quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O CONCEITO DE ALIENAÇÃO EM KARL MARX


Isaias Mendes Barbosa[1]
04/10/2013. (XII Semana de Filosofia-UECE)


RESUMO
O presente artigo trata do conceito de alienação na perspectiva de Karl Marx (1818 -1883). Para Marx, o processo de autorealização do homem só se efetiva na sua relação com a natureza (objeto de produção) pelo trabalho (atividade de objetivação do objeto e produção). Para que o trabalho promova a realização do homem é preciso, porém, que seja livre e não explorado. A formação econônico-social capitalista promove a exploração, a divisão e diferença entre as classes, separando, igualmente, o trabalhador do seu objeto de produção e de si mesmo. Neste sentido ocorre o que Marx identifica como alienação. Tendo como base a obra Manuscritos econômico-filosóficos, de1844, e outros textos complementares, a fim de se aprofundar essa temática,pretende-se aqui abordar os seguintes questões: i) o conceito de Trabalho: relação homem x natureza; ii) a alienação do homem no produto de seu trabalho; iii) a alienação no processo de produção no interior da própria atividade produtiva; iv) o homem alienado de seu ente-espécie; e v) a alienação do homem pelo outro. Esses pontos aqui indicados se reportam ao modo de ser do homem para a Economia clássica e para a sociedade moderna, ou seja, como uma mercadoria. Neste sentido, o homem está sujeito àcondição de exploração, escravidão, coisificação, em suma, alienação no seu processo de trabalho ena sua autorealizaçãocompreendida como emancipação de seu gênero.

Palavras-chave: Homem, Trabalho, Alienação.




Introdução
Os Manuscritos econômicos- filosóficos(1844), conhecidos também como Manuscritos de Paris, representam uma das expressões fundamentais do pensamento marxiano[2]. Nele Marx abordar os primeiros momentos de sua crítica à economia política clássica, na qual Adam Smith eRicardosão seus maiores representantes[3], e ao idealismo hegeliano, contrapondo este com as ideias materialistas Feuerbachiana. Tal obra apresenta as contradições do sistema econômico político burguêsde sua época, ou seja, o sistema capitalista, que parte de pressupostos, não fundamentados nem explicados como a propriedade privada, o seu processo material e suas leis, a distinção entre trabalho e capital, capital e terra. Desse modo, ele abordatambém as consequências caóticas desse sistema que tanto mantem a propriedade privada, a divisão de classes, como promove o trabalho explorado ea alienação do homem.
A marca de destaque de abordagem dos manuscritos é a concepção deestranhamento, sejade sua atividade produtiva, de sua relação com a natureza e de sua espécie, ou seja, do seu sergenérico. Isso ocorre, nesse sentido, quando o homem, no trabalho enas suas relações sociais de produção, está subordinado ao sistema capitalista, queretira dele o fruto de sua produção, o conhecimento e domínio da natureza na sua produção, e, consequentemente,o aliena a si mesmo. A alienaçãono trabalho acontece de tal modo que tanto na relação do homem com a natureza, do homem com seu trabalho e com sua espécie há uma dependência e estranhamento e ao mesmo tempo, a negação da própria natureza humana, pois o que move o seu agir não é mais sua autonomia, sua vontade autodeterminante e subjetiva, o seu caráter humano de criar-se e produzir-se conforme sua liberdade e potencialidade, mas as leis que regem o sistema em função da produção de capital.Desse modo, Marx identifica que o trabalhodentro do sistema capitalista[4]condiciona o homem a alienação, no seu grau mais elevado, e oobjetifica diante da máquina e o torna uma ferramenta, ou seja, uma mercadoria. Abortando, assim, o seu processo de emancipação humana, de continuidade genérica de seu ser.
O presente artigo busca a apresentar algumas considerações,na formação econômica social capitalista, que condicionam a alienação do homem em suas quatro formas relacionais. O homem, pelo trabalhonão-alienado constrói a si mesmo, seu gênero. Essa é a base fundamental do desenvolvimento e da produção e evolução humana quando corretamente efetuada. Dessa forma no trabalho o homem se autoproduz ese autorealiza, enquanto gênero humano, e produz, pela relação de produção, os componentes fundamentais de sua essência. Essencialmente a finalidade da produção é fazer o homem chegar a sua essência, que está nele se autopromover e se autoproduzirpelo trabalho. Dessa forma ele está num processo natural e inacabado de evolução. O trabalho livre produz a sua dignificação enquanto único ser universal e produtor de seu mundo, de sua realidade e de si. Porém,para Marx, seguindo ométodo critico-dialético de base hegeliana, o trabalho tem um momento de negação da natureza humana, que écategorizado historicamente, e de modo mais forte, no sistema econômico capitalista. Assim, esse sistema é expressão dessa negação, e contradição das condições de evolução do gênero humano, pois ai o trabalho é perverso para com o operário. E converte o trabalho livre em trabalho forçado, alienando o operário.
Neste sentido a alienação será o momento de negação ou distanciamento, ou estranhamento da essência do homem, do seu ser genérico no sistema econômico capitalista. A alienação se faz na natureza como objeto de produção, que limita o homem a sua dependência e servidão no sistema de produção. Este sistema explorador condiciona o homem a um alienar-se, pois ele não se realiza no trabalho, mas está fadado a trabalhar em função de sua subsistência, na alienação de seu gênero, o humano, condicionada por alguém que o determina e nega a promoção de sua essência: o outro.
Conceito de Trabalho: relação homem x natureza
            O trabalho na história da filosofia pode ser compreendido de diversos modos conforme seu contexto específico. Para os Gregos o trabalho era uma atividade produzida pelo escravo e este estava, pela sua natureza, determinado para trabalhar, já que a capacidade intelectiva não era propriedade própria de sua natureza. Com isso a discrepância entre os homens que tinham o ócio para pensar (Cidadãos) e o outros, ou seja, os escravos, ou estrangeiros, que estavam determinados a trabalhar, era algo que fazia parte da Natureza de cada indivíduo e de sua capacidade, além das leis impostas nas relações econômicas e sociais da Polís. No período medieval o trabalho é visto como um bem comum, porém nem todos trabalham da mesma forma. O diferencial é que o homemque outrora era escravo, ou seja,vassalo, tinha sua dignidade resgatada em suas atividades no campo, e liberdade para efetuar um trabalho próprio após o serviço prestado os senhor feudal.  Todavia, o trabalho se perpetuava como atividade dos servos. Desse modo, o servo poderia trabalhar de modo mais livre e confortável de tal modo que sua produção não ferisse sua integridade humana, mas o dignificasse enquanto servo e livre. Na modernidade o trabalho atinge uma concepção distinta, tanto a classe dominante e dona da propriedade de terras como os comerciantes, como a classe trabalhadora que era a força de trabalho, se exercia em vista do lucro e do crescimento economicamente. Neste sentido, entra, porém,a concepção de trabalho em Karl Marx que é conceituada nesse contexto de revolução[5]e sua definição está relacionada com os fatores determinantes desse período e com sua filosofia rópria vinculada a pensadores da economia clássica, Ingleses, alemães e etc.É importante ressaltar que para Marx o trabalho é produção social e veículo de autorealização do homem, ou seja, expressão da vida[6]Desse modo o trabalho é a base do desenvolvimento humano, de suas relações de produção e humanização.
            No primeiro livro do O CapitalMarx descreve o conceito de trabalho nesses termos:
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regular e controla seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural numa forma útil para a própria vida.( MARX, 1983, p.149)
            Daí o trabalho surge na relação do homem com a natureza. Sem ela o homem não produz aquilo que lhe é próprio: trabalho e seu gênero.Pois ela contém o material necessário para que o homem produza. O homem a domina e atua com sua capacidade e potencialidade. O trabalho é algo natural do homem, porém pode se questionar: os demais animais não trabalham?! Pode-se dizer que os animais fazem operações semelhantes ao homem, porém o diferencial é que enquanto os animais estão determinados por sua natureza a fazer determinada coisa, o homem, por sua vez, possui a imaginação, a inteligência, a reflexão, o pensamento, e produz tudo isso, a partir de sua mente,no seu trabalho. A sua produção não é mero efeito natural e necessário como funções animalescas, mas é produção para um determinado fim útil[7]. A atuação sobre a natureza modifica-a e ao mesmo tempo a própria natureza do homem é transformada. Neste sentido, o que o homem produz é algo de si que ele externa, isso o modifica e o valoriza. Marx Escreve sobre o processo de trabalho dizendo:
No processo de trabalho a atividade do homem efetua, portanto, mediante o meio de trabalho, uma transformação do objeto de trabalho, pretendida desde o princípio. O processo extingue-se no produto. Seu produto é um valor de uso; uma matéria natural adaptada às necessidades humanas mediante transformação da forma. O trabalho se uniu com seu objetivo. O trabalho está objetivado e o objeto trabalhado. (MARX, 1983, p. 151)
            Como se vê o homem exerce sua atividade sobre a matéria a ser trabalhada. Essa matéria é objeto de trabalho e sofre a transformação pelo sujeito que a modifica. O resultado é o produtoque tem um valor de uso, e um valor de trabalho efetuado. Porém, o resultado também é o fim ou a objetivação que é efetuada pelo homem e em função do homem. No processo de conclusão do trabalho, a matéria final produzida é a objetivação do trabalhador e o objeto trabalhado em seu momento final. Nesse processo têm-se duas relações interessantes: o trabalhador modifica o objeto material, de casualidade dada para causalidade posta, e ao mesmo tempo ele se modifica, pois o resultado da produção garante um reconhecimento de si na obra que ele produziu e uma externalidade daquilo que não era objetivado, mas subjetivo, no momento anterior. Neste sentido o produto obtido revela quem o criou, ou seja, quem trabalhou a matéria. E no processo de produção o trabalhador externou uma parte sua que era até então desconhecida, ou seja, o que ele produziu revelou uma extensão de si que até então não se efetivava, a não se depois desse momento de produção. Por isso se diz que na efetivação do trabalho tanto o objeto, ou matéria prima, é modificada pelo sujeito, como ele mesmo se modifica. Dessa forma acontece a relação intrínseca de produção, identidade, reconhecimento, e evolução, entre o trabalhador e seu trabalho.
            Na obra Manuscritos econômicos e filosóficos, Karl Marx irá fazer uma crítica à economia política dosistema econômico nacional, ou seja, ao sistema capitalista da burguesia, determinante das leis que regem o processo econômico das relações de produção em questão. Nela Marx expõe as contradições que o sistema irá produzir em si e as mudanças que sofrerá o homem tanto no processo de trabalho como na sua consciência, exteriorização de si, do seu gênero, pelo trabalho. As consequências dessa Economia Política será a alienação[8]e a perversão do trabalho no seu âmbito profissional e do homem.
A alienação do homem no produto de seu trabalho
            Com a economia política o trabalhador ficou fadado a um sistema econômico que o afunda até um nível de mercadoria, como Marx afirma nos manuscritos econômicos:
A existência do trabalhador é, portanto, reduzida à condição deexistência de qualquer outra mercadoria. O trabalhador tornou-se uma mercadoria e é uma sorte apara ele conseguir chegar ao homem que se interesse por ele. E a procura, da qual a vida do trabalhador depende, depende do capricho do rico e capitalista. (MARX, 2008, p.30)
            A concepção sobre a economia políticaestá pelo o que ele mesmo impõe no seu sistema administrativo. Pelas suas leis que regulam e condicionam o trabalho humano e as relações sociais de produção. Ela está pautada sobre a divisão humana em duas classes: a do proletariado e a do capitalista, sendo que a primeira está submissa à segunda. Daí, para melhor compreendermos o conceito de trabalhador Karl Marx afirma:
É evidente que por si mesmo que a economia nacional considere apenas como trabalhador o proletariado, isto é, aquele que, sem capital e renda de terra, vive puramente do trabalho, e de um trabalho unilateral, abstrato. Ela pode, por isso, estabelecer a proposição de que ele, tal como o cavalo, tem de receber o suficiente para poder trabalhar. (MARX, 2008, p.30)
            Esse entendimento conceitua o processo de escravidão e dependência a que está fadado o trabalhador. Dai, enquanto antes ele era livre para se exercer e produzir o fruto do seu trabalho, enquanto ele tinha todo o entendimento sobre o modo de produção, as relações de troca e a sua significação e reconhecimento no trabalho realizado, o sistema econômico capitalista, que orienta as articulações e a dinâmica das indústrias, ou dos modos de produção e lucro, de capital e juros, impõe ao homem- não proprietário-um modo específico de trabalho, uma forma de produção limitada, uma dependência com o trabalho para sua sobrevivência e um distanciamento do seu objeto de trabalho:a causalidade dada. Isso ocorre porque as condições de produção não estão em função de sua necessidade e nem de sua valoração e dignificação, mas do próprio capital.
            A economia capitalista apresenta como base do seu sistema as categorias próprias do regime burguês como realidade supra-históricas, eternas, que não devem ser objeto de transformação estrutural. Sua analise parte sobre pressupostos que não tocam a realidade históricas e a vida social. Ela renuncia renuncia a qualquer pretensão defornecer as bases para a compreensão do conjunto da vida social, deixando de lado o procedimento analítico da produção e sua implicações na vida oscial.Daí a economia do sistema capitalista parte da seguinte pressuposição apresentada por Marx:
Partimos dos pressupostos da economia nacional. Aceitamos sua linguagem e suas leis. Supusemos a propriedade privada, a separação de trabalho, capital e terra, igualmente do salário, lucro de capital e renda da terra,da mesma forma que a divisão do trabalho, a concorrência, o conceito de valor de troca etc. A partir da própria economia nacional, com sua palavras, constatamos que o trabalhador baixa a condição de mercadoria  à de mais miserável mercadoria, que a miséria do trabalhador põe-se em relação inversa à potência (Machta)  à grandeza (Grösse) da sua produção, que o resultado necessário da concorrência é a acumulação de capital em poucas mãos,( MARX, 2008, p.79)
            Esses pressupostos fazem parte do sistema econômicos político. Ele aborda todos esses elementos que são suas leis de reger a economia e as relações de produção sociais como a propriedade privada, a separação do trabalho, capital e terra, o lucro e a concorrência, dentre outras coisas. Porém ele não explica a conexão que existe entre essas relações e o que produz essas divisões. Com isso, segundo Marx, a única coisa que ela movimento é a ganância e a guerra entre os gananciosos e a concorrência.Desse modo Marx faz um leitura e explicação dadas premissas assumidas pela economia política da seguinte maneira:
Nós partimos de um fato nacional-econômico, presente. O trabalho se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadoria cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens[9]
            Com isso é notório a relação inversa que se tem entre ele (o trabalhador) e aquilo que ele produz. O trabalhador produz o objeto, este objeto fez-se coisa. Essa é a objetivação do trabalho, que é sua efetivação. Essa efetivação, no estado nacional econômico, produziu a desefetivação do trabalhador e sua perda ao objeto e sua servidão ao mesmo, pois quanto mais o trabalhador produz, mais ele se torna dependente do que produziu e mais ele desconhece aquilo que era seu objeto de trabalho, daí surge a alienação[10].  Nesse sentido Marx afirma:
Quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando, tanto mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio que ele cria diante de si, tanto mais pobre se torna ele mesmo, seu mundo interior, [e] tanto menos [o trabalhador] pertence a si próprio. [...] A exterioridade do trabalhador em seu produto tem significação não somente de seu trabalho se torna um objeto, uma existência externa, mas, bem além disso, [que se torna uma existência] que existe fora dele, independente dele e estranha a ele, tornando-se uma potência autônoma diante dele, que a vida que ele concebeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha.[11]
            Portanto, no sistema econômico, as relações se invertem e o objeto de trabalho que parecia próximo e de reconhecimento e elevação da dignidade do trabalhador se torna, assim, distante, superior e ele, exterior, alheio, exterior. Pois, quanto mais o trabalhador produz, menos tem para consumir; quanto mais valor cria, mais sem-valor e indigno ele fica.
A alienação no processo de produção, dentro da atividade produtiva
            Como vimos, a economia política apresenta a divisão de classe: a do capitalista e a do proletariado. A primeira submete a segunda sob seu domínio e dependência. A segunda faz parte dos proprietários de terra, enquanto que a outra faz parte dos não-proprietários.  O trabalhador é manipulado as condições determinantes de sua produção e a sua subsistência vai estar determinante pela necessidade de produzir. Sua produção é exterior a ele, pois ele tanto não possui o domínio geral sobre seu objeto, ou produto, como não produz para si, mas para outro. Na medida em que ele produz mais e mais, sua identidade com o produzido e seu reconhecimento se distanciará cada vez mais dele, pois tanto o objeto valerá mais do que ele como ele estará em estado de servidão de seu produto. Portanto, a inversão dos valores entre trabalhador e produto acontece.
            O segundo momento dessa alienação se faz no processo de produção desse produto, pois se o próprio produto é alienação o processo de efetivação desse produto terá a mesma instância. Daí a alienação no processo de produção inicia-se no aspecto da própria natureza do trabalhador, ou seja:
O trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito.[12]
            A obrigação é o fator determinante de sua disposição para o trabalho, a falta de liberdade é uma da marca característica de uma não exteriorização de si. Nesse sentido o trabalho não é realização e satisfação do sujeito e muito menos um ato de produção que acrescente significado a sua identidade, mas na verdade é uma separação do ‘eu’genérico, que de certo modo representa toda a humanidade, com o que se produz, com a objetivação efetivada.Nesse sentido, quando se está trabalhando, não é o ‘eu’ que está trabalhando, pois não existe uma relação de independência, liberdade e autonomia do sujeito no ato da produção e no seu processo de atividade produtiva, mas algo que não tem nada haver com o seu ser, com aquilo que é fundamental e contribuinte para a natureza humana. A alienação nesse sentido é inevitável. Daí a efetivação do trabalho não é um fim que promova a humanização do sujeito, mas um meio para se saciar outras necessidades, que não a dele. Sendo assim, o trabalho é mortificação e sacrifício do trabalhador e sua realização está na posse de um outro, como afirma Marx: ‘Finalmente a externalidade do trabalho aparece para o trabalhador como se [o trabalho] não fosse seu próprio, mas de um outro, como se [o trabalho] não lhe pertencesse, como se ele no trabalho não pertencesse a si mesmo, mas a um outro.’(Cf. MARX, 2008, p. 83)
A alienação no homem de sua ente-espécie
            Assim, o trabalho, na perspectiva político-econômica, aliena o homem do seu objeto de produção, ou seja, do seu produto, da natureza como objeto de produção, o distanciando do mesmo a tal ponto de quanto mais ele produzi-lo, menos valer, maisempobrecer de si, mais distanciar-se do seu produto, e mais dependente dele (do produto) será.  Se o trabalhador está alienado do seu produto, isso se dá pelo modo, ou sistema de produção que também é alienante. E nesse sentido a identidade do trabalhador se perde, ou seja, o trabalhador aliena a si mesmo, pois trabalhar, para ele, não será identificar-se com o que faz, não é produção de si, mas é distanciamento e separação da própria atividade com o que pertence a ele mesmo. Isso implica em um fazer para outro, contra ele mesmo, pois este se mortifica, se anula, se auto-aliena na produção de algo que não é dele, não tem haver com ele e não é para ele, mas para outro.
            Essa duas implicações leva em consideração outra consequência no trabalho para o trabalhador: o alienar-se de sua espécie. Assim, como o trabalho o aliena nos dois pontos, ele também o aliena de sua espécie, de seu gênero.
            O homem é um ser genérico tanto quando pratica ou faz do gênero, das coisas, o seu objeto, quanto se relaciona consigo mesmo, como com o gênero vivo de sua espécie. O homem se distancia dos animais pelo seu ser universal. A sua relação com a natureza é de extensão de seu espírito, pois ele utiliza dela de modo a produzir sua essência e estender sua consciência. Assim como as plantas, os animais e tudo mais formam teoricamente uma parte da consciência humana, tanto como objeto da ciência natural, como da arte, que ele prepara para fruição de si, a natureza inorgânica, os meios de vida espiritual, também formam uma parte da vida humana e da atividade humana.  A natureza, desse modo é o corpo inorgânico do homem, pois nela ele precisa estar em movimento de relação para não morrer. Dessa forma o homem, diferente dos demais animais, é um ser consciente, livre e universal, que se auto produz na medida em que se relaciona com a natureza, com o eu trabalho. Na medida em que ele se relaciona com a natureza e se conecta a ela, ele tanto mantem a sua espécie, como produz aquilo que é do seu gênero humano. No sistema econômico a alienação ocorre também no aspecto do gênero do homem. Marx sintetiza o nosso caminho percorrido da alienação na seguinte citação:
Na medida em que o trabalho estranho 1) estranha do homem a natureza, 2) [e o homem] de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital; ela estranha do homem o gênero [humano]. Faz-lhe da vida genérica apenas um meio da vida individual. (MARX, 2008, p.84).
            Dessa forma o homem se aliena da objetivação de sua produção, de sua relação com a natureza, de si mesmo, quando não mais se identifica com o que produz e muito menos com sua espécie. A alienação da sua espécie implica que ele diferente do que é próprio de seu gênero está determinado pelo trabalho a produzir algo estranho a ele, que contem um valor superior que ele, a se separar de sua natureza essencial no ato de produção, a distanciar-se de seu mundo produzido na realidade pelo trabalho, aproduzir somente para sua subsistência assim como os animais e demais seres, a distanciar-se de seu próprio gênero, de seu ente-espécie. 
            Daí algumas implicações se reproduzem no fato da alienação, pelo trabalho, do homem ao seu gênero como:
O trabalho estranhado faz, por conseguinte: 3) do ser genérico do homem, tanto da natureza quanto da faculdade genérica espiritual dele, um ser estranho a ele, um meio da sua existência individual. Estranha do homem o seu próprio corpo, assim como a natureza fora dele, tal como a sua essência espiritual, a sua essência humana. 4) uma consequência imediata disto, de o homem estar estranhado do produto do seu trabalho, de sua atividade vital e de seu ser genérico é o estranhamento do homem pelo [próprio] homem. Quando o homem está frente a si mesmo, defronta-se com ele o outro homem. (MARX, 2008, p. 85-86)
           
A alienação do homem pelo outro
            Se o homem está fadado a alienação tanto do produto, da natureza, como de si, como do seu gênero, a quem pertence então todo esse trabalho? A resposta é simples, Erich fromm parafraseia a resposta de Marx nesses termos:
O ser estranho a quem pertence o trabalho e o produto deste, a quem o trabalho é devotado, e para cuja fruição se destina o produto do trabalho, só pode ser o próprio homem. Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, mas o enfrenta como uma força estranha, isso só pode acontecer porque pertence a um outro homem que não o trabalhador.(FROMM, 1983, p. 98)
            Se o homem está determinado pelo trabalho a alienar-se, a ser servo de sua produção, a se automortificar, a estranhar aquilo que ele produz, e a sua própria atividade, a se exercer simplesmente pela sua subsistência, por um prazer que não se realiza no trabalho, mas fora dele, por uma negação de sua espécie, isso só pode acontecer pelo seu semelhante que o determina. Ou seja, é o próprio ato do homem contra o trabalhador, do proprietário que subjuga o não-proprietário, que produz a alienação do homem.
Consideraçõesfinais
            Portanto, conforme apresentado, o homem na história segue um processo dialético de gerar-se negar-se e superar-se. Existência e essênciafazem parte dele, e seu movimento na história será de um autosuperar-se. Essa visão é hegeliana, porém Marx a materializa na história e nas relações sociais e econômicas do homem. A priori a relação homem e natureza seguia uma dialética pelo trabalho livre em que o homem se autorealizava na sua produção, porém coma divisão do trabalho e com a privatização de terras o homem está fadado a limitar-se na produção e aautorealização pelo trabalho. Daí existe os primeiros momentos dessa alienação que culmina no sistema econômico político capitalista.
            Este é momento em que a alienação chega no seu ápice, pois o trabalho será forçado, e o valor da natureza, do gênero, da dignificação do homem, de sua produção, declinará conforme a intensificação de seu trabalho. Dessa forma a alienação entra como um distanciamento da essência do homem e de seus meios de produção. A princípio quanto mais ele produz, mais perderão seu valor e mais dependerá do objeto de sua produção, por conseguinte, na efetivação do trabalho ele se autodesconhecerá, pois o trabalho não é realização sua, e nem identificação com sua essência, mas sofrimento e meio de existência, com isso, seu gênero será distanciado de si, uma vez que ele não é mais o que deveria ser sua espécie. Por último, a causa de tudo isso será o outro que o determina pela divisão de classes e pelo domínico dos menos favorecidos. Esse processo de alienação, segundo Marx só será superado com o comunismo, ou seja, quando a classe do proletariado se libertar das amarras da alienação. Porém, seguindo o método dialético marxiano, essa sociedade não marca o fim da história, mas o ponto inicial de uma nova história que apresentará as suas contradições e tendências que possibilite sua superação por outro momento a ser construído e constituído pela emancipação humana.
Referências bibliográficas
ARAÚJO, Carlos Roberto Vieira. História do pensamento econômico: uma abordagem introdutória. São Paulo: Atlas, 1988.
COSTA, FREDERICO JORGE FERREIRA; PORTELA, JOSANIA LIMA; ARAÚJO, RAQUEL DIAS. Concepção Marxiana de Trabalho e os Desafios da Atualidade.; Cadernos da Pós-Graduação da FACED/UFC; 1999; 1; 10; ; 49; 56; Português; 14140829; Outro; ; Título do Periódico: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência.
FROMM, Erich. Conceito Marxista do Homem. Zahar editores. 8ª ed. Rio de janeiro, 1983.
MARX, Karl. Manuscritos Econôminos- Filosóficos.[ Trad. Jesus Ranieri]. Boitempo editorial. São Paulo, 2008.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
NETTO, José Paulo. Economia política: uma introdução crítica/José Paulo Netto, Marcelo raz.-7.ed.-São Paulo: Cortez, 2011.



[1] Aluno do curso de filosofia/licenciatura da Universidade Estadual do Ceará.
[2]Referente á Karl Marx.
[3] Segundo José Paulo Netto na Economia política: uma introdução crítica (2011, p.27), os maiores representantes da Economia Política clássica são Adam Smith e David Ricardo. Suas duas características centrais da teoria da economia clássica são que: a Economia política interessava compreender o conjunto das relações sociais no período da crise do antigo regime e sua compreensão sobre a economia política entendiam suas categorias e instituições naturais não se modificavam.
[4] Cf. Erich Fromm na obra Conceito Marxista do Homem, 1983, p55. Escreve: “Como indiquei antes, Marx admitiu que a alienação do trabalho, apesar de existir através de toda história, atinge o auge na sociedade capitalista, e que a classe trabalhadora é a mais alienada de todas”.(FROMM, 1983, p. 46)

[5]Revolução Industrial na França.
[6] Erich Fromm cita o pensamento da Marx nos seguintes termos: ‘Toda a concepção de Marx a respeito da auto-realização do homem só pode ser plenamente compreendida em ligação com sua concepção do trabalho. [...] o trabalho, por outro lado, é, ou devia ser enquanto livre, a expressão da vida. ’(FROMM, 1983, p. 46)
[7] Jorge Ferreira, Josania Lima e Raquel Dias, afirma na Concepção Marxiana de Trabalho e os Desafios da Atualidade (1999, p.31 et seq.)que a essência do trabalho é dada pela articulação entre teleologia e causalidade, que por sua vez, se efetua no reflexo.
[8]O conceito de alienação se reproduz melhor na ideia de afastamento, distanciamento, ou estranhamento do sujeito com aquilo que ele produz ou consigo mesmo.
[9](MARX, 2008, p.80)
[10]Erich Fromm define sobre a alienação nesses termos: ‘A alienação (ou ‘alheiamente’) significa, para Marx, que o homem não se vivencia como agente ativo de seu controle sobre o mundo, mas que o mundo 9ª natureza, os outros, e ele mesmo) permanece alheio ou estranho a ele.[...] Alienar-se é, em última análise, vivenciar o mundo e a si mesmo passivamente, receptivamente, como o sujeito separado do objeto.’ (FROMM, 1983, p.50)
[11](MARX, 2008, p.81.)
[12](MARX, 2008, p. 82.)

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