiais de Base e nos Movimentos Teológico-Revolucionários) atribui à Maria o predicado de “libertadora”. Essa orientação teológica é chamada de “Mariologia Latino-Americana”, mas poderíamos também chamá-la de “teologia mariana da libertação”.
Tal reflexão teológica revolucionária ajuda-nos hoje a ter uma fé cristã mais madura, pois percebe Maria (e com ela a nossa identidade de fé) fazendo parte do projeto da salvação cristã. Observamos Maria não com uma identidade angelical, divinizada e pós-pascal, como já se sustenta na Tradição (até certo ponto importante), mas com uma identidade humana-cristã. Marcada por lutas, conflitos e dificuldades reais, porém, totalmente comprometida com a salvação e libertação do Povo (de Israel), assim como de todos nós, na atual situação que estamos: de conflito, de violência, intolerância, discriminação, exploração, desigualdade e injustiça socioambiental.
Para explicitar o que pretendemos com essa identidade mariana e, com ela, a nossa identidade cristã, vamos primeiro nos deter sobre as características de Maria em parte dos escritos e contextos bíblicos (evangelhos). Por conseguinte vamos delinear a influencia libertadora mariana na teologia e práxis latino-americana.
1) CONTORNOS DE IDENTIDADE MARIANA LIBERTADORA NOS EVANGELHOS
Vale deixar claro que toda a dinâmica dos evangelhos está orientada para o mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo. Nessa dinâmica está a participação, identidade e presença de Maria.
a)   Maria no evangelista Marcos
O Evangelho de Marcos está subdividido em duas grandes partes. Na primeira (Mc 1,1-8,26) se situa os textos que fazem referência à Maria. Nesta parte observamos Jesus inaugurando o Reino de Deus (1,14ss), Reino de libertação, contra o anti-reino (1,16-45): de injustiça, de exclusão, de negação de Jesus e do projeto do Pai. 
Se na primeira parte há uma busca pela identidade de Jesus (8,27: quem dizem os homens que eu sou? ), na segunda parte temos a identidade dos que estão com Jesus: os seguidores (discípulos, apóstolos e nós). Os que se identificam com Jesus estão seguindo-o, como Simão e André (1,16s). O sofrimento e a renúncia fazem parte do seguimento (8,34). A expressão mais radical do seguimento é o serviço contínuo até a entrega da própria vida pelo Reino como indica Jesus: “começou a dizer o que estava para acontecer....o Filho do Homem será entregue ao chefes dos sacerdotes e aos escribas; eles o condenarão a morte...” (10,32-33).
A presença de Maria se encontra na passagem que fala sobre a família de Jesus a procura Dele (Mc 3,31-35). A identidade de Maria é a de “Mãe”, aquela que com sua família procura o Filho (Jesus). Porém, a questão familiar nuclear (parentesco sanguíneo de primeiro grau) não está em jogo, mas a questão polinuclear: a família ampliada, aquela que se situa na cultura parental do clã. Marcos apresenta que há um conflito entre a família nuclear e a família dos seguidores de Jesus.
Ao apresentar a concepção familiar na dinâmica comunitária cultural da época, Jesus apresenta o sentido teológico moral-social da identidade familiar cristã: “Eis minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de Deus”. Em Marcos (6,1s) Maria é Mãe a partir da filiação de Jesus: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria,...?” (6,3).  Porém, a família sanguínea de Jesus é colocada como “fora” da dinâmica do Reino, da adesão de Fé em Jesus como profeta (6,4). Enquanto os parentes de Jesus são caracterizados como incrédulos, nada pode ser afirmado sobre Maria, a não ser que ela estava no meio dos parentes e que não estava presente na hora da cruz. Fora disso, nada mais é possível afirmar dela.
b)   Maria no evangelista Mateus
Em Mateus Maria está incluída na narrativa da infância (Mt 1-2) e em alguns relatos da vida pública de Jesus.  O Evangelho tem a finalidade de apresentar ao leitor quem é o Cristo ressuscitado, em quem a comunidade crer e a quem esta quer seguir. Por esse foco Maria irá ser melhor compreendida.
Jesus é o “filho de Davi e Abraão” (1,1), portanto, é da geração de Israel. Se a tradição era descrever a geração de pai para filho ou filha (Mt 1,2:“Abrão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó”), Mateus dar mais importância à Maria, e não a José, ao tratar da geração de Jesus: “José o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo” (Mt 1,16).
Sem desmerecer José, observamos que Maria tanto faz parte da tradição de Israel (a vida de escravidão, luta e libertação), como também é a que acolhe em seu seio o Espírito Santo e é aquela que concebe (co-geradora?) de Jesus salvador, o Emanuel (Mt 1,18-23), o Messias, o “rei dos judeus”. Apesar de Jose ser um homem justo e bondoso, a relação de Maria com Jesus é de importância singular. Maria está implicada na ação do Espírito, na promessa do Salvador, na presença do “Deus conosco”, no encontro dos magos com Jesus (“viram o menino com Maria, sua mãe”) e na fuga para se livrar da morte (2,13).
Agora em Mateus (12,46-50; 13,53-58) a distância entre a família biológica de Jesus e a família de seus seguidores é diminuída. Não há oposição como em Marcos. Portanto, há uma abertura para identificação de Maria como aquela que faz a vontade do Pai (12,50).  Até aqui já é possível fazer uma ligação de Maria com a Trindade, pois ela está aberta para fazer a vontade do Pai, concebe o Filho e acolhe o Espírito.
c)    Maria no evangelista Lucas
O Evangelho de Lucas nos dá maior contribuição para a identidade mariana na dinâmica da realidade latino-americana. Pois no evangelista encontramos espaço para Maria como perfeita discípula e seguidora de Jesus. Para uma síntese distribuímos o Evangelho em oito blocos: i) a anunciação (Lc 1,26-38), ii) a visitação (Lc 1,39-45) e o Magnificat (Lc 1,46-55), iii) o nascimento e visita dos pastores (Lc 2,1-20), iv) a apresentação no templo (Lc 2,22-35), v) a vida oculta em Nazaré (Lc 2,39s e 2,51s), vi) o desencontro no templo (Lc 2,41-50), vii) a nova família (Lc 8,19s),  a mulher na multidão (Lc 11,27s) e viii) a preparação para pentecostes (At 1,14).
No primeiro bloco a identidade virginal de Maria (1,27) engloba a única e exclusiva ação de Deus. Ela está aberta a Alegria (Ave: Hairè) (1,28) messiânica (Zc2,14s; Sf 3,14-17) da promessa de Deus. É a contemplada (em quem habita o Espírito), o Senhor está com ela assim como esteve na vida de luta de Isaac (Gn 26,3.24), Jacó (Gn 28,15), Moisés (Ex 3,11s) e etc. Maria busca o sentido para as coisas (Lc 1,29), é questionadora (Lc 1,34), é profetiza que está a serviço de Deus (Lc 1,38), é decididamente comprometida e ativa com a missão de salvação divina (Lc 1,39).
No segundo bloco Maria supera a tradição patriarcalista de ser acolhida e saudar primeiro o dono da casa (Maria saudou Isabel e não Zacarias), é bendita junto com o filho Jesus (Lc 1,42), é bem-aventurada porque teve fé (1,45), ela produz o fruto pela fé e não será abandonada na promessa messiânica. No Magnificat Maria manifesta a grandeza do Senhor e exulta-O como Salvador. Deus olhou para a humilhação de sua serva (Lc 1,48) como olhou para o sofrimento do povo de Deus no Egito.
Todos a chamarão de feliz (bem-aventurada) pelo que Deus fez em seu favor. Maria é pobre de Deus, é dependente Dele. Porque Ele olhou para a sua humilhação. Maria exalta a Deus (“seu nome é santo”) e afirma profeticamente a justiça real e social de Deus: “agiu com força de seu braço, dispensou os homens de coração orgulhoso. Depôs poderosos de seus tronos, a humildes exaltou. Cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53).
Por fim, Maria retoma as esperanças de Israel concretizadas em Jesus: “Socorreu Israel, ser servo, lembrando de sua misericórdia – conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência , para sempre” (Lc 1,54).
No terceiro bloco Maria passa pelas exigências políticas do recenseamento e em Belém tem Jesus. Encobri-o de faixas e coloca-o numa manjedoura, pois não havia espaço apropriado (Lc 2,7). A situação indica a condição pobre da família de nazaré. Com a presença e fala dos pastores, Maria faz um discernimento interior sobre os acontecimentos (Lc 2,19.51).
No quarto bloco observamos Maria como mulher de fé, sempre no caminho para encontrar-se com Deus e conduzir os seus para Deus. Ela é mulher pobre e começa a ter consciência das intempéries da realidade, das fragilidades, dores e sofrimentos que irá passar por e com Jesus até se concretizar a salvação (Lc 2,29-35).
No quinto bloco situamos Maria como cumpridora da fé e lei de Deus. Mas ela está na periferia, ela é de uma região pobre: Nazaré. Ela é mãe educadora (2,51). No sexto bloco, ela passa pela condição humana de perde de vista Jesus durante o caminho (2,43-45), mas reencontra-o. Maria expressa às limitações existenciais de não compreender o projeto de Deus na sua plenitude (2,50), de reconhecer-se limitada no saber sobre o que Deus queria.
No sétimo bloco Maria quer ver Jesus. A identidade da família de Nazaré em Lucas segue a mesma dinâmica de Mt 3,31-35. Trata-se da identificação familiar como aquela que ouve “a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Em Lc 11,27 há uma exaltação privilegiada da mulher discípula que ouve e pratica a palavra de Deus no lugar daquela que é mãe de Jesus. Porém, o foco da questão está na dimensão da fé, prática da família de Deus e não uma identificação direta sobre Maria como bendita.
No oitavo bloco acentuamos em Maria a dimensão oracional e comunitária da fé, Ela é perseverante na oração e está inserida na comunidade crente que tem esperança. Ela está integrada com o projeto de concretização do Reino de Deus (At 1,14).
d)   Maria no evangelista João
O Evangelho de João está dividido em três partes: prólogo (1,1-18), livros dos sinais (1,19-12,50) e livro da exaltação (13-20). Maria está presente na segunda e terceira parte. É importante destacar que ela nunca é chamada pelo nome (Maria), mas por duas características importantes e já citadas: mãe e mulher. Um diferencial deste Evangelho é que Maria é chamada de “mãe do discípulo amado”. Aqui se situa sua ligação com toda a comunidade de fé, todo o povo de Deus.
Em Caná (Jo 2,1-12) Maria participa dos sinais de fé, da semana programática. Caná é o espaço privilegiado do começo da revelação de Jesus e da fé dos discípulos. A dinâmica da “glória” tem aproximação relacional com o êxodo/libertação do povo (Ex 10,1; Nm 14,11-22; Dt 7,19). Maria está inserida nessa dinâmica. Na dinâmica da realidade em que falta o vinho (visto como alegria), Maria faz um apelo.
Essa sensibilidade para com a realidade, a descoberta do que se falta para a felicidade da comunidade e a intervenção em favor da mesma é nota da identidade mariana.  A resistência da fé é outro elemento de tal mulher. A exigência da realidade, a intervenção da fé, o sinal de resposta divina e a maior adesão de fé marcam esse processo. O poder, a liderança, a inclusão e participação comunitária integram um caminho para Jesus e concretização do Reino de alegria plena e integral.
Diante da cruz, com o discípulo amado, Maria está integrada no caminho de glorificação do Filho Jesus (Jo 19,25-27). Diante do drama da injustiça e da morte do Filho, Maria está de Pé (Jo 19,25). É perseverante na fé frente ao drama da morte. Maria assume o discípulo amado (comunidade) (Jo 19,26) e este a acolhe como mãe e na comunidade (Jo 19,27).
MARIA LIBERTADORA: NA REALIDADE LATINO-AMERICANA
            A partir do Concílio Vaticano II tivemos nos documentos da Igreja novos desafios para interpretar a presença e importância de Maria na Doutrina Social da Igreja para além de um devocionismo, uma recitação de Rosário e uns relatos de aparições. A nova impostação mariana estava agora sendo refletida a partir da história da salvação e da eclesiologia. Esses dois espaços foram sendo o lugar da reflexão. Porém, mais duas orientações foram decisivas para a nova hermenêutica sobre Maria na América Latina: a retomada das fontes bíblicas, o diálogo com as novas ciências modernas e a contemporaneidade.
            Essas orientações contribuíram para o estatuto epistemológico da mariologia no continente das histórias injustas e com a latente figura materna de Maria na centralidade da fé. Porém, decididamente com as aparições de Guadalupe em 1531 começa na Igreja latina a florescer a figura de Maria associada à Libertação a partir de novas perspectivas antropológicas e sociais.
Daí começou-se a observar em Maria a identidade feminina e de “Mulher” comprometida com a história deste povo (de Deus e do povo latino-americano). Nesse primeiro passo encontramos a relevância da identidade de Maria como Mulher já sinalizada no final do evangelho joanino (19,26) e em partes do evangelho mateano (1,20). A identidade feminina marial tem sua contribuição advinda dos novos sujeitos teológicos (a irrupção da mulher na teologia), das emergentes correntes teológicas (feministas) e das acentuações no campo pastoral e eclesial (a participação e comprometimento feminino nas igrejas, ministérios e lideranças) da América Latina. A emergente mariologia privilegiou uma releitura das Escrituras na dinâmica da práxis libertadora, mas com certo respeito da Tradição e da devoção eclesial à Mãe de Jesus.
Assim, iniciou-se uma maior identificação de Maria com as situações de sofrimentos, dor, desamparo e pobreza do povo. Com ela o Evangelho tornou-se mais encarnado. Sua primeira contribuição foi: a recuperação da voz das mulheres e a escuta dos clamores femininos por libertação, frente à realidade patriarcal, androcêntrica, sexista e discriminatória da mulher. Em tal situação encontramos a inspiração teologal da sensibilidade, resistência e práxis libertadora mariana no evangelista joanino (2,3). De igual modo a liderança, missionariedade e evangelização feminina (Maria faz parte desse processo) encontra sua inspiração bíblica na experiência com o ressuscitado no final dos escritos joaninos.
 Na teologia feminina libertadora a mariologia supera a visão ideologizada de ocultamento e submissão, presente na Tradição, por uma concepção revolucionária de justiça, corporeidade e maternidade na participação co-geradora de um mundo novo em Cristo. Tal concepção é desvelada pela participação e concepção de Maria no evangelho mateano (1,15-16).
A mariologia libertadora assume a causa dos pobres como reflexão bíblica a partir do olhar latino-americano. Trata-se da identificação de Maria com a condição, vida, identidade e esperança do pobre, no evangelho lucano (1,46-50; 1,26; 2,12; 2,24; 7,18-23) e mateano (Lc 2,6). No Magnificat (Lc 1,46-50) Maria é arquétipo da Igreja latino-americana: chamada a identificar-se com os povos sofridos e empobrecidos dessas nações; a maternidade de Maria em relação ao filho Jesus, identifica-a como mãe daqueles a quem Jesus quis si identificar (os pobres), dai o fundamento de Maria ser mãe do Filho de Deus e Mãe dos Pobres, referência cristã na teologia da Igreja por libertação.
BIBLIOGRAFIA
A BÍBLIA de Jerusalém. Nova ed. rev. São Paulo: Paulinas, 1985. 
DORADO, Antonio González. De Maríra conquistadora a María libertadora: mariologia popular latino-americana. Guevara: Editorial Sal Terrae, 1988.
MURAD, Afonso Tadeu. Maria, toda de Deus e tão humana: compêndio de mariologia. São Paulo: Paulinas, Santuário. 2012.
MURAD, Afonso Tadeu. Quem é essa mulher: Maria na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1996.
SILVA, João Justino de Medeiros. Pneumatologia e mariologia no horizonte teológico latino-americano.Roma: Pontifícia Universidade Gregoriana, 2003.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Grito Profético contra o crime de Brumadinho

No dia 22 de fevereiro na Igreja São José (paróquia redentorista do centro de BH) aconteceu o grito profético dos religiosos contra o crime humano e ambiental que se deu em Brumadinho – MG, pela multinacional empresa mineradora Vale (composta por uma corporação de apoiadores, políticos e empresarios). Há três anos do rompimento da Barragem de Mariana (5/11/15), (que matou pelo menos 19 pessoas, destruiu o povoado de Bento Rodrigues, destruiu matas, nascentes, córregos e toda a biodiversidade do Rio Doce e sua foz no Atlântico,) agora tal tragédia se repete, porém com danos maiores para a população e o meio ambiente.
Cerca de 500 pessoas (dentre estas, pobres, povo de rua, desconhecidos) tiveram suas vidas ceifadas pelos dejetos; as famílias sofrendo tamanha dor com os que foram soterrados; a cidade com toda a sua riqueza sociocultural foi destruída; o rio Paraopeba morto, está contaminado e com número zero de diversidade aquática; o povo indígena Pataxós foi prejudicado pelo crime ambiental.
O desejo de lucro a qualquer custo, a corrupção fiscal, as negociações políticas e empresariais para o rico empreendimento da Vale fizeram com que ela fechasse os olhos para esse grande mal e pecado socioambiental, pecado este que poderia ter sido evitado. Mas não: a Vale  continuou comprando os políticos, os fiscais, a imprensa e mentindo nos congressos e reuniões de responsabilidade ambiental. O resultado foi catastrófico para a biodiversidade da região e população de Brumadinho.  Essa irresponsabilidade exige Justiça.
Se no caso de Mariana a empresa transferiu todos os seus bens para outra empresa, antes da imposição fiscal, e, por conseguinte, não indenizou os atingidos, não entregou as casas prometidas, não pagou um tostão das multas; na contemporânea situação os mesmo não pode acontecer. Precisamos pressionar nossos governantes para que tal crime não fique impune. Algumas promessas estão sendo encaminhadas (doação de 100 mil e liberação do FGTS para cada família), mas isso nunca pagará as vidas humanas e ecológicas que foram apagadas da existência.  O chamado a consciência ética é o grande apelativo de Deus para com esse crime: “Que fizestes? A voz do sangue do teu irmão, desde o solo, clama a mim!” (Gn 4,10).
Diante deste fato, os religiosos não pretendem deixar esquecida na história esse evento trágico, e muito menos deixar de gritar e exigir do Estado (dependente das grandes empresas) e dos governantes (ligados ao agronegócio, acionistas, projetista e investidores comerciais) leis mais rígidas frente à falta de limite empresarial capitalista. A população não pode se calar. Os envolvidos não podem ser esquecidos e muitos menos ficar impunes.
A proposta de flexibilidade nas leis ambientais (presente no governo de Bolsonaro (PSL), Pimentel (PT) e Zema (PN), dentre outros) está acontecendo e precisa de um basta! Não podemos ficar calados e muito menos imobilizados diante dessa situação. Por isso, que a Igreja São José foi no dia 22 deste mês um espaço que dava voz aos religiosos profetas, aos excluídos indígenas e a todas as pessoas de boa vontade.
Infelizmente há muita desinformação. Muita gente não sabe que atualmente há mais de 24 mil barragens voltadas a diversas finalidades em todo o território nacional, 790 delas são destinadas a rejeitos de mineração. E existem ao todo 31 órgãos que abarcam 154 funcionários para fiscalizarem todas essas barragens (Agencia Nacional das Águas). O governo, dando liberdade irresponsável às empresas para incrementar a atividade criminosa, estabelece que: a fiscalização deve ser exercida pela própria empresa. Nada garante que a fiscalização é de fato efetivada com eticidade. Falta transparência nas decisões políticas: no ano passado (11/12), em reunião com os órgãos de Secretaria do Meio Ambiente, a empresa declarou que a barragem era segura.
Urge fazermos alguma coisa para refrear os crimes que vem acontecendo. É preciso “parar” as atividades mineradoras e fazer uma fiscalização séria e transparente sob a real situação das barragens; é preciso investir em projetos que sejam sustentáveis, isto é, vise o bem comum, e não destrua a vida no planeta por causa de lucro; é preciso ir a luta, assumir os espaços de crise socioambiental e denunciar as injustiças cometidas contra a população e principalmente contra os fragilizados e excluídos da sociedade: os pobres, os indígenas, o ecossistema, a mãe Terra; é preciso medidas éticas, sociais e políticas de preservação social e ambiental.

sábado, 27 de outubro de 2018

Sustentabilidade: uma definição integradora para a Ecoteologia.


Isaias Mendes Barbosa, CSsR.
A Ecoteologia trata da inter-relação, interdependência, ou comunhão integral entre todos os seres – bióticos e abióticos – quem fazem parte do nosso planeta. Ela se situa no âmbito científico, ético, antropológico e ambiental, porém, inspirada na e a partir da fé cristã, sabedoria bíblico-religiosa, da Tradição e Doutrina eclesial.
Todavia, Sustentabilidade se classifica como outro termo (substantivado ou adjetivado) relevante para Ecoteologia no âmbito ético, político e ecológico, na relação transitiva e dialogal dentre a fé cristã, a comunidade de vida e humana que permeia o nosso ecossistema planetário. Ora, os governantes, as empresas e os meios de comunicação midiáticos não poucas vezes se apropriam de tal termo nas propagandas de marketing, sem saber ou desvirtuando o real e profundo significado de Sustentabilidade (BOFF, 2012, p.9).
O problema não está somente numa definição conceitual inapropriada, mas também na forma como ela é utilizada para iludir, inebriar o público alvo (a população), a fim de que este continue a consumir produtos ou apõe projetos que pouco ou nada têm haver com a Sustentabilidade no sentido original e essencial do termo.
Diante do falacioso uso do termo, da incoerência conceitual e prática dos modelos atuais de economia e política socioambiental, pretendemos apresentar onde está o problema sobre tais modelos – até então definidos como sustentáveis – e sobre os problemas de sua prática social na contemporaneidade. Por conseguinte, esboçamos uma definição integradora do referido termo em relação com as diversas dimensões da esfera humana e da comunidade de vida, assim como destacamos suscintamente a relevância dessas colocações para a Ecoteologia.
O Teólogo Leonardo Boff na obra “Sustentabilidade: O que é. O que não é” analisa criticamente os seis modelos atuais de Sustentabilidade utilizados pelos governos e empresários. O primeiro modelo (padrão de desenvolvimento sustentável) classificou-se como capitalista, industrial, mercantil exploratório. Os efeitos de tal modelo na política e prática empresarial foi a exploração da Terra, a produção de desigualdade humana, a pobreza e a miséria. O consumo e exploração constante dos bens naturais, que eram limitados, geraram a degradação ambiental e o desrespeito ao ritmo de desenvolvimento da natureza. O desenvolvimento sustentável viável, justo e ambientalmente correto não aconteceu, portanto, se classificou insustentável (BOFF, 2012, p.41-44).
O segundo modelo (neocapitalista) aceitou as regulações do Estado, mas deixou o Mercado livre para seguir sua lógica concorrencial. Isso gerou tensão e desequilíbrio na sociedade estadunidense. Daí continuou-se a extração dos insumos da natureza e criou-se uma perversa desigualdade social (BOFF, 2012, p.51-52). O terceiro modelo (do capital natural), contraditório no uso do termo, pretendeu incorporar ao processo econômico os fluxos biológicos. A finalidade era potencializar a natureza, por diversos meios técnicos, químicos e naturais, para que ela produzisse mais. Tais ações geraram reposição de recursos naturais, mas para fins econômicos em detrimento da dignidade, valor e ritmo que a natureza possuia em si mesma (BOFF, 2012, p.52-52).
O quarto modelo (de economia verde) que integra ecologia e economia de forma harmoniosa, pretendeu auxiliar os pobres e pequenos agricultores com os meios técnicos, sementes e créditos. Tentou-se uma redução da poluição ambiental por diversos meios. Porém, a mudança prevista não alterou os padrões de consumo e nem esclareceu sobre os meios (éticos ou não) para a produção “verde” e os efeitos agressivos ambientais de tais atividades. Nesse modelo a desigualdade não foi minimizada pela sua raiz social e cultural (BOFF, 2012, p.53-55).
O quinto modelo (ecossocialismo), ainda não concretizado, visou uma produção respeitosa da dinâmica da natureza e promoveu a economia humanitária fundada nos direitos e nos princípios éticos fundamentais humanos. Mas tal proposta está encerrada no antigo paradigma não relacional entre o humano, a terra e o universo (BOFF, 2012, p.56-57), tal modelo teve as limitações do fechamento da sustentabilidade exclusivamente antropológica. O sexto modelo (do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia) subdividido em três expressões trata a) do decrescimento econômico; b) combina economia, ecologia, democracia, justiça, inclusão e equidade social; c) e busca uma democracia econômica na qual o crescimento deveria ser sustentável, suficiente, eficiente e equânime. Porém, tal modelo até agora não apresentou a força argumentativa da nova cosmologia e da ecologia da transformação (BOFF, 2012, p.60-61).
Em síntese Boff apresenta a razão ética de sua critica aos modelos políticos e empresariais de sustentabilidade:
Em conclusão podemos dizer: pouco importa a concepção que tivemos de sustentabilidade, a ideia motora é esta: não é correto, não é justo nem ético que, ao buscarmos os meios para a nossa subsistência, dilapidemos a natureza, destruamos biomas, envenenemos os solos, contaminemos as aguas, poluamos os ares e destruamos o sutil equilíbrio do Sistema Terra e do Sistema Vida. (BOFF, 2012, p.64)
            Se tais modelos apresentados demostram uma errada compreensão ou ilusória ideia sobre o termo Sustentabilidade, isso se dá por diversos motivos dentre os quais se destaca o sistema econômico, técnico e político vigente que se motiva a busca livre e irrefreável do capital acima de tudo e de todos, assim como tais lideranças políticas, empresariais e governamentais criam projetos, partem de “ideologias” ou pressupostos que pouco ou quase nada tem haver com o significado mais substantivo de Sustentabilidade e das dimensões que tal termo engloba ao pensamos no Bem Comum.
Neste sentido a compreensão e práxis do dito termo não alcançaram sua extensão e definição conceitual indicada por Boff: sustentar, segurar por baixo, suportar, servir de ancora, impedir que caia, impedir a ruína e a queda. Para Boff a compreensão prévia para uma definição original e eticamente necessária de Sustentabilidade se refere a tudo o que fizermos para que um ecossistema e a sua biodiversidade não decaia e se arruíne. Neste sentido se enfatiza o acréscimo de termos ou sentidos que fazem parte do mesmo campo semântico de Sustentabilidade: o conservar, o manter, o proteger, o nutrir, o alimentar, o fazer prosperar, o subsistir, o viver, o conservar-se sempre à mesma altura e conservar-se sempre bem (BOFF, 2012, p.31). “Estes sentidos são visados quando falamos hoje em dia de sustentabilidade, seja no universo, da Terra, dos ecossistemas e também de inteiras comunidades e sociedades: que continuem vivas e se conservem bem” (BOFF, 2012, p.32).
A partir da constatação do que não se denominou como sustentável nos projetos e ações governamentais e empresariais, vamos em busca de uma definição mais clarificada de tal termo. Ela deve abranger as relações entre os diversos setores de intervenção humana no sentido positivo do termo, assim com deve se relacionar com os âmbitos observados na Ecoteologia: cosmologia, antropologia, ética, ecologia. Neste sentido Boff nos atenta para alguns elementos presentes na história recente do conceito de Sustentabilidade. Ele sustenta que a preocupação do termo partiu da silvicultura, com o manejo das florestas, mas se originou conceitualmente na Alemanha. Se no início a questão estava relacionada com a preservação da floresta, pela limitação de corte para o consumo humano e produção de carvão mineral (BOFF, 2012, p.34-35), ao longo do tempo outras questões forma somando-se e se relacionando ao termo.
A preocupação de manutenção dos bens naturais para as futuras gerações, a limitação ou refreamento do crescimento económico, a radicação da pobreza, dos padrões desiguais de vida, a saúde do sistema ambiental, a reciclagem dos resíduos naturais, a busca por energia renovável (alternativa), a conservação da biodiversidade e a interdependências entre todos os seres, foram elementos ou questões que ampliaram e somaram-se na definição de Sustentabilidade e na busca de efetivação do termo nos programas de diversos países para a manutenção, o desenvolvimento e bem estar equitativo da vida humana e planetária.
Dois pressupostos são fundamentais para uma definição integradora de Sustentabilidade, a saber: o cosmológico e o antropológico.  O primeiro se reporta a “visão geral do universo, da Terra, da vida e do ser humano que serve de orientação para as pessoas e para a sociedade” (BOFF, 2012, p.77). Essa visão engloba a cosmogênese, o processo evolutivo e interdependente de todos os seres. Trata-se de um sistema aberto e em processo de transformação, harmonia, adaptação e etc. O universo é visto como um todo, a massa e a matéria são equivalentes, e na matéria está a informação como o resultado da interação entre todos os seres.
O segundo pressuposto, não sem relação com o primeiro, apresenta a gênese humana. O processo evolutivo complexo – de interiorização e interdependência – se transformou e nele surgiu à complexidade mais sofisticada da vida, a vida humana. Da interioridade surge o sistema nervoso central e um cérebro humano. Aqui desponta a consciência, a inteligência, a espontaneidade e a liberdade; a espiritualidade, a cordialidade, o cuidado e a vulnerabilidade (BOFF, 2012, p.82-83). Antropologia e cosmologia se integram e se relacionam como pressuposto da Sustentabilidade. Daí Boff apresenta uma definição integradora:
Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando sua continuidade e ainda atender as necessidades da geração presente e das futuras, de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução. (BOFF, 2012, p.107)
As condições favoráveis da existência de todos os seres é a base que dar sentido ao emprego do termo. Desde o processo da cosmogênese e da biogênese que se observa o processo evolutivo e transformador dos seres pela conjugação de elementos energéticos, informacionais e físico-químicos. É o fundamento de tudo e passo inicial para que os diversos seres que compõe a comunidade de vida e vida humana subsistam e se conservem enquanto tal (BOFF, 2012, p. 107).
A sustentação vital de todos os seres supera o paradigma antropocêntrico moderno (estrito) que exerce a objetivação ou coisificação instrumental da comunidade de vida planetária e cósmica. Isso significa que independente da funcionalidade utilitarista e capitalista, a biodiversidade, todos os seres bióticos e abióticos que participam do nosso habitat são importantes para a Sustentabilidade.
Por outro lado, a Terra é mais do que um instrumento de extração e captação de bens, é uma célula viva que se autorregula, sofre, regenera-se, evolui. É a base de subsistências da comunidade de vida e vida humana. Da Mãe Terra sai todas as demais formas de vida e conservação dos seres. O meio ambiente é espaço basilar da nossa existência. Somos interdependentes. Sem essa cadeia ou rede de vida a existência fica fadada ao fracasso (BOFF, 2012, p.108). A comunidade de vida forma os biomas e a biodiversidade para a continuidade da vida no planeta.
Neste o ser humano habita e participa da rede de vida e se destaca por ser o ser mais complexo e portador de consciência, sensibilidade, inteligência, amor e cuidado para garantir a continuidade da vida e civilidade humana, além de possuir a liberdade de intervir positivamente ou destrutivamente na natureza, no ecossistema e na espécie humana. A continuidade se dá pela fonte originária de todo ser e pelo processo de autocriação e expansão do universo vital. A assistência das necessidades humanas faz parte desse processo de Sustentabilidade da vida em todas as suas formas, pois são os recursos emergenciais que o Cosmo e a Terra nos oferece (BOFF, 2012, 109).
A conservação da nova geração além das que continuarão a nossa é condicionada pela relação de sinergia e cooperação com a terra e distribuição equitativa dos bens e serviços. A solidariedade e o direito de condições favoráveis de existência são os percursos de preservação das novas gerações. A comunidade de vida, por sua vez, é recoberta na Sustentabilidade como espaço para a vida e convivência do ser humano. Porém, não se tem cuidado, subsistência e conservação sem a capacidade de conservar o capital natural para ser entregue as gerações futuras (BOFF, 2012, p.109).
Ora, até aqui constatamos que a Sustentabilidade é de grande contributo para a Ecoteologia porque amplia e relaciona de modo profundo e integral a dimensão antropológica e a cosmológica. Neste sentido, há uma interdependência, ligação, relação, interação entre os diversos temas ou questões tratadas na Ecoteologia. O vínculo dos seres humanos com os demais seres que compõem a nossa Casa Comum e a visão planetária como um sistema complexo, inter-relacional e em constante auto-criatividade, transformação e evolução.
As questões da degradação humana e do meio ambiente tem o respaldo da Ética Humana Ambiental, do cuidado humano com a Casa Comum e da ligação dos seres humanos com os demais seres que compõe no nosso sistema planetário. Isso tanto é observado na Ecoteologia como na compreensão integrante da Sustentabilidade. Todavia, assim como na Ecoteologia, aquela se dedica a resgada o valor de todos os seres, independente de utilidade comercial e capital.
Ao ser tratado como pertencente às diversas esferas da vida humana e existência planetária, a Sustentabilidade se relaciona com as questões da pobreza, da desigualdade, da exploração comercial e capital, da degradação ambiental, da destruição do nosso ecossistema planetário e do próprio gênero humano. Neste sentido há uma aproximação muito grande entre Sustentabilidade e Ecoteologia. Pois tais questões se cruzam e se complementam na hora de se observar a vida nas suas variações de formas pelo princípio holístico. O respaldo que aquela dá sobre as questões da ecologia, da cosmogêneses, da antropologia humana, da economia, é enriquecedor na Ecoteologia, pois amplia as pesquisas e formas de pensar relacional e interdependentemente.
O processo sustentável desenvolvimento concede uma maior explicação sobre a evolução de todos os seres, isso serve como complemento para a dimensão teologal do dia da criação e da doutrina social da Igreja. Por fim, as questões éticas pertinentes a continuidade da geração presente e futura contribui na Ecoteologia para uma visão mais histórico-social-imanente da escatologia.   

Ecoteologia: o que é, que método usa e que temas trabalha?

Isaias Mendes Barbosa, CSsR.
            Ao falarmos de teologia estamos tratando de um tipo de conhecimento ou saber que deriva da fé cristã, mas se distingue desta porque apresenta formas, linguagens e métodos próprios, mais articulados e elaborados para descrever a vida, a compreensão e a forma de práxis do ser cristão. Sobre essa distinção entre fé cristã e teologia, Murad (2016, p.207) nos ajuda a compreender que a fé, é intuitiva, sensitiva, comparativa, expressa por analogias e aproximações das situações do cotidiano. Não elaborada categoricamente, a fé cristã faz parte da vida simples ou do sentido comum dos crentes, é um dom divino.
Já a teologia é discursiva, racional, ela elabora os dados da fé, das sagradas escrituras e da tradição eclesial, em busca de maior clareza sobre a vida e missão do cristão. É uma ciência com um rigor reflexivo, pois dá razão àquilo que cremos (fé), esperamos (esperança) e praticamos (caridade). A teologia está voltada para a luz da fé revelada para compreender o mundo, a vontade de Deus e responder evangelicamente às exigências da realidade. Apesar desta distinção, tanto a fé cristã como a teologia se implicam, pois a teologia é a reflexão sobre a fé cristã ou a partir dela. Elas partem de objetos indispensáveis ao saber e vida cristã: Deus, a Revelação e autocomunicação de Deus na história, e relação de Deus com a Comunidade (humana) crente e a realidade vivenciada. Todavia fica a questão: o que é Ecoteologia? Qual sua relação com a teologia e a fé cristã? O que diferencia a Ecoteologia dessas duas formas de saber?
A Ecoteologia é uma saber ou ciência que deriva da teologia, é parte desta. É um tipo de teologia cristã que partilha de elementos constitutivos da ciência da fé, porém com um diferencial, dentre outros: “consiste em pensar a fé no horizonte da consciência planetária. Essa se caracteriza como a (re)descoberta de que o mundo torna-se um todo, o ser humano è membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável” (MURAD, 2016, p.211).
A Ecoteologia trata de questões que relaciona a humanidade com a sua práxis e a realidade planetária que a cerca. É um saber de relação, de interconectividade, de intercambio e interdependência com tudo e em momentos variados. Assim, três âmbitos fazem parte das questões inter-relacionais da Ecoteologia: a ciência da interdependência do todos os seres, a ética do cuidado com o planeta e o paradigma pós-antropocêntrico (MURAD, 2016, p.212). Ela amplia a visão e consciência humana para além de um antropocentrismo, ou visão tradicional antropológica. Situa o ser humano na relação com os outros seres abióticos (solo, ar, energia solar) e bióticos (micro-organismos, plantas e animais) da nossa esfera planetária.
Apesar da Ecoteologia tratar de questões ou temas que pertencem à teologia como a fé, a revelação, o homem, a ética, os escritos bíblicos, a tradição, a experiência religiosa cristã, ela tem uma singularidade quanto ao método, a linguagem e ao conteúdo. Há um rompimento da separação tradicional entre corpo e alma, sujeito e objeto, realidade humana e realidade da natureza, é um saber que promove a integralidade nas relações entre os seres que compõe o nosso ecossistema. Não há uma redução metodológica conceitual como na teologia tradicional, mas também uma combinação de símbolos e imagens para tratar das questões ou realidade teológica.
Ela combina elementos que aparentemente não possuem nenhuma relação entre si, como a sabedoria da terra e a sabedoria humana, a degradação ambiental e a mobilidade humana, o aquecimento global e a economia, o bem estar humano e o cuidado com o planeta, revelação divina e o nosso ecossistema, a crise ambiental e a fragilidade do pobre. O método “combina vários acessos à comunhão da criação: tradição, experiência, ciência, sabedoria, dedução, intuição” (MURAD, 2016, p.216).
Se a teologia é uma prática teórica que considera o saber hermenêutico pré-teológico – como a filosofia, a literatura, a arqueologia, a medicina e a sociologia – para aprimorar ou amadurecer sua compreensão e posicionamento ético (não fundamentalista ou dogmático) sobre a realidade, a Ecoteologia, por sua vez, serve-se de outros saberes ou ciências (sociais e ambientais) – como a história, a economia, a agroecologia, o ecodesign, a engenharia civil e arquitetura sustentável, a geografia, a ecologia e o estudo dos solos, dentre outros – para sua postura moral ecológica cristã fundamental sobre a realidade relacional humana e ambiental integral. Para além de um discurso eclesial ou magisterial, da tradição bíblica ou das verdades reveladas da fé cristã, a Ecoteologia pensa a realidade humana, ambiental, planetária, social, estrutural, cultural e política á luz da fé. Ela tem uma função crítica, construtiva e se insere no movimento de continuidade, rupturas e avanços da teologia contemporânea:
[...] Não alimenta a ilusão de ser a grande chave hermenêutica para reconfigurar toda teologia. Tampouco é um pequeno setor, que se ocupa somente de questões ambientais ou da teologia da criação. Consiste em uma perspectiva, um enfoque, que permite reorganizar dados da fé, inferir, dialogar e aprofundar. Ela influencia a produção da teologia ao colocar perguntas decisivas no momento de realizar o intellectus fidei, a mediação hermenêutica própria ente teológica, que utiliza a Bíblia e a Tradição eclesial, sensível aos “Sinais dos Tempos” (MURAD, 2016, p.222).
            A Ecoteologia pode tratar dos mesmos temas, elementos ou referencial teórico da teologia. Todavia, o seu diferencial está em contribuir ou ampliar o patrimônio vivo do saber teológico contemporâneo e poder avançar nas reflexões em diferentes áreas disciplinares até então pouco ou quase nada exploradas. Para exemplifica, sustentamos que a Ecoteologia ora trabalha, ora recebe contribuição teológica sobre diversos temas.
O tema da Terra é focado numa visão cristã sobre o ser humano em relação com a natureza e Deus. Aqui o princípio cosmogênico de complexificação, interiorização/diferenciação e inter-relacionalidade se constitui como fundamental; o tema antropológico da Graça apresenta uma perspectiva cristã antropológica em relação com o processo evolutivo da matéria e história do cosmos. Há uma reflexão sobre a graça original e o pecado no horizonte evolutivo; observamos o tema do mistério de Deus sobre a relação una e trinitária de Deus conosco. Essa comunhão fundamenta a biodiversidade e a diversidade humana, a prioridade da cooperação e interdependência de todos os seres;
A Cristologia acentua o Cristo glorificado, aquele que é Palavra criadora, primogênito de toda criatura, o Cristo cósmico; na Pneumatologia a Ecoteologia acentua a função do Espírito Santo que cria, conserva, renova e consuma o projeto de Deus, atuando no crente, na Igreja e no universo; a Ética tem como conteúdo a conservação e continuidade da vida em toda sua extensão, a Ética do cuidado; a Teologia bíblica trás para a Ecoteologia a questão da criação e salvação, louvor, compromisso histórico, a sabedoria, a ética, o profetismo e etc, numa unidade integral; o tema dos estudos patrísticos resgata as intuições dos primeiros séculos referentes à ecologia e a relação do pecado, encarnação e redenção de Cristo na natureza. Por fim acentuamos:
[...], a ecoteologia trata de temas explicitamente ecológicos, em âmbito prático, para ajudar os cristãos a constituir uma sociedade sustentável, viável. Por isso, assuntos como água, resíduos sólidos, política energética, biodiversidade, governança global, consumismo e consumo responsável, mobilidade urbana, uso do solo, qualidade do ar torna-se também matéria-prima para a ciência da fé, como ética teológica. Em dialogo com as ciências ambientais, compreende-se cada questão no contexto da biosfera. A pontam-se as causas diversas que levam a degradação do meio ambiente e do ser humano. (MURAD, 2016, p. 229)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Fé e Política



A e a Política sempre fizeram parte da vida do povo de Deus. No Antigo Testamento Moisés escreve os dez mandamentos para educar o povo na união com Deus (“Amar a Deus sobre todas as coisas”) e no compromisso de cuidado social do irmão (“não cobiçar as coisas alheias/ não levantar falso testemunho”), principalmente os mais abandonados: o órfão, a viúva, o migrante, o pobre.
Naquele tempo não havia separação entre Religião e Política. O profeta (o Ungido de Deus) era responsável para falar ao povo o que Deus queria, assim como tinha a obrigação de denunciar o Rei vigente (Saul, Salomão) quando este cometia injustiça para com o povo. A irresponsabilidade política era sempre condenada como o rompimento da “Aliança” de Deus. Pela boca do profeta Amós Deus denuncia os três crimes de Judá: “porque desprezaram a lei de Deus e não guardaram os seus mandamentos, tomando um caminho de mentiras” (Am 2,4). 
          Nos Evangelhos Jesus não é político, não se liga a nenhuma instância política do império romano, mas sua vida tem uma ação política que pode ser resumida em quatro posições: a) Jesus tinha uma visão realista da realidade: “‘sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam” (Mc 10,42); b) Jesus sabe que as autoridades políticas, apesar de serem importantes, não são deuses e nem podem assumir o lugar de Deus (“pois dêm a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 20); c) Jesus não nega o poder político ou função política de Pilatos, mas afirma que essa função é dada por Deus, e seu propósito deveria ser bom: “‘Não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto” (Jo 19,11); d) Jesus era livre (Jo 10,18) para decidir corretamente diante de qualquer realidade política.
        Ao longo da história a Igreja e o povo crente estiveram envolvidos com a Política. Na Idade Média a Igreja e Estado eram uma só coisa. As regras da fé eram adaptadas ou sintonizadas com as normas civis da vida política e social do povo. Para assumir um cargo político era preciso passar pelos sacramentos, pelos princípios cristãos do serviço e cuidado. Estes princípios deveriam ser praticados na política. Os ricos influenciavam e até decidiam sobre a Igreja (quem iria ser ordenado Presbítero, Bispo e até Papa) e a Igreja tinha parte nas decisões do Estado e do Império (Romano...).
Da Modernidade adiante, principalmente no Brasil, a Igreja se separou do Estado. Isso até certo ponto foi bom para que os interesses corruptos e injustos do Estado não interferissem na Igreja e na vida de boa vontade dos fieis. Porém, recentemente há nos membros da Igreja um distanciamento da política. A corrupção, a injustiça e diversos erros saltam aos nossos olhos e nos deixam sem motivação para assumir o compromisso cristão de praticar a fé na política, para o Bem Comum. Mesmo diante desses desafios, não podemos perder a esperança. Se o barco está defeituoso, isso quer dizer que pode ser consertado. Assim é com a Política. Depende de nós contribuir para concertar o barco defeituoso chamado Política. 
O Concílio Vaticano II afirmou que a Igreja e a Política deveriam agir para o Bem de todos. Isso acontece pela cooperação entre as duas instâncias de poder (GS, 1581). Segundo a doutrina eclesial: a educação civil e política, tão necessária hoje em dia, especialmente para os jovens, deve ser ministrada de modo a que todos possam exercer o seu papel na comunidade política. (1578). A participação política do cristão católico é uma exigência que faz parte da raiz essencial humana.
Todos os cidadãos (inclusive cristãos) têm a possibilidade de participar cada vez mais livre e efetivamente da Política, do governo das coisas públicas, das instituições e eleições de governantes. A Igreja considera digna de louvores e considerações às pessoas que se colocam a serviço dos outros, nas coisas públicas e assumindo os encargos (GS, 1573). A exceção está no corpo ministerial ordenado, a saber, o presbítero, o bispo e pontífice romano. Estes mesmo possuindo validade eclesial de uma ação política no exercício do ministério e podendo orientar os fieis cristãmente sobre a Política, não podem fazer parte da política, não podem se filiar a nenhum partido, não podem ser políticos.
Por fim, o Papa Francisco afirma na Cartilha de Orientação Política que “para o cristão, é uma obrigação envolver-se na política. Nós, cristãos, não podemos fazer como Pilatos: lavar as mãos. Não podemos! Devemos nos envolver na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política”.  Quando uma casa está pra cair, os donos correm e fazem alguma coisa. O nosso mundo é essa Casa Comum que está desabando com a corrupção Política, você vai ficar ai parado ou vai começar a arregaçar as mangas pra cuidar da nossa Casa Terra? Comece hoje......