quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A inspiração para um Natal ecológico e integral


Nos passos iniciais do Natal como celebração, festa e memorial litúrgico do nascimento de Jesus no mundo, somos impelidos ao compromisso ético, social e ecológico com a nossa casa comum e com os diversos seres que a habitam. Tal compromisso pode-se dizer que é ecoteológico, isto é: possui como fonte de inspiração o próprio mistério da fé cristã, mas a partir de uma perspectiva transversal, holística e integral do evento (da encarnação de) Jesus e do ethos ambiental e humano em que ele se insere.
Assim, na ótica ecoteológica vamos nos debruçar e refletir sobre as leituras da liturgia do dia 25 de dezembro de 2019, complementadas com outras, para sustentar a inspiração de um Natal que possa assumir merecidamente o predicado de ser ecológico, como espera-se que seja na espiritualidade e prática cristã atual. Vejamos as seguintes leituras: Primeira Leitura (Is 52,7-10), Responsório (Sl 97), Segunda Leitura (Hb 1,1-6) e Evangelho (Jo 1,1-18).
Na primeira leitura se evidencia o caráter essencial da fé cristã. No contexto do terceiro profeta Isaias, uma parcela significativa do povo Hebreu passa pelo drama existencial, regional e cultural do exílio e da escravidão. O drama tem como resposta a expectativa da vinda de alguém como salvador. Esse alguém vem trazer a paz, proclamar a boa nova e anunciar a salvação (Is 52,7).
Ora, a expectativa da salvação humana é o elemento essencial da fé cristã. Todavia, há um vínculo desta com a ecologia e com compromisso evangélico e social cristão. Como sustenta o teólogo Agenor Brighenti (2018, p.18): “Ecologia tem a ver com evangelização, com a missão da Igreja, com o serviço dos cristãos ao mundo; em resumo, ecologia tem a ver com salvação. Salvação não só do planeta, mas da própria humanidade”.
Apesar do texto bíblico não explicitar a terra (prometida?) e muito menos o planeta Terra como espaço necessitado de salvação, da presença de um salvador, podemos constatar que há um vínculo estreito e uma participação da terra com a salvação humana ,como o profeta infere: “Porque Deus consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém!... e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus” (Is 52, 9-10).
Neste sentido poderíamos dizer que o termo ‘extremidades da terra’ se referia aos povos todos que habitavam nas regiões circunvizinhas de Canaã e não a região terrestre ou ao sistema planetário. Bem, o texto fragmentado poderia nos conceber tal ideia superficial de extensão demográfica, mas juntando o texto do profeta com o salmo 97 somos levados a considerar a presença e vínculo da terra no projeto de salvação do povo de Deus. Assim diz o salmista: “Os confins da terra contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai a Deus, terra inteira, dai gritos de alegria” (Sl 97,3-4).
Daí, a concepção de terra como espaço de contemplação da salvação e como ser existencial  (vivo) que é exortado pelo profeta para aclama a Deus e dar gritos de alegria denota uma certa concepção judaica sobre a terra não como objeto inanimado e nem como matéria orgânica ou objeto de consumo humano, mas como um ser pertencente ao projeto criativo de Deus. Neste sentido, a linguagem configura a terra como criatura. Tal criatura, na ordem do criado, está vinculada e relacionada com a criação humana no livro do gênesis. Na concepção tradicional judaica a terra assume a função de ser “produtora de seres vivos” (Gn 1,24) e parte dela é utilizada para a criação humana.
Essa compreensão nos leva a considerar o vínculo relacional e interdependente entre os seres humanos e os demais seres. Nessa lógica faz sentido o que o teólogo Leonardo Boff diz simbolicamente: que “todos [os seres, incluindo nós,] entre si são parentes, primos e irmãos e irmãs” (BOFF, 2009, p. 25). Vale ressaltar que o vínculo do ser humano com os demais seres criados é tão fundamental no projeto salvífico que tal vínculo configura a compreensão de Deus tanto como Criador do mundo como também libertador ou salvador do seu povo. Isso estar no salmo 136: O Deus que criou os céus, a terra, as águas, os astros (v.1-9), libertou o povo da escravidão do Egito (v.10-15) e o conduziu pelo deserto (v.16-24).
A participação de todos os seres criados no projeto salvífico justifica a dimensão integradora da ecoteologia entre toda a criação e não só a humana. A luz dessa concepção está à fé cristã que compreende a criação de um novo modo. Trata-se de um novo modo “de sentir, pensar e experimentar a Deus e suas relações com todos os seres, tal como a mesma mãe Terra” (CHIPANA; ISMAEL; DIETMAR, 2011, p.33). Essa concepção ganha força reflexiva com a abordagem do Papa Francisco na “Laudato Si’” ao afirmar que “tudo está interligado no mundo” (LS, n.16) e que “somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, ‘pelo simples fato de existirem, eles O bendizem e Lhe dão glória’” (LS, n.69).
Assim, é válida e justificável a concepção de que na fé professada hoje se reconfigura uma significativa visão cristã sobre a Terra ora como a nossa “irmã, com quem partilhamos a existência, ora uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços” (LS, n.1). Para Francisco a fé considera um novo significado ao meio ambiente, à biodiversidade, para além daqueles que servem somente para os fins de uso e consumo imediatos (LS, n.5). Nessa perspectiva se considera o mundo como um dom confiado por Deus ao ser humano e inserido no projeto da salvação. Como acréscimo da importância da ecologia na teologia e prática cristã basta considerar alguns salmos (Sl 97;135;136) que convidam, frequentemente, o ser humano a louvar a Deus criador. E não obstante, estão outros salmos (Sl 148) que chamam as outras criaturas a louvarem a Deus: “Louvai-o, sol e lua; louvai-o, astros todos de luz. Louvai-o céus dos céus e águas acima dos céus” (Sl 148,3-4). .
Desde já podemos dizer que na tradição neotestamentária há pouco se não quase nada de elementos que justifique ou ofereça-nos uma compreensão salvífica de Jesus Cristo que se amplie para além do gênero humano, isto é, que se debruce com propriedade sobre a criação. “Como bem observa Moltmann, quem procura por declarações sobre a criação no Novo Testamento, frequentemente se decepciona” (MURAD, 2009, p.281). Mas isso não significa que não há textualmente indicações que vinculam a auto-revelação e a ação salvífica de Deus com a criação. Pois tudo, no Novo Testamento, vai gravitar em torno do fato cristão.
O autor, desconhecido, da Carta aos hebreus (1,1-6) fala aos cristãos oriundos do judaísmo que estavam em clima de perseguição e eram imaturos na fé. Ele vai direto a questão essencial da fé cristã: “Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos nossos pais, pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas” (Hb 1,1-2).
A centralidade do discurso é Cristo como autocomunicação divina, porém dele não só participa e depende a salvação humana, mas também a criação toda toma parte de tal esperança. Neste sentido Cristo, o Filho de Deus, tem por direito e dignidade a herança de todas as coisas e do mundo. Aqui a antropologia e a cosmologia se encontram, pois “É ele o resplendor de sua glória e a expressão de sua substância (ser); sustenta o universo com o poder de sua palavra” (Hb 1,3). A centralidade cristológica exalta a Cristo como divindade a ser adorada até pela hierarquia angelical, pois “quando...entrar o Primogênito no mundo, Deus diz: 'Todos os anjos devem adorá-lo!'”(Hb 1,6). Ora, não há como negar a efetiva e intrínseca relação da criação, da comunidade de vida além do humano, no mistério salvífico divino, porque "tudo foi feito por meio dele e para ele" (Cl 1,16).
Vale ressaltar que, com a encarnação de Deus como humano e na história, a dimensão salvífica assume uma conotação não só natural, mas sobrenatural, isto é, transcendental. Nessa perspectiva se acentua a espera escatológica salvífica de toda a criação com Deus pelo Cristo, no Espírito. Sem Cristo, nada poderia subsistir (Cl 1,17). Deste modo “a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8,19). Isto é, ela espera que o projeto de Deus se realize na vida humana e em si mesma, pois para tal fim foi criada.  
E “sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, [...] também gememos em nós mesmos, aguardando a adoção filial, a saber, a redenção do nosso corpo. Pois nossa salvação é objeto de esperança” (Rm 8,22-24). Essa nova experiência é indicativo da permanência e participação da criação (ou em termos secular: de todos os seres bióticos da ecosfera) na soteriologia divina. Assim é que se menciona no apocalipse, dentre outros textos, o deslumbrar visionário da nova criação como “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21, 1).
No coração da liturgia e fé cristã, vamos nos deter sobre o texto de João (1,1-18). A partir do discurso joanino duas personalidades podem ser deduzidas como destinatários da mensagem salvífica cristã: os gregos-helénicos e os judeus cristãos. Os destinatários justificam o estilo argumentativo e a forma de abordagem do autor: João inicia a boa nova da encarnação de Jesus a partir da origem da criação humana e de todos os seres como no livro do gênesis: no princípio (Gn 1,1; Jo 1,1). Aqui o evento natalino é descrito de forma distinta dos evangelhos sinóticos.
De antemão já podemos suspeitar que a vinda de Jesus é descrita não diretamente com Maria e José, pela ação do Espírito Santo, mas diretamente de Deus e como parte de Deus: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O vínculo natalício de Jesus com Deus no começo da criação denota uma característica de fundamental importância na ecoteologia: pensa e perceber a ação de Deus no horizonte planetário e até eco-planetário, na redescoberta de que tudo está em relação, interligado, interdependente, de modo sistêmico e complexo, tudo é um todo. Isso concorda com a concepção da ecoteologia que “consiste em pensar a fé no horizonte da consciência planetária. Essa se caracteriza como a (re)descoberta de que o mundo torna-se um todo, o ser humano é membro da Terra e deve assumir a responsabilidade pelo futuro do planeta habitável” (MURAD, 2016, p.211).
O discurso natalício confirma tal concepção de que todos os seres criados estão em Deus e no seu Filho Jesus: “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,3). Ora, “o que foi feito nele era a vida” e tal vida (zoe) é compreendida como plenitude da existência, portanto fonte vital de todos os seres existentes. Se tal predicado de Jesus (zoe) no processo da encarnação já nos liga integralmente ao todo da criação e, poderia assim disser, ao sistema complexo de todo o nosso meio ambiente, então tal vínculo e presença do Deus já se confirma na expressão textual: “Ele estava no mundo”, portanto, presente em toda a criação, tal como de fato indica melhor o significado do nome Deus: Aquele que estar, e não aquele que é. O Verbo é definido como “Luz”: Ele era a luz verdadeira (Jo 1,9), que caracteriza a propriedade essencial dos planetas no nosso sistema.
No discurso joanino a relação do Deus Verbo (Criador) com o Salvador Humano se realiza no processo de encarnação, porque o Verbo que estava em Deus (e por Ele tudo o que existe subsiste, portanto o Verbo Criador) se fez carne (sarx), humano pleno, e habitou entre nós (Jo 1,14). Daí é possível interpretarmos intuitivamente que há o vínculo relacional e interdependente entre a comunidade de vida no nosso planeta e os seres humanos. Portanto o vínculo da ecologia com a antropologia, o que faz sentido ao que o Papa Francisco afirma sobre “tudo estar interligado”. Tal hermenêutica não pode ser descartada se nós quisermos levar a fé cristã para a sua consequência teológica, salvífica e integral. Aqui um Jesus cósmico não pode ser descartado como chega a sustentar o teólogo Leonardo Boff.
Bem, na encarnação do Verbo a visão ecoteológica pode encontrar sua inspiração para seguir adiante, porque para todos os seres, como verdade consequente “Este é aquele de quem eu disse: o que vem depois de mim, passou adiante de mim, porque existia antes de mim” (Jo 1,15). Ele existia antes, com e após a criação do mundo. Para não nos restringir ao texto do evangelho de João, vale considerar que no Natal a criação toda aponta e colabora na encarnação de Jesus. Em Mateus (2,2) “vimos à sua Estrela no oriente” que para no local onde nasce Jesus. A “Terra de Judá” é espaço de onde deve nascer o Salvador (Mt 2, 6). Em Marcos o Espírito Santo assume o formato de uma ave (Mc 1, 9) e Jesus assume um vínculo harmônico com a espécie animal no deserto: Jesus estava com os animais selvagens (Mc 1,12). E em Lucas (2,7) Jesus nasce em meio à criação, num estábulo, porque não havia lugar para ele na sociabilidade urbana.
Portanto, inspirados nesses textos e reflexões, podemos dizer que a criação, nas suas diversas esferas de abordagens, encontra seu sentido primordial e realidade última (plena: nova criatura) em Jesus. A encarnação deste se relaciona com distintos momentos de uma mesma proposta salvífica, em que não se exclui a participação das demais criaturas, da comunidade de vida, da biodiversidade que há na nossa ecoesfera. Neste sentido, desde o livro do gênesis até o apocalipse elementos constituintes da ecologia estão ligados ao projeto de salvação humana. Se o Natal é o ponto inicial e fundamental da fé cristã e salvação humana, tal evento não pode estar dissociado da complexa rede de vida que há no mundo.
Se as ciências ambientais resgataram o valor dos diversos seres bióticos e abióticos que compõem, sustentam, equilibram e promovem à vida no planeta, muito menos para a teologia tal postura deve ser descartada, apesar do atraso reflexivo e prático que temos na fé cristã. Teilhard de Chardin pode nos ajudar nessa concepção integral da salvação, pois ele percebeu Deus em todas as criaturas, mas sem reduzir o Criador às criaturas. Isso concorda com a concepção joanina de Deus como o Senhor da Vida. Nessa lógica de compreensão o Natal deixa de ser um evento estritamente antropocêntrico e exclusivista do ser humano como única realidade criada e digna imerecida de salvação, para ser um evento que integra o projeto salvífico da toda a obra criada por Deus.
A luz de Francisco é mais do que justo que o Natal seja celebrado, vivenciado, espiritual e socialmente praticado como teologia ecológica pela proposta afetiva e efetiva de uma ecologia integral. Assim, além do que já foi dito, tal Natal pode passar por nós e nos ajudar a se comprometer com o mistério da encarnação de Jesus pelo projeto do “cuidado da casa comum” (LS, 138-162). Neste Natal, tal projeto exige de nós: 1) um experimentar e encarnar Jesus, na nossa prática de vida, numa relação integral com toda a criação (LS, n.138); 2) uma prática ética que dignifique cada ser que há no planeta, que usufrua corretamente dos bens e serviços que o nosso ecossistema oferece; que, de modo especial, cuide e proteja os excluídos e a natureza; 3) nas esferas institucionais e governamentais, a sustentabilidade e saudável interação do ser humano com o meio ambiente, os seus ecossistemas e biomas; 4) a valorização e cuidado com as riquezas culturais – diversas e complexas – da humanidade, contra o sistema econômico exploratório e dominante; 5) uma ecologia urbana que promova a inclusão, a sociabilidade, os direitos humanos, a digna cidadania dos pobres e periféricos, e uma estrutura sócio-ecológica nas cidades; 6) o bem comum que lute pelo o respeito e adesão aos direitos humanos, à justiça social e à paz; 7) e a justiça intergeracional que implica na preservação e sustentabilidade da nossa casa comum para as gerações que ao de vir.

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