quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

SOBRE A PEDAGOGIA KANTIANA: A EDUCAÇÃO COMO FUNDAMENTO DA MORALIDADE NO HOMEM.



Isaias Mendes Barbosa
23/04/2013. (Seminário de Filosofia no Ensino Fundamental e Médio)


RESUMO

Esta proposta de comunicação busca pensar a relação entre Educação e Moralidade humana em Immanuel Kant, com base na obra Sobre a pedagogia (1803). Trata-se de uma abordagem realizada, também, mediante a contribuição de artigos, e escritos complementares, que aprofundam o tema acima indicado. Tomando como pressuposto a perspectiva do sentido filosófico da Educação com a moralidade kantiana, pretende-se assim tratar dos seguintes pontos: i) os dois estágios do sujeito na educação e a sua finalidade moral; ii) a distinção entre a educação pública e privada na formação humana; iii) a natureza bruta e a liberdade na educação; iv)  as leis imperativas da educação prática na moralidade do homem. Tais pontos aqui indicados se reportam à compreensão do homem como ser racional, distinto dos demais animais, e naturalmente livre, mas que, nos estágios de sua vida (infantil e juvenil), precisa da educação no âmbito particular e público, como elemento promotor de sua moralidade, de sua autonomia e excelência como homem e cidadão.

 Palavras–chave: Educação, Moralidade, Homem.



INTRODUÇÃO

A Modernidade é um período da história humana que não tem o mesmo valor significativo-filosófico sem a personalidade marcante, na transição do século XVII ao XVIII, de Emmanuel Kant (1724-1804). Tal filósofo, de hábito metódico e estatura física frágil, foi uma personalidade marcante na revolução do pensamento filosófico[1], pois apresenta uma nova orientação de abordagem epistemológica: o criticismo[2]. A sua filosofia não é algo pronto e fechado em si, dogmaticamente, mas faz parte de uma construção contínua do seu pensamento que chegou a sua maturidade, porém, inacabado, no final de sua vida. Com isso a filosofia de Kant tem como base fundamental três obras que caracterizam sinteticamente o seu pensamento: a Crítica da Razão Pura (1781), a Crítica da Razão Prática (1788) e a Crítica da Faculdade de Jugar (1790). Tais obras correspondem respectivamente às condições de possibilidade do conhecimento, a moral antropológica, como práxis do indivíduo racionalista e, por fim, o juízo categórico que medeia às representações de mundo e a ação moral. Crítica, conhecimento, razão, juízo, e prática constituem, portanto, os cinco termos que são fundamentais na filosofia kantiana.
Na sua obra Sobre a Pedagogia, resultado de um curso ministrado entre 1776/77, 1783/84 na Universidade de Königsberg, e publicado pelo seu discípulo Theodor Rint em 1803, um ano antes da sua morte, Kant aborda princípios e conselhos práticos acerca da arte de educar. Neste sentido, o conceito de educação está entrelaçado com a concepção de moral kantiana. A obra é dividida em Introdução, Sobre a educação Física e Sobre a educação Prática. No sentido geral, tal obra trata do sujeito moral como o elemento principal da educação, pois o homem desde a sua nutris necessita de cuidados e orientações para se chegar à condição de homem e de cidadão, ou seja, a da moralidade. Contudo, o processo educacional não se efetiva no sujeito de modo fechado e pronto, mas faz parte de uma continuidade, de um progresso e construção da própria humanidade. O imperativo categórico [3] passa a ser à base da moral educacional em Kant, e seu ponto culminante é o reino dos fins no homem. Trata-se da importância da dignidade e valoração do homem que caminha para a sua perfeição como ser naturalmente possuidor de uma razão. 

Os dois estágios do sujeito na educação e sua finalidade moral

A obra Sobre a Pedagogia, de Emmanuel Kant, faz parte de uma reflexão breve e sucinta acerca da arte de educar. O sistema filosófico kantiano está embasado, como percurso fundamental e essencial, na racionalidade. Daí com o conceito de educação não poder ser diferente, a abordagem do homem como ser que ressalta a sua dignidade e a sua valoração, com base em um processo de desenvolvimento, perfeição e moralidade pela educação. Portanto, moralidade e educação fazem parte de um projeto que se interrelacionam e se articulam na promoção do homem para a sua humanização.
Para uma compreensão geral da relação entre homem e educação em Sobre a Pedagogia é fundamental observar o homem em dois graus de desenvolvimento humano e um fim a que se fundamenta a sua natureza. O primeiro se encontra na Introdução da obra, e diz respeito ao primeiro estágio do homem, ou seja, o infantil. O segundo é o de juventude, ou adolescência. A finalidade que faz parte do desenvolvimento do homem, como ser que tem a capacidade de se autodeterminar e inserir-se nas relações sociais de uma determinada sociedade como cidadão, é o de homem como tal, ou seja, o estágio autônomo de humanização.  
a)       O estágio infante
Este primeiro estágio é o que diferencia o homem do animal. O homem enquanto criança ou bebê é um ser que precisa de cuidados. Naturalmente ele tem todas as potencialidades para ser o que a sua natureza está destinada essencialmente a ser: homem moral. Porém, para que isso se realize, é preciso de cuidados e de alguém que o faça. Nesse sentido Kant argumenta: “O homem é a única criatura que precisa de cuidados. Por educação entende-se o cuidado de sua infância (a conservação, o trato), a disciplina e a instrução com a formação. Consequente o homem é infante, educando e discípulo.” (KANT, 1999, p.11).
Mais à frente Kant acrescenta ainda:
Por cuidado entende-se as precauções que os pais tomam para impedir que as crianças façam uso nocivo de suas forças. [...] Mas o homem tem necessidade de sua própria razão. Não tem instinto, e precisa formar por si mesmo o projeto de sua conduta. Entretanto, por ele não ter a capacidade imediata de o realizar, mas vir ao mundo em estado bruto, outros devem fazê-lo por ele.(KANT, 1999, p.12).
Na citação acima, pode-se observar que o primeiro estágio põe o homem como ser dependente de um superior para o processo de sua formação. O cuidado é o que difere o homem, enquanto bebê, dos demais animais, pois os animais nascem com um instinto natural e de proteção. No máximo que se poderia dizer é que os animais precisam de alimento, porém dentro de si já está a pré-disposição natural, ou seja, aquilo que ele deve ser (animal). Daí se identificar duas vias que marcam o homem, como criança, e destacam as suas necessidades para ser homem propriamente dito: a necessidade de cuidados e a ajuda de alguém que o oriente para sua humanidade, por se encontrar ainda no seu estado bruto. A educação pode ser efetivada pela disciplina e instrução, sendo a primeira negativa[4] e a segunda positiva. Esses dois pontos fazem parte da iniciação do homem na sociedade, no entanto, o seu caráter de exigência é menor que quando jovem.
b)      O estágio de juventude ou adolescência
O segundo estágio é o de juventude. Este estágio é mais avançado do que o anterior, porém algumas considerações devem ser levadas em consideração, pois este estágio se faz, onde a disciplina e a instrução é mais presente. Esses dois aspectos da formação têm a finalidade de encaminhar o homem para a sua humanidade, e distanciamento de sua selvageria[5]. De acordo com Kant:
Quando se deixou o homem seguir plenamente sua vontade durante toda a juventude e não lhe resistiu em nada, ele conserva uma certa selvageria por toda a vida. Tampouco uma afeição materna exagerada é útil aos jovens, uma vez que mais tarde lhe surgirão obstáculos de todas as partes e receberão golpes de todos os lados, logo que tornarem parte nos afazeres do mundo. (KANT, 1999, p.14).
            O segundo estágio é mais exigente, porque o homem vai entrar em contato efetivamente com a disciplina e a instrução. Daí passar a existir as resistências a sua vontade, para um polimento de sua brutalidade.  Sem essas resistências o homem não vai se exercendo corretamente no aspecto de sua liberdade. A disciplina faz o homem, como jovem, entrar em contato com a lei. Ao primeiro ponto essa lei não faz parte do caráter moral do sujeito, daí um dos pontos de ser entendido como resistência. Esse momento é importante para fazer o indivíduo sentir a força da lei.  Sem isso o jovem se tornará um homem desregrado que segue os seus caprichos.
A punição tem a função de conscientizar o homem de seu estado desregrado e selvagem, a fim de tentá-lo afastar do mesmo e fazê-lo entrar na condição moral de dignidade. Para a criança, ou adolescente, a desobediência é respondida com a punição. Neste caso, portanto, qualquer lei desobedecida acarreta uma punição.  Há dois tipos de punição: a física e a moral. A primeira se faz em caso estremo, quando a segunda não resolve. A punição moral é a primeira a fazer parte do homem enquanto adolescente. Para a criança, entretanto, a punição moral só é válida depois do seu estado de consciência do dever, ao passo que no jovem isso já se apresenta mais claro e objetivo. Há, entretanto, a necessidade de ele absorver a lei como algo que faz parte dele e não como algo desconhecido, heterônomo.
c)      A finalidade de autonomia e humanização
O reino dos fins ao qual o homem deve tender, é o estado ideal em que a sua dependência e necessidade de outro, para se guiar e se determinar, não mais existe, pois, nesse momento, a sua consciência de mundo e realidade já está no campo de uma moralização, de uma autonomia, de uma interiorização, de uma máxima universal que se torna lei, representada e incorporada na práxis do indivíduo, com base em sua razão. Esse é o estado em que suas condições intelectivas racionais estão preparadas para que se faça uso daquilo que lhe é próprio: o seu entendimento.[6] Quando se está neste grau alcançado pelo homem, pode-se dizer que ele faz uso daquilo que lhe é próprio, ou seja, a sua razão, a sua moralidade pela formação da educação. Entretanto, a educação só é prioritária e decisiva na vida do homem até o seu estágio de autonomia, ou de maioridade. Cabendo assim ao homem se guiar por leis próprias que o determine. O que marca biologicamente a inserção do homem na sociedade é a sua disposição para ter filhos. No entanto, o homem não estando preparado fisicamente e economicamente, ou moralmente, precisa de paciência para atingir as condições necessárias para de modo adequado entrar no mundo civil. Apesar da finalidade do homem ser a perfeição de si, a humanização pela educação, é um projeto contínuo de geração em geração. Kant escreve:
A educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações. Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações precedentes, está sempre melhor aparelhada para exercer uma educação que desenvolva todas as disposições naturais na justa proporção e de conformidade com a finalidade daquelas, e, assim, guie toda a humana espécie a seu destino. (KANT, 1999, p.19).
Por conseguinte, ele acrescenta:
Há muitos germes na humanidade e toca a nós desenvolver em produção adequada as disposições naturais e desenvolver a humanidade a partir do seu germe e fazer com que o homem atinja a sua destinação. O homem, [...] é obrigado a tentar conseguir o seu fim; o que ele não pode fazer sem antes ter um conceito. O indivíduo não pode cumprir por si só essa destinação. (KANT, 2006, p.18).
            Conforme as citações acima, a educação é promotora da moralidade do homem e alcança geração a geração, a fim de aprimorar o homem, fazendo-o chegar a seu fim de perfeição, ou à realização de todas as suas potencialidades. Neste sentido, a educação não é só para o indivíduo singular, mas faz parte do percurso de toda uma humanidade, ou seja, daquilo que torna o homem um verdadeiro homem.
É certo, portanto, que a compreensão de homem na obra Sobre a pedagogia reenvia a esses três momentos na educação: infante, juvenil e autônomo. Sabendo que no processo de formação da educação os três se interdependem e se relacionam. Para se tenha um homem com as suas potencialidades e categorias racionais e autonomia, para oriente a si mesmo, é preciso, pela educação, que o homem seja moldado, a fim de alcançar a sua finalidade moral e essencial, ou seja, a razão, a moralidade, a autonomia, a perfeição. 

 A distinção entre a educação pública e privada na formação humana

         A Educação é o modo essencial de formar o homem moralmente, pois o eleva da condição primitiva para a de homem. A Educação se faz pela formação que se efetiva, pela disciplina e pela instrução. A primeira é negativa, pois afasta do homem os seus defeitos e a segunda é positiva, pois concede ao homem um direcionamento moral.  Com ela o homem pode ser bom, sem ela pode ser um mau educador de sua geração futura.  Portanto, Kant sustenta:
O homem não pode se tornar um verdadeiro homem senão pela educação. Ele é aquilo que a educação dele faz. Note-se que ele só pode receber tal educação de outro homem, os quais a receberam igualmente de outro. Portanto, a falta de disciplina e de instrução em certos homens os torna mestres muito ruins de seus educandos. (KANT, 1999, p.15).
Os espaços onde a educação se efetiva são dois: o da família e o do estado. O da família diz respeito à educação privada, o do estado, à pública.  As duas se relacionam, mas cada qual tem a sua importância fundamental na formação do homem.            
            A educação pública diz respeito às informações e não sai do seu âmbito público e comunitário. A educação pública completa utiliza-se da instrução e formação moral, pois, assim, tanto molda o estado físico e preparatório, como a caráter próprio do homem, aquilo que se remete ao seu perfil e sua conduta. Neste sentido, ela comporta um local chamado Instituto de Educação, cuja finalidade é o aperfeiçoamento da vida doméstica ou familiar. Ao instituto se paga uma determinada quantia, a fim de manter o ambiente e surtir os educadores do Instituto. Este instituto, ou escola pública, segundo Kant, tem um objetivo: “Estes devem prestar a realizar certas experiências e a formar pessoas aptas para que possam dar uma boa educação doméstica” (KANT, 1999, p.31). Daí, inversamente proporcional ao mundo contemporâneo, a educação pública é a base fundamental da constituição e construção do homem em sua dignidade e cidadania com base na família.
            A educação privada submete o homem à prática dos preceitos. Ficam responsáveis por ela, os pais ou outrem que o queira, ou se responsabilize pelos seus filhos. O apoio de outrem faz merecer um pagamento ou recompensa pelos serviços prestados, o mesmo se faz também na educação pública. Disto resulta um problema que pode acontecer entre a responsabilidade dos pais e a dos que permanecem incumbidos de educar as crianças: “Mas tal educação, ministrada por auxiliares, tem a gravíssima circunstância de dividir a autoridade entre os pais e esses governantes. A criança deve regular-se pelos preceitos de seus governantes e, ao mesmo tempo, seguir os caprichos de seus pais.” (KANT, 1999, p.31). Nesse sentido é de fundamental importância que os pais cedam à autoridade aos que se responsabilizaram pelos seus filhos. Dessa forma torna-se possível uma organização e uma orientação moral, uma prática de preceitos que não está inclinado aos caprichos ou apego dos filhos.
            Em suma, a educação pública passa a ser a mais importante, pois a sua fundamentação está na educação do sujeito a fim de prover a sua cidadania e a sua elevação da condição de menor idade à maioridade. É importante citar que no processo educacional as formas de educação e instrução da criança e do jovem têm uma finalidade de desenvolver a sua autonomia. Daí a proposta de orientação de um horizonte que o conduza à humanização e à dignidade do homem. A relação das formas de educação, do privado ao público, é uma preparação que, por meio de vários recursos como brinquedos, alimentação, instrução, esportes, jogos, trabalho, disciplina, e desenvolvimento das disposições naturais do indivíduo, tenta promover as condições necessárias para se ter o homem capacitado, tanto no seu aspecto físico como no seu caráter, e nos aspectos relativos a sua índole e valores, ou seja, na sua moral. Alma e corpo passam a ser aquilo que deve ser trabalhado com o intento de promover a natureza, a qual o homem está convidado a ser: livre, moral, sociável e cidadã.

 Natureza bruta e liberdade na educação

            A Educação é a base fundamental para construção do homem em seu processo de dignidade e humanização. No aspecto da formação entra-se em contato com dois elementos que fazem relação com as questões éticas do homem: a disciplina e a instrução. Antes de qualquer coisa é importante se compreender que o homem é constituído por duas naturezas: uma boa e uma má[7]. Porém o que marca a efetivação do homem é a sua vontade. A disciplina, na educação, é o instrumento de purificação do homem, que permite afastá-lo de suas inclinações e maus costumes. Daí a disciplina funcionar na intenção de afastar do homem aquilo que é marca de seu estado selvageria.  A selvageria é definida como uma vontade declinante, que não segue ou não está em conformidade com a razão, pois, conforme escreve Kant:
Quando se deixou o homem seguir plenamente a sua vontade durante toda a juventude e não lhe resistiu em nada, ele conserva uma certa selvageria por toda a vida. [...] Um erro, no qual cai comumente os grandes, é o de não se lhes opor nenhuma resistência durante a juventude, porque estão destinados a comandar. No homem, a brutalidade requer polimento por causa de sua inclinação à liberdade; (KANT, 1999, p.14).
            A Educação, portanto, faz parte da formação do homem, no intento de promover a realização da liberdade, porém isso só é possível pela moralidade.
            Outra característica marca o estado barbárie do homem: as inclinações às paixões. Elas são tendências, ou inclinações, às escolhas que agradam, ou que obtenha o prazer do indivíduo que a prática. Neste sentido, há uma tentativa de comodidade, pois o que garante a satisfação da vontade do homem, muitas vezes o acomoda. Daí ser fundamental a disciplina na promoção da moralidade e do caráter do homem que: “É preciso antes domar as paixões. No que toca às suas tendências, o homem não deve deixa-la tornarem-se paixões, antes devem aprender a privar-se um pouco quando algo lhe é negado. Sustine quer dizer: suportar e acostumar a suportar!” (KANT, 1999, p.86).
            Na formação educacional, a disciplina é a promotora da moralidade no sentido negativo, porque ela orienta a conduta humana para sua finalidade natural: a moralidade. A abstenção e a privação de tendências que não promovem, ou não estão de acordo com as leis da moralidade, são aspectos da disciplina. A instrução é o aspecto positivo da Educação, pois conduz de uma forma positiva a vontade humana a partir de sua natureza, a liberdade. A liberdade é o aspecto apodítico (universal e necessário) por onde o homem, pelo imperativo categórico, deve pôr em prática a sua moralidade. Daí ser livre sigunifica não se deter no que é contra as leis da natureza essencial do homem. É escolher aquilo que promove a realização das leis racionais. A disposição da liberdade possibilita ao homem a condição de ser moral, de outra forma isso não seria possível. Portanto, no homem existe uma pré-disposição natural da liberdade para a efetivação do imperativo categórico. Segundo Kant argumenta:
O homem é tão naturalmente inclinado à liberdade que, depois que se acostuma a ela [, a disciplina,] por longo tempo, a ela tudo sacrifica. Ora esse é o motivo preciso, pelo qual é conveniente recorrer cedo à disciplina; pois, de outro modo, seria muito difícil mudar depois o homem. (KANT, 1999, p.13).
            Para Kant a liberdade é a condição necessária e final da moralidade humana. Sendo assim, ele necessariamente só pode agir moralmente pela educação, com sua liberdade de escolha, podendo ser assim, formado moralmente, e segundo as leis naturais, ou seja, segundo a razão. A disciplina e a instrução são instrumentos que promovem a realização do homem como ser racional. É salutar também destacar que na liberdade é que se tem a orientação de uma boa vontade. Daí, para que haja em comum acordo uma liberdade, é preciso às máximas, que conduzem o homem para uma produção de suas normas, que têm a forma de imperativo categórico e em sua realização que ele se torna livre. Justamente pra esse fim, ou seja, para sua liberdade é que ele age moralmente conforme sua formação pedagógica.

 Leis imperativas da educação prática na moralidade do homem

            Na cultura geral educacional existem os aspectos físicos e morais, cuja finalidade é fortificar a personalidade do jovem em sua formação. Na formação física o jovem é mandado para a escola a fim de ser formado, porém, a princípio, a formação se faz pela disciplina e instrução. Ao jovem são impostas regras para serem seguidas. Nesse primeiro momento, o homem não tem consciência das máximas a que ele dever se autodeterminar e muito menos das máximas que compõe a lei, a qual ele está em contato na formação educacional. A lei, que está composta na disciplina e instrução, é estranha a seu ver, porque ainda não foi despertado no jovem suas máximas. Esta faz parte do segundo momento, que é o da formação moral, em que nele há desenvolvimento de máximas, a qual deve se guiar. Aqui, a disciplina não tem mais utilidade, pois esta só tem a função de promover o hábito, até que o indivíduo desenvolva o seu entendimento para determinar a sua realidade tendo como base uma moralidade. Depois das máximas efetivadas pelas leis da razão, o homem não precisa depender da disciplina para efetiva a sua ação. Daí ser preciso que na formação educacional, de acordo com Kant,
[...] cuidar para que o discípulo aja segundo suas próprias máximas, e não por simples hábito, e que não faça simplesmente o bem, mas o faça porque é bem em si. Com efeito, todo o valor moral das ações reside nas máximas do bem. Entre a educação física e a educação moral existe essa diferença: a primeira é passiva em relação ao aluno, enquanto a segunda, ativa. É necessário que ele veja sempre um fundamento e a consequência da ação a partir do conceito de dever. (KANT, 1999, p.68).
            As máximas são inferências produzidas pelo indivíduo. Elas estão no campo do dever e do possível. Por conseguinte, o homem deve pensar se uma ação (passiva ou ativa) deve ser efetuada por ele, e se essa ação que tem um caráter geral pode ser realizada por todo ser humano, sem ofender a sua integridade. Portanto, para se fundar uma moral no homem é preciso incutir essas máximas no jovem a fim de formar seu caráter. Segundo Kant argumenta:
Se se quer formar a moralidade não se deve punir. A moralidade é algo tão santo e sublime que não se deve rebaixa-la [...]. O caráter consiste no hábito de agir segundo certas máximas. Estas são de princípios a da escola, e mais tarde, as da humanidade. A princípio a criança obedece a lei. Até as máximas são leis, mas subjetivas; elas derivam da própria inteligência do homem. (KANT, 1999, p.76).
            A noção de dever passa a ser as máximas orientadoras da moralidade do jovem. Ademais é o ponto principal para que se tenham máximas válidas apodíticas,[8] é a incondicionalidade do exterior ou de suas paixões e a condicionalidade das leis da razão, para que o indivíduo se determine, e aja em sua realidade, representando-a e efetivando-a. Dessa forma, o agir por dever é o imperativo impositivo que se encontra na vontade boa para efetivar as leis da razão e dever se relacionar em dois níveis: para consigo e para com o outro. No primeiro, o agir, segundo a conveniência, é o que consiste em conservar uma dignidade interior do homem como tal. O dever se faz na valoração e aderência da dignidade da natureza humana. A consciência dessa dignidade é algo fundamental na vida do jovem em sua formação. No entender de Kant:
Deve-se-ia fazer a criança perceber a dignidade humana em sua própria pessoa, por exemplo, no caso de solidez, a qual pelo menos desdiz da humanidade. A criança pode, porém, colocar-se abaixo da dignidade humana quando mente, desde que já possa pensar e comunicar seus pensamentos aos demais. (KANT, 1999, p.90).
            No segundo aspecto, o respeito e a obediência aos direitos humanos práticos devem ser a instrução a que se guia a vontade humana do formando. Essa obediência e respeito são necessários, para que o homem possa pôr em prática a efetivação da lei e para que a mesma lei tenha um valor que ressalva a sua dignidade, e da humanidade, em um sentido geral. Os valores da virtude, como a beneficência, o domínio de si, a lealdade, a decência, e pacificidade, a honradez, a modéstia e a temperança, são elementos característicos que propiciam um melhor desempenho, uma melhor aderência à moralidade do formando. Portanto, a condição para o homem tornar-se moral é
[...] quando eleva a sua razão até aos conceitos do dever e da lei. Pode-se, entretanto, dizer que o homem traz em si tendências originárias para todos os vícios, pois tem inclinações e instintos que o impulsionam para um lado, enquanto sua razão o impulsiona para o contrário. Ele, portanto, poderá se tornar moralmente bom apenas graças a virtude, ou seja, graças a uma força exercida sobre si mesmo, ainda que possa ser inocente na ausência dos estímulos. (KANT, 1999, p.85).
Com o imperativo, proporcionado pela educação, o homem chega ao seu estágio de autonomia, de maior idade. Isso quer dizer que a sua conduta não precisa ser moldada por leis exteriores, por normas e regras desconhecidas a se ver, e muito menos punições para repreensão de sua má conduta, pois agora as leis naturais da razão fazem parte de sua personalidade e a sua efetivação entra no campo da moralidade. Neste sentido, o homem é determinação de si e a sua vontade boa é a própria razão que o conduz a um dever. Isso se realiza mediante a formação educacional do homem.

CONCIDERAÇÕES FINAIS

            Portanto, a pedagogia de Kant indica os caminhos que a educação deve percorrer como um objetivo prático e fundamental: a formação do homem, a  sua moralidade, a sua cidadania e o seu valor significante. Observar o homem nos seus estágios de formação (infantil, juvenil, adulto) é perceber que a natureza humana é algo que se constrói e se molda ao seu destino: a perfeição. Porém, para que esse progresso se realize é preciso o papel da educação. Ela, diferente de hoje, não só tem o dever de informar, mas de formar a personalidade do indivíduo, a ponto deste agir moralmente. Neste sentido, essa preocupação não se apresenta como impositiva e limitante do caráter do homem, mas na promoção da dignificação do mesmo. É de salutar importância compreender que a educação, para Kant, tem a função de seguir o rigor da razão, pois esta é o que constitui essencialmente a natureza humana e a que a distingue da dos demais seres. Impõe-se, com efeito, necessariamente, o limite da educação e um dever específico, ou seja, preocupação de se desenvolver aquilo que é produto da racionalidade no homem e a dignificação humana, a tal ponto de não haver uma contradição nas relações sociais entre si. Para tanto existe o rigor da instrução e da disciplina, e as leis da racionalidade que determinam o perfil e o agir do sujeito.
            A escola pública deveria está atenta à formação do indivíduo no seu sentido ético e moral, porém, na atualidade, o seu caráter funcional está limitado á informação e a inserir o homem no mercado de trabalho. Daí existir um vazio em que se está fadado a construir, por nós mesmo, uma personalidade e uma moralidade. Antes a família, a religião e a educação eram fundamentais para construção do indivíduo como pessoa nos seus aspectos de dignificação. Hoje quem é detentora desse poder e de influência decisiva, na formação do homem, é a mídia e os sistemas virtuais de comunicação. Porém, estes, em vez de formar o homem como ser que precisa de uma moralidade, que não agrida ou não rebaixe o valor de sua espécie, na verdade, promove o oposto: a deformação do homem e a relativização de valores essenciais na constituição da humanidade. Daí permanecer a pergunta fundamental relativa à educação, pois a educação atual tem construído um homem melhor e consciente do seu agir social e das categorias que compete ao seu caráter pessoal, político, social e espiritual, ou ela apenas está preocupada em informar as crises mundiais que tem como fundamental produtor efetivo a humanidade que inclina a sua vontade para o suicídio de sua espécie? Uma mudança no pensar e na forma do homem ser e agir pela sua educação é urgente. Quem sabe no campo da racionalidade possa ocorrer a sua parcela de contribuição?!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KANT. Fundamentação da metafísica dos costumes. [textos filosóficos; 7]Edições 70, 2009.193p.
KANT.Sobre a Pedagogia.[Tradução de Francisco Cock Fontanella]2ª ed. Editora Unimep, 1999.107p.
KANT. Crítica da Razão Pura; Tradução de Valério Ronden e Udo Baldu Moosburge. 2ª.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
REALE.  História da Filosofia: Do Humanismo a Kant. Paulinas, 1990, São Paul, p.907-940
PASCAL. O Pensamento de Kant. Editora Vozes,8ª ed. Petropolis, RJ, 2003.


[1] Emmanuel Kant, na Crítica da Razão Pura (1781, p.12) comenta da revolução do pensamento filosófico que deveria se dá, a exemplo da matemática e da Ciência da Natureza, pela revolução no modo de pensar a realidade. Nesse sentido o conhecimento deveria ser regulado pelas suas condições de possibilidades a partir dos elementos a priori na mente humana.  Daí a revolução da forma de pensar em Kant parte exclusivamente das condições do conhecimento que fazem parte das categorias facultativas da razão.
[2]  Na obra O pensamento de Kant (1980, p. 32) Georges Pascal deixa clara a definição de crítica atribuída por Kant: Trata-se de um exame crítico da razão, isto é: de um exame que tem por fim- e tal é o sentido etimológico da palavra ‘crítica’- de discernir ou distinguir o que a razão pode fazer e o que é incapaz de fazer.
[3] Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (2009, p.61) Kant descreve que o imperativo categórico manda conformar-se com a lei da razão, e não contendo a lei nenhuma condição que a limite, nada mais resta senão a universalidade de uma lei em geral à qual a máxima da ação deve ser conformidade que o imperativo a represente como necessária. Ou seja, que o indivíduo deva agir segundo uma máxima tal que possa ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.
[4] Conforme Kant (1999, p.12) A disciplina é negativa porque ela promove o afastamento do homem de sua natureza bruta e sua ação no homem só determina o hábito sem um sentido essencial no homem. Portanto, o homem que é disciplinado, não necessariamente tem uma autonomia de si, ou um sentido essencial, marca do seu perfil, para agir.

[5] O estado de selvageria se refere às inclinações negativas que o homem pode ter pelos maus hábito, ou pela falta de disciplina. (Cf. KANT, 1999, p. 12).
[6]  Segundo Pascal (1977, p.61) o entendimento: é um a faculdade cognitiva não-sensível, isto é, uma faculdade de conhecer por meio de conceitos; mas conceitos, como predicados de juízos possíveis, ou seja, relacionam-se com a alguma representação de um objeto ainda indeterminado.
[7]  Na obra a religião dentro dos limites da razão(2008, p.31), Kant apresenta o homem como sendo composto de duas naturezas: uma boa e outra má, porém, sua condução moral vai ser uma busca pela efetivação da natureza boa que faz parte do aspecto da racionalidade.
[8] Diz respeito às máximas que são universais, portanto apitas para todos e necessárias, pois constituem uma exigência da razão (Cf. PASCAL, 2009, p.63).

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